Dia Internacional de Combate ao Câncer: dificuldades e vitórias no tratamento

Neste 4 de fevereiro, pacientes com diagnóstico da doença narram seus desafios e medos na busca por saúde

A auxiliar administrativo Maria Machado, 55 anos, é gaúcha e mora em Florianópolis desde 2002. Cinco anos depois, em 2007, recebeu o diagnóstico da doença e o devido tratamento até a mastectomia, cirurgia para retirada da mama, realizada em pacientes com câncer. Neste 4 de fevereiro, Dia Internacional do Combate ao Câncer, ela aguarda um novo exame.

Maria Machado, paciente de câncerMaria Machado, de 55 anos, aguarda uma biópsia para saber se tem um novo câncer na mama remanescente – Foto: Divulgação/ND

Um teste realizado no ano passado, durante a campanha do Outubro Rosa, entretanto, mostrou novas lesões na mama que restou. Maria voltou a ficar preocupada e aguarda uma biópsia no HU (Hospital Universitário), de Florianópolis, para saber a dimensão do novo problema e se realmente é um problema.

“Fiz tudo o que precisava, fui lá e uma profissional disse que não poderia fazer o exame, pois não tinha agenda. Eles [o HU] tinham uma demanda de mulheres pra fazer esse exame e só iam marcar a minha quando pudessem cumprir com a demanda”, lamenta Maria.

Neste dia de combate ao câncer, ela ressalta que os pacientes dessa doença sofrem muito, principalmente com a insegurança e o estigma do diagnóstico como sinônimo de morte.

“Como temos esse dia, vamos aproveitar para levantar a bandeira de fortalecimento do SUS. Fazer valer a Lei dos 30 dias, que garante o diagnóstico até 30 dias; a Lei dos 60 dias, que determina o início do tratamento em até 60 dias após o diagnóstico”, enfatiza.

A importância do diagnóstico precoce e do tratamento do câncer

Maria está em sintonia com o Dr. Luiz Fernando Sommacal. Profissional da Unidade de Cirurgia Ginecológica Oncológica Complexa, no “Istituto dei Tumori di Milano”, da Itália, Sommacal lembra que não se deve postergar uma cirurgia, nem o início do tratamento do câncer, por medo da Covid-19, por exemplo.

“Estima-se uma queda de 50 mil diagnósticos por câncer, por causa dos laboratórios fechados, hospitais com problemas e a população com medo de contrair a Covid-19, mas devemos pensar que o câncer não é nosso amigo, não vai aguardar”, pontua o médico.

Para Sommacal, desde que os pacientes não descuidem das medidas de prevenção à Covid-19, devem seguir o tratamento do câncer.

Foi o que ele disse a Monique Almeida, logo que a pandemia chegou ao Brasil, quando ela estava prestes a realizar um procedimento cirúrgico para vencer o câncer. Monique estava com receio de ir para a mesa de cirurgia e, encorajada pelo Dr. Sommacal, superou o medo.

“Chego até a me emocionar. Foi pesado. Nunca tive vontade, nem o sonho de ser mãe, mas perder a possibilidade frustra e deixa a pessoa impotente. O apoio do médico, do meu esposo, da família foi essencial”, afirma Monique.

Monique Almeida, paciente de câncerMonique Almeida fez cirurgia contra o câncer em abril de 2020, em plena pandemia de Covid-19 – Foto: Divulgação/ND

Ela conta que teve dias mais complicados, momentos tristes, principalmente após a confirmação de que precisaria fazer a cirurgia.

“Isso me baqueou bastante. Ir para uma mesa de cirurgia. Ele [o médico] comentou que talvez precisasse de sangue. Pensei que ia para a cirurgia e não voltaria”.

Monique voltou, mas muitos pacientes não têm a mesma sorte. O câncer figura como a terceira causa de mortes no Brasil, atrás apenas dos acidentes ou mortes violentas e das cerca de 300 mil mortes por doenças cardiovasculares, entre as quais infarto, AVC (acidente vascular cerebral) e aterosclerose.

Segundo o Dr. Sommacal, para o triênio 2020-2023, a estimativa do INCA (Instituto Nacional do Câncer) é de mais 625 mil casos por ano: “sabendo-se que 70% é atendido no sistema público, que está quase colapsado pela injeção de uma nova doença, tudo conspira para termos dificuldades”, avalia o médico.

Exames preventivos

Maria tem 55 anos, Monique 34. A primeira é auxiliar administrativa e, a segunda, arquiteta. Em diferentes momentos da vida, elas enfrentaram o câncer, superaram os medos e, hoje, reconhecem a importância do monitoramento.

O Dr. Sommacal se preocupa com essa questão. Segundo ele, somente o câncer no colo do útero tira a vida de uma mulher a cada dois minutos no mundo, 250 mil pessoas por ano.

Além disso, é o quarto em frequência na mulher, atrás dos cânceres de mama, pulmão e intestino. Apresentando esses números, Sommacal ressalta a importância da vacinação do HPV, vírus causador do câncer no colo do útero.

Luiz Sommacal, médico que trata pacientes com câncerDr. Luiz Fernando Sommacal reforça a importância do diagnóstico precoce do câncer – Foto: Divulgação/ND

“Quando a pessoa entrar em contato com o HPV, por ter sido imunizada, desenvolve anticorpos específicos para o tipo de HPV contido na vacina e, portanto, estará protegida”, afirma o médico.

Segundo ele, a Austrália, em fevereiro de 2007, vacinou toda a população feminina até os 26 anos e foi pioneira na vacinação dos meninos até os 26 anos. O resultado disso é que, cerca de um ano depois, não havia notificação da presença de lesões do HPV nos meninos e meninas vacinadas.

Câncer e coronavírus

O ano de 2020 é classificado por muitos como atípico. O motivo, claro, é a pandemia de coronavírus. A crise sanitária que colocou sistemas de saúde de cabeça para baixo em todo mundo também sacudiu o respeitado SUS (Sistema Único de Saúde), do Brasil, preocupou profissionais de saúde experientes e trouxe incertezas.

Até um profissional com 30 anos de estrada, a exemplo do Dr. Sommacal, tirou lições de 2020. Segundo ele, as pacientes com câncer de colo de útero, de uma maneira geral, são mais jovens.

  1. Ele conta que a maioria das pacientes tinham até 45 anos e que chegou a atender uma paciente que enfrentou câncer no colo de útero e o coronavírus em paralelo.

Ela teve sintomas leves a moderados da doença: falta de ar, tosse seca, bastante dor no corpo, fraqueza, coriza e perda do olfato.

“Ou seja, teve aquele quadro clínico bastante expressivo, mas não evoluiu para um quadro de pneumonia e, felizmente, não teve necessidade de ventilação assistida, nem de atenção em UTI”, pontua o médico.

A força de Maria

Maria Machado recebeu o diagnóstico do câncer em 2007. Natural de Canoas, no Rio Grande do Sul, ela se apresenta como sobrevivente do câncer de mama. Também é voluntária na AMUCC (Associação Brasileira de Portadores de Câncer) desde 2012.

Maria fez o seu tratamento via SUS, no CEPON, desde então, segue acompanhando a saúde. A suspeita de um novo câncer trouxe mais aflição ao caso dela, que está aguardando com ansiedade a biópsia no HU. Esperançosa, acredita que não vai demorar, mas se preocupa com outros casos.

“E as pessoas lá no início do tratamento, quanto tempo vai levar? Levou 30 dias para marcarem minha biópsia, não considero um tempo ruim, mas e agora, quanto tempo mais vai demorar?”, questiona a paciente. “No momento, faço parte da estatística de mulheres que estão aguardando por uma biópsia”, enfatiza.

Na AMUCC, Maria procura ajudar outras pessoas no que ela chama de “empoderamento do paciente”, um trabalho que prepara quem tem o diagnóstico ou suspeita de câncer a correr atrás dos seus direitos. Segundo ela, em 2020, a assessoria migrou para o online, mas não parou. “Faz parte do controle social, cobrar o que é nosso por direito”, sentencia.

A coragem de Monique

Monique Almeida tem 34 anos e descobriu o HPV em 2010. Desde então, ela manteve o acompanhamento com ginecologista e, em dezembro de 2019, sua médica recomendou um exame mais aprofundado.

“Fiz uma mini biópsia, daí quando veio o resultado, foi o definitivo: eu estava com o câncer”.

Foi quando Monique conheceu o Dr. Sommacal, que analisou a biópsia dela, pediu mais exames e constatou a necessidade da cirurgia de emergência.

“Meu quadro estava se encaminhando para algo mais complicado, então, a gente fez a cirurgia do ano passado”, comenta a paciente.

A cirurgia de Monique foi em abril de 2020. Seis meses depois, ela retornou para novos exames e continua com a saúde em dia. Ela retornará em breve ao médico e, assim, será nos próximos três anos: examinar para ter a certeza de que o problema não voltou.

Casada há cinco anos, Monique se sentiu frustrada por não poder engravidar. Mas, no momento, não pensa em adotar uma criança: está focada na “correria da vida profissional”.

No futuro, não descarta a possibilidade: “quando chegar em uma idade com mais estabilidade, que não precise viver nessa loucura, não seria um empecilho”.

Feliz, tranquila, tocando a vida, Monique lembra que chegou a adiar a cirurgia do câncer por alguns dias. Amparada por seu médico, ela venceu a insegurança e obteve ótimos resultados: “imagina se tivesse esperado passar a pandemia, não teria me tratado até hoje”.

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