Douglas Borba revela nova compra e Zeferino reclama de pressão

O nd+ teve acesso às gravações dos depoimentos prestados ao MP pelos investigados no processo de compra de 200 respiradores por R$ 33 milhões, envolvendo a empresa Veigamed

Em depoimento ao MP (Ministério Público) em 2 de maio, o ex-secretário da Casa Civil Douglas Borba revelou que o governo do Estado fez mais um pagamento antecipado a um fornecedor que ainda não entregou os respiradores.

O nd+ teve acesso às gravações dos depoimentos prestados ao MP pelos investigados no processo de compra de 200 respiradores por R$ 33 milhões, envolvendo a empresa Veigamed.

No depoimento, Borba diz que também foram pagos R$ 4 milhões por 30 respiradores via uma empresa chamada Edera.

O ex-secretário da Casa Civil Douglas Borba revelou que o governo do Estado fez mais um pagamento antecipado a um fornecedor que ainda não entregou os respiradores – Foto: Reprodução/NDO ex-secretário da Casa Civil Douglas Borba revelou que o governo do Estado fez mais um pagamento antecipado a um fornecedor que ainda não entregou os respiradores – Foto: Reprodução/ND

“Um fato novo que eu trago, desde que a gente descobriu essa compra dos respiradores, o governador ordenou que fosse feita uma sindicância, uma varredura em todos os contratos durante a pandemia e nós detectamos mais um processo grave ocorrido na Secretaria da Saúde, datado de 19 de março, de mais uma compra de respiradores”, diz o ex-secretário, que prossegue:

“Na verdade, são dois processos, um de 20 e outro de 10 respiradores. Totalizam cerca de R$ 4 milhões, de uma empresa chamada Edera, o pagamento de igual forma foi feito antecipado e também não foram recebidos pelo governo do Estado os equipamentos comprados.”

No dia seguinte, o ex-secretário da Saúde, Helton Zeferino, também prestou depoimento e confirmou o que disse Douglas, isentando-se, no entanto, de responsabilidade. Em seu depoimento ao promotor Alexandre Graziotin, da 26ª Promotoria de Justiça da Capital, Zeferino afirmou diversas vezes ter sido pressionado por Borba para acelerar processos de compra na saúde, principalmente na aquisição de equipamentos de proteção individual (EPIs).

“As primeiras duas semanas foram de furacão. Começaram a acontecer algumas coisas na secretaria muito estranhas”, afirmou Zeferino.

“Por exemplo, nós anunciamos que estávamos com transmissão comunitária dentro do Estado. E aí nós começamos a perceber que dentro das nossas unidades hospitalares, só para ter uma ideia, a quantidade de EPIs que nós consumíamos em um mês passou a ser consumida em uma semana”, prosseguiu o ex-secretário, exonerado havia dois dias.

Em seu depoimento, Zeferino afirmou diversas vezes ter sido pressionado por Borba para acelerar processos de compra na saúde – Foto: Reprodução/NDEm seu depoimento, Zeferino afirmou diversas vezes ter sido pressionado por Borba para acelerar processos de compra na saúde – Foto: Reprodução/ND

Mais adiante, Zeferino cita o nome de Leandro Adriano de Barros, advogado de Biguaçu com relação próxima a Borba e envolvido nas irregularidades dos 200 respiradores, da contratação frustrada de um fornecedor para um Hospital de Campanha de Itajaí e na pressão por aquisição de EPis.

“O Leandro apareceu através de uma indicação do Douglas Borba, essa indicação no sentido de uma empresa que pudesse comprar equipamentos de proteção individual na China”, afirmou Zeferino.

Segundo ele, em abril, Borba mostrava aflição pela demora na aquisição de EPIs via o contato que havia passado. Zeferino contou que o ex-secretário da Casa Civil chegou a ele em determinado momento e insistiu: “Por que essa compra não aconteceu ainda? Temos que comprar”.

Zeferino relatou:

“No dia seguinte, Borba apareceu na Defesa Civil e ligou na minha frente para o professor Luiz Felipe Pereira, da Controladoria-Geral do Estado. Ele insistiu: ´Essa compra tem que acontecer, essa compra tem que acontecer, não faz sentido a gente ficar barrando esse tipo de coisa, a empresa está aí disposta a participar’.

Aos investigadores, Douglas Borba reafirmou ser o braço direito do governador Carlos Moisés. O então secretário-chefe da Casa Civil também era o coordenador do colegiado de governo, grupo de secretários do primeiro escalão. “Sempre deixamos claro, ordens do governador só podem ser passadas por ele ou por mim, com a devida procuração, e não por terceiros.”

Douglas Borba passou a maior parte do depoimento buscando convencer o Ministério Público que mal conhecia a servidora pivô da investigação. Alegou que o primeiro contato com Márcia Pauli, ex-superintendente de Gestão Administrativa da SES, foi feito por aplicativo de mensagem em 22 de março, ocasião em que passou a “encaminhar propostas que recebia dos quatro cantos do estado e do país, sem qualquer filtro prévio, para que a Secretaria de Saúde avaliasse”.

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No depoimento, Borba afirmou que o primeiro contato pessoal com a servidora se deu somente no dia 2 de abril. O motivo do encontro foi a licitação suspeita citada por Zeferino: a importação de EPIs da China. O ex-secretário admitiu ter chamado a reunião justamente para tratar da compra dos equipamentos com uma empresa indicada por ele, a ECB Importação, que não ocorreu..

Os investigadores apostam agora na análise das conversas no celular apreendido do ex-secretário, que podem avançar em questões não esclarecidas durante o depoimento.

Uma delas está na última mensagem enviada de Borba a Márcia, na qual ele escreve. “Querida, força! Sabemos da tua idoneidade e boa fé. Estarei orando para que esses equipamentos cheguem e termine tudo bem. Beijo!”.

Não houve resposta.

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