Em Joinville, 83 mil esperam por uma consulta na rede pública

Além das consultas, mais de 13 mil aguardam por um exame que pode demorar até 50 meses para ser agendado

Fabrício Porto/Arquivo/ND

Roberto João Cândido corre risco de ficar cego. Ele precisou apelar à Justiça, pois
nem o carimbo de urgência foi suficiente para que seu exame fosse marcado

A fila é cada vez maior na lista de espera por médicos especialistas na rede municipal de saúde. Hoje, são quase 83 mil pessoas que aguardam pelo atendimento, quantidade que representa um acréscimo de 27% em relação aos 65.147 pacientes listados até o final de 2010. Os números são da Secretaria Municipal de Saúde, conforme o último levantamento, feito em abril.

Os casos de consulta em oftalmologia lideram a necessidade de espera. São mais de 13 mil pessoas, inclusas quase 2.200 crianças. Além da longa espera pela consulta, também pode haver outra longa espera pelos exames, quando solicitados. Daí, o paciente precisa entrar numa nova fila. Na área de ultrassonografia geral, onde há maior demanda, são 10.594 pacientes aguardando. Uma espera que pode chegar a sete meses.

Entre os exames, o caso mais crítico está o oftalmológico de retinografia fluorescente – onde injeta-se pequeno volume de corante (fluoresceina sódica) em uma veia do antebraço, que circula até os olhos e permite que seja feita uma série de fotografias com filtros especiais, proporcionando a observação de inúmeros detalhes dos tecidos e da circulação da retina -, com tempo de espera de até 50 meses, mesmo para casos urgentes. Por mês, são ofertados apenas dois exames, feitos em convênio com a clínica Sadalla Amin Gahnem. Já houve tentativas da Secretaria de Saúde em comprar novos exames, mas o laboratório não tem interesse em fornecê-los.

A explicação para a falta de interesse das clínicas particulares em colaborarem é que como os órgãos públicos não podem comprar procedimentos cujos preços extrapolem os limites da tabela do SUS (Sistema Único de Saúde), não é atrativo para que oferece atendimento particular vender o serviço para o governo. Particular, este exame custa R$ 495,00.

Entre as ações da Prefeitura para ampliar o número de exames, está a oferta no próprio laboratório municipal. Para tanto, o governo ainda estuda a compra de aparelhos e contratação de novos profissionais.

DOIS PROTESTOS E SEIS MESES DE ESPERA

O aposentado Ari da Cunha, 62 anos, teve que fazer dois protestos em frente à Secretaria de Saúde para, após nove meses da primeira consulta, conseguir o retorno para oftalmologia. O atendimento deveria ocorrer no prazo máximo de três meses.

A primeira manifestação ocorreu em 24 de janeiro, quando exibiu uma faixa onde destacava o tempo de espera e a lei 8080/90, que dispõe sobre a prestação dos serviços públicos de saúde no país. Na ocasião, a secretaria entendeu que o caso, apesar de não ser prioritário, seria revisto. Na prática, nada aconteceu.

Um mês depois, o paciente voltou a protestar. No dia seguinte à reclamação, em 24 de fevereiro, ele conseguiu o atendimento. “Tive que buscar os meus direitos e ainda só depois de dois protestos e toda essa espera para conseguir a consulta”, comentou Cunha.

DRAMA PERTO DO FIM  

Para o aposentado Roberto João Cândido, 53 anos, a espera ainda não acabou. Ele aguarda desde julho de 2010 para fazer o exame de retinografia fluorescente, cujo resultado pode apontar a necessidade de cirurgia no olho. O caso é classificado como urgente. “Quanto mais tempo eu espero, maior é o risco de eu ficar cego de um olho”, diz, preocupado. 

Diante da impossibilidade de arcar com o custo na rede particular, Cândido protocolou, em outubro, reclamação junto aos ministérios públicos Estadual e Federal, com o objetivo de que a promotoria exigisse da Prefeitura a prestação do serviço, conforme o regime de urgência.

A Prefeitura foi notificada pela Justiça no final de abril. A secretaria tem até oito meses para zerar a fila dos casos não urgentes e até seis para os de urgência. A expectativa de Cândido é que ele seja um dos primeiros entre as 130 pessoas que também esperam pelo exame. “A Secretaria de Saúde me informou que devo ser atendido em cerca de 30 dias. Se for preciso, vou abrir uma nova representação no Ministério Público”.

FILAS JÁ FORAM MAIORES

De acordo com o Relatório de Gestão 2009-2010 da Secretaria Municipal da Saúde, apresentado no final de março ao Conselho Municipal de Saúde, as ações adotadas no último ano levaram a avanços na eliminação da fila de espera de exames.

Entre os procedimentos considerados de alta complexidade como, por exemplo, tomografia computadorizada, ressonância magnética e cintilografia, a oferta aumentou em 62%. A média de exames dessa natureza, em 2010, foi de 988 por mês. O relatório também aponta que houve redução na fila para o exame de ultrassonografia. Em apenas um ano, o número caiu dos quase 19 mil pacientes para 11.283.

No caso de consultas, houve o aumento do número de atendimentos. Os registros apontam mais de um milhão de consultas em 2010, sendo que 420 mil foram de urgência e emergência.

Segundo a gerente da Unidade de Planejamento, Controle, Avaliação e Auditoria da Secretaria de Saúde, Michele de Souza Andrade, há a proposta de ampliar em pelo menos uma consulta a mais por dia em toda a rede. Outra ação envolve a educação continuada dos médicos nos postos de saúde. “Estamos fazendo a orientação dos profissionais na rede básica, onde muitos encaminhamentos poderiam ser evitados. Na área de cardiologia, cerca de 30% dos casos não precisavam ser encaminhados”, informou. 

PACOTE DE EXAMES

Na área de oftalmologia, Michele informou que mesmo antes da notificação da Justiça, a secretaria já trabalhava na ampliação da oferta de exames de retinografia. “A notificação acabou nos ajudando, porque nos dá condição de adquirir os exames fora dos limites estabelecidos pela tabela SUS, o que estava sendo um entrave”, disse.

Segundo ela, está em processo de licitação a compra de 160 procedimentos, suficientes para zerar a fila de espera. Para reduzir as filas nas consultas, dois novos oftalmologistas devem ser contratados pela Prefeitura, conforme o concurso público realizado nesse ano. Atualmente são sete profissionais que atendem no sistema municipal.

LISTA DE ESPERA DAS ESPECIALIDADES

83 mil esperam por consultas

13 mil esperam por exames

10+ CONSULTAS:

Oftalmologia: 13.215 (11.020 adultos e 2.195 crianças)

Otorrinolaringologia: 5.980 (4.383 adultos e 1.597 crianças)

Ortopedia: 5.301 (5.128 adultos e 173 crianças)

Neurologia: 4.342 (2.444 adultos e 1.898 crianças)

Reumatologia: 3.251 (adultos)

Proctologia Geral: 2.367

Cardiologia: 2.348 (2.258 adultos e 90 crianças)

Dermatologia: 2.302 (2.148 adultos e 154 crianças)

Cirurgia Vascular: 2.161 (adultos)

Cirurgia Ginecológica: 1.816

10+ EXAMES:

Ultrassonografia geral: 10.594 usuários

Ultrassonografia com doppler: 2.899 usuários

Endoscopia digestiva: 1.145 usuários

Eletroneuromiografia: 677 usuários

Biometria ultrassônica: 348 usuários

Campimentria: 267 usuários

Angiofluoresceinografia: 248 usuários

Ressonância magnética: 160 usuários

Retinografia colorida: 76 usuários

Cintilografia: 70 laudos

Fonte: SMS/Abril-2011

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