Em alerta para nova onda, SC tem platô alto e afasta restrições; veja situação da Covid-19

Secretário da Saúde, André Motta Ribeiro alertou sobre risco de uma nova onda da doença em Santa Catarina; boletim da UFSC aponta vírus com forte circulação, em estabilidade alta

“Não há motivos para relaxar.” O alerta sobre a estabilidade de casos da Covid-19 em Santa Catarina é do epidemiologista e professor da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) Jefferson Traebert.

A constatação é ainda mais alarmante com a possibilidade de uma nova onda da doença, confirmada pelo secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro.

Possibilidade de nova onda de Covid-19 deixa Santa Catarina em alerta – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom/Divulgação/NDPossibilidade de nova onda de Covid-19 deixa Santa Catarina em alerta – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/Secom/Divulgação/ND

Platô alto

Entre os dias 30 de abril a 7 de maio, o Estado registrou 18.762
novos casos e 458 mortes. Em relação à semana anterior, a média de casos aumentou 19%.

O número de mortes, por sua vez, teve um recuo de apenas 12% na última semana, com 65 mortes diárias — o que representa uma queda de 14% em relação aos últimos 14 dias. Isso indica uma tendência de estabilidade, mas em um patamar extremamente elevado.

Os dados são do último boletim do Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense), vinculado à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), assinado pelo professor Lauro Mattei.

“Precisamos que tanto os índices de incidência quanto os de mortalidade caiam bastante, e não fiquem em estabilidade alta. Não estamos em um período de relaxamento”, alerta Traebert

Uma das maiores incidências da doença no país

Segundo o levantamento, no período analisado foram registrados 30 mil novos casos a cada 12 dias. Isso coloca Santa Catarina com o 4ª maior coeficiente de incidência da doença do país, medido a cada 100 mil habitantes (12.654,9). O valor é 1,76 vezes o coeficiente registrado em todo o território nacional (7.177,1).

“Em síntese, o cenário atual representado pelo comportamento do conjunto dos indicadores acima mencionados revela que a pandemia continua em uma situação ainda gravíssima no estado de Santa Catarina”, aponta o boletim.

Nova onda da Covid-19 em Santa Catarina

O secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro, alertou para a possibilidade de risco de uma nova onda da Covid-19 em Santa Catarina.

A informação foi revelada em uma audiência para tratar da possibilidade de um novo hospital público em Criciúma, com o prefeito Clésio Salvaro e o secretário municipal de Criciúma, Acélio Casagrande, conforme publicou o colunista do ND João Paulo Messer.

Frio pode potencializar nova onda – Foto: Leo Munhoz/NDFrio pode potencializar nova onda – Foto: Leo Munhoz/ND

Segundo a coluna, Casagrande relatou que, apesar de ter diminuído o número de internados em Criciúma, o índice de mortos não caiu. Além disso, o número de hospitalizados nos três hospitais da cidade mantém médias acima do que se viu na onda anterior.

Nesta terça-feira (11), Criciúma estava com 173 pessoas internadas em UTI ou clínicas. Mota Ribeiro explicou ao prefeito Clésio Salvaro que, tecnicamente, o momento é considerado de “estabilidade elevada”.

Entenda os indicadores do mapa de risco

Segundo a matriz de risco que avalia a situação da Covid-19, divulgada no sábado (8), Santa Catarina mantém 15 das 16 regiões em risco gravíssimo da pandemia — o mais alto dos indicadores.

Apenas a região da Grande Florianópolis permaneceu no nível grave (laranja). Por mais uma semana, não há cidades no nível alto (amarelo) e moderado (azul).

A região da Grande Florianópolis não foi classificada em nível gravíssimo em nenhum dos quatro índices avaliados pela matriz:

  • Evento sentinela (elevação do número de óbitos)
  • Transmissibilidade (variação do número de casos)
  • Monitoramento (número de exames RT-PCR para Covid-19 processados pelo Lacen)
  • Capacidade de atenção (ocupação dos leitos de UTI)

Por outro lado, o Alto Uruguai Catarinense está em alerta para todos os índices analisados. O novo mapa será divulgado no próximo sábado (15).

O que os números mostram?

De acordo com o Necat, a matriz de risco mostra que o número de reprodução efetivo —  indicador que mede a taxa de transmissão do vírus na população — manteve-se no patamar de 0.99, o que se consolida como uma situação gravíssima em praticamente todas as regiões. Muitas delas apresentaram, inclusive, esse indicador em um patamar acima de 1.

“Isso significa que o Sars-CoV-2 continua circulando fortemente no território catarinense”, sinaliza o levantamento.

“A transmissibilidade está alta quando estamos com esse índice em torno de 1. Mantém-se a epidemia do jeito que está, cada pessoa tem condição de infectar mais uma”, explica o professor da Unisul,  Jefferson Traebert.

“Temos que estar abaixo de 1, então não há uma queda [de casos], mantemos em nível alto. O mais importante é ressaltar que não estamos com estabilidade em um nível baixo, mas muito alto.”

O especialista afirma ainda que não há um “número mágico” para quando o nível de transmissibilidade estaria mais controlado. “É preciso que caia durante algumas boas semanas em vias de controle da epidemia. Há pessoas na fila, adoecendo. Várias delas não vão precisar de UTI, mas muitas sim, o que mostra a gravidade da doença”, reitera.

No boletim, também é possível verificar que há uma concentração de casos: dez municípios com os maiores números respondiam por 44,06% de todos os casos oficialmente registrados no Estado.

Fila por leitos de UTI continua

A taxa de ocupação de leitos de UTI adulto para Covid-19 no Estado está em 93,51% nesta quarta-feira (12). Na terça (11), eram 36 pacientes que aguardavam uma vaga em Santa Catarina.

O Estado chegou a ter 455 pessoas à espera por um leito para receber tratamento adequado, no dia 17 de março. Desde o fim de abril, o número de pessoas na espera está em queda.

O maior número de pacientes na fila é registrado na região Norte, com 30 em espera, seguido das regiões do Vale do Itajaí (4) e Sul (2). As demais estão zeradas.

SES esclarece sobre transferência de pacientes

Segundo a SES (Secretaria de Estado da Saúde), não há restrição para transferências de pacientes que necessitam de leito de UTI.

“Os pacientes podem ser transferidos e vagas de UTI são oferecidas no sistema de regulação. Inclusive, transferências são realizadas todos os dias”, informou a secretaria.

O número de pessoas em uma determinada região está alto porque “alguns pacientes estão bem assistidos em leitos de suporte ventilatório em grandes hospitais que funcionam como um leito semi-intensivo”.

Outra explicação apontada pela SES é que os fatores de distância e quadro clínico também são considerados no momento da transferência. Depende também da avaliação médica e, ainda, da manifestação da família.

Assim, é “optado pelo paciente aguardar ser absorvido em leito de UTI no hospital onde está internado ou por liberação de uma vaga em hospital mais próximo”.

Governo descarta restrições

No encontro entre André Motta Ribeiro, o prefeito Clésio Salvaro e o secretário municipal de Criciúma, Acélio Casagrande, eles admitiram que apesar da necessidade de novas restrições diante da continuidade do da doença no Estado, elas serão “impraticáveis em muitos casos”.

O governador Carlos Moisés (PSL) também informou, por meio da assessoria de imprensa, que a prioridade neste momento é reforçar as fiscalizações. “As medidas vigentes seguem valendo. Porém, as equipes técnicas da Secretaria de Estado da Saúde avaliam cenários para tomada de novas medidas.”

Há um decreto em vigor até o dia 17 de maio, que atualizou e flexibilizou algumas medidas restritivas para funcionamento de diversos setores, incluindo o comércio.

As medidas são suficientes?

O professor Lauro Mattei conclui em seu relatório que, mesmo com a estabilidade de alguns indicadores na semana, “ficou evidente que ainda são necessárias medidas restritivas para se achatar a curva de contágio”.

No final do boletim, ele opina que “lamentavelmente, observamos que os gestores atuais da pandemia no Estado continuam fazendo uma leitura bastante distinta do comportamento desses mesmos indicadores. Provavelmente tal leitura é para justificar as medidas de flexibilização”.

O professor da UFSC ainda antecipou que não estaria descartada “a possibilidade da incidência de um novo surto contaminatório em breve”.

“Acho que não pode recuar, não estamos em época de diminuição de medidas. Agora talvez não vai aumentar as restrições, estamos em nível de estabilidade alto, não estamos aumentando. Mas enquanto estivermos em um nível alto, corremos o risco de sempre aumentar”, finaliza o professor Jefferson Traebert. 

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