Entenda o que é a ivermectina, remédio associado ao tratamento da Covid-19

O antiparasitário, ivermectina, tem sido usado no tratamento e profilaxia da Covid-19 e distribuído por prefeituras catarinenses

Assim como a cloroquina e hidroxicloroquina, a ivermectina tem sido associada ao tratamento da Covid-19. O remédio que tem despertado curiosidade e tem sido, por vezes, ingerido sem qualquer orientação médica.

Era uma quarta-feira, 7 de julho, quando a Prefeitura de Itajaí passou a distribuir doses de ivermectina aos seus mais de 200 mil habitantes. Na época, o município tinha 2.153 casos confirmados e 47 mortes pela Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

“Nós estamos começando um uso massivo para a toda a população de Itajaí”, disse o prefeito Volnei Morastoni (MDB) em uma live um dia antes do início da ação.

Ivermectina é associada ao tratamento da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus – Foto: Prefeitura de Itajaí/Divulgação

A reportagem do nd+ conversou com médicos e pesquisadores para entender o que é a ivermectina e o que se sabe até o momento sobre o seu uso no tratamento da Covid-19.

Segundo levantamento do CFF (Conselho Federal de Enfermagem) a procura pelo medicamento aumentou 128,9% nos primeiros meses deste ano em comparação com o ano anterior. A alta foi superior ao da hidroxicloroquina, por exemplo, que teve crescimento de 58%.

O que é a ivermectina

A ivermectina é um remédio comumente utilizado para tratar infecções causadas por parasitas. Ele teve recentemente suas regras de controle alteradas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), após o aumento por sua procura. Agora só é possível adquirir o medicamento com prescrição médica.

Associação ao tratamento da Covid-19

A possível eficácia da ivermectina no tratamento da Covid-19 foi inicialmente impulsionada pelo por uma pesquisa da universidade australiana Monash University. O estudo feito em laboratório, detectou a eliminação de 100% do coronavírus em células no período de 48h. Não foram realizados por esses pesquisadores testes em humanos.

Estudo brasileiro não encontra eficácia no medicamento

Uma pesquisa feita em conjunto por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) não detectou a eficácia da ivermectina no combate ao vírus.

Foram realizados testes in vitro — em culturas de células vivas — e in silico — por meio de simulação de computador — com 65 drogas. Quatro delas apresentaram bons resultados, inibindo a replicação do Sars-Cov-2 no laboratório.

A droga e o vírus foram colocados sobre células e a ação foi analisada por um computador, que quantificou o número de células infectadas, vivas e quantas morreram.

“O que aconteceu a ivermectina e a nitazoxanida: as duas com 48h a gente não enxerga mais células na cultura. Ou seja, elas mataram o vírus e mataram as células também, então elas foram tóxicas para a célula”, conta a coordenadora do Laboratório de Biologia de Sistemas de RNA da UFMG, Ludmila Ferreira.

Segundo Ferreira, o resultado encontrado não exclui necessariamente o medicamento de análises posteriores, como testes clínicos. “Mas, se fosse eu a começar um teste pré clínico neste momento, eu não começaria por essas duas”, completou

O que dizem os especialistas

Para a epidemiologista e professora do departamento de Saúde Pública da UFSC, Ana Curi, não há comprovações suficientes sobre o uso da ivermectina para a Covid-19.

“Existe uma confusão nessa informação de que a ivermectina é uma droga segura. Sim, ela é segura na dose usada e para as doenças que ela já foi testada e avaliada”, diz Curi.

Geralmente tomada em dose, o antiparasitário é usado no tratamento de parasitas internos, como a lombriga, quanto externos — piolhos, pulgas e sarna. “Mesmo assim, ela tem efeitos colaterais e interação medicamentosa”, enfatiza a epidemiologista. Entre os efeitos estão náusea, vômito, dor abdominal e até confusão mental.

Medicamento é usado no tratamento contra piolhos, lombrigas e sarna – Foto: Heung Soon/Pixabay

A endocrinologista Ana Paula Gomes Cunha defende que o uso da ivermectina pode ser uma alternativa para tratar infectados. “Não existe nenhuma outra medicação hoje com estudo, mesmo que seja in vitro, que possa prevenir, seja barata e tenha poucas contraindicações”, diz.

Ana Paula liderou a elaboração de uma carta enviada à SES (Secretaria de Estado da Saúde) em defesa de medicamentos como a cloroquina e a ivermectina para pacientes com a Covid-19.

“A sugestão era que o Estado e cada município fizesse seu protocolo com as indicações e contraindicações de cada medicação. Isso ajudaria o médico, que está na ponta, no atendimento no posto de saúde, a se sentir mais seguro para poder prescrever medicações”, comenta.

A médica defende que em uma pandemia é necessário ações para que os hospitais não fiquem lotados. “A pode escolher, ou ficar parado e esperar estudos de grandes evidências, ou a gente usar as medicações que temos em mãos com alguns graus de evidência baixo, mas que pode sim reduzir o número de internações”.

Itajaí distribuiu mais de 1 milhão de doses

Em Itajaí mais de 1 milhão de doses da ivermectina já foram distribuídas à população. A dose, segundo a prefeitura, varia em relação ao peso do paciente. Quinze dias após a primeira medicação, o morador pode se dirigir novamente ao Centreventos para buscar mais uma dosagem.

“O peso é fundamental para definir a quantidade de comprimidos que a aquela pessoa vai tomar”, disse o prefeito ainda na live. “Nós vamos fazer três ciclos de tratamento, dois dias cada ciclo”, completou.

Em Itajaí, ivermectina é distribuída em três doses – Foto: Marcos Porto/Prefeitura de Itajaí

No município, a medicação não é distribuída a gestantes, lactantes, pessoas alérgicas a ivermectina ou seus componentes, pacientes com meningite ou outros doenças que afetem o sistema nervoso central, crianças menores de cinco anos ou com menos de 15 kg.

Nessa segunda-feira (27), perto de completar um mês do início da distribuição do medicamento, Itajaí viu o número de casos da Covid-19 crescer. De 2.153, em 8 de julho, para 3.063 nesta segunda, de acordo com a última atualização da prefeitura. O mesmo aconteceu com o número de mortes, que aumentou mais de 90% no período, passando de 47 para 90 vítimas.

Ainda na segunda, o município anunciou uma ampliação nos polos para distribuição do antiparasitário. Também foi comunicado que profissionais da Univali (Universidade do Vale do Itajaí) farão um acompanhamento dos resultados do uso da medicação. O objetivo é fazer uma análise estatística a partir dos questionários respondidos pelos moradores neste período.

Mais municípios catarinenses adotam o antiparasitário

Pelo menos quatro municípios catarinenses planejaram ou adotaram a ivermectina como parte do protocolo de tratamento da Covid-19. Em Xanxerê, a decisão foi anunciada em uma coletiva de imprensa no dia 22 de julho pela secretaria de saúde.

“Nesse momento nós temos alguns profissionais da área da saúde, alguns contra outros à favor do uso da medicação, mas Xanxerê como administração, prefeitura, secretaria de saúde, vai deixar disponibilizado na farmácia para que o nosso profissional e o paciente estava consciente que ele pode hoje ter um tratamento”, disse Irene Goralski.

Ainda na coletiva, Goralski reconheceu que o uso dos medicamentos não tem eficácia comprovada contra a Covid-19. “Não sabemos se pode ser, o tratamento como é questionado, para o coronavírus, mas esse é o nosso profissional da área da saúde que vai estar fazendo essa análise juntamente com o paciente”, completou.

Em Balneário Camboriú, a polêmica em torno da adoção da ivermectina resultou na saída da então secretária de saúde Andressa Haddad. Enfermeira, Haddad publicou nas suas redes sociais sua discordância com a adoção do antiparasitário no tratamento do novo vírus.

“Nas últimas semanas observei que não mais estava contribuindo para as tomadas de decisões do executivo, decisões essas totalmente divorciadas do que eu, Andressa Bertiel Willeke Hadad, Enfermeira e Secretária Municipal de Saúde entendo como científicas”, escreveu.

Além dela, três médicos saíram do comitê de enfrentamento à Covid-19 no município após a mudança no protocolo. Somam-se a ivermectina, a azitromicina, Vit D, zinco e outros medicamentos disponíveis à população mediante prescrição médica.

Estudo na Grande Florianópolis

Na Grande Florianópolis, o município de Biguaçu estudou o uso da ivermectina no tratamento precoce de pacientes com a Covid-19. Segundo a prefeitura, uma nota técnica seria publicada e permitiria a prescrição do medicamento caso o médico considerasse necessário.

O documento, no entanto, não saiu. O antiparasitário não faz parte dos medicamento recomendados pela gestão, que indica aos médicos a hidroxicloroquina.

Em nota publicado no dia 16 de julho, a prefeitura “assegura que os médicos não cometerão infração ética ao receitar esses medicamentos no enfrentamento da pandemia”.

Para a gestão municipal, medicamento, que não tem eficácia comprovada contra a Covid-19, deve ser receitado a pacientes nas fases iniciais da doença, até o quinto dia do início dos sintomas.

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