‘Enterrei seis de Covid ontem e tenho sete para hoje’, diz coveiro de Chapecó

Coveiros se desdobram para dar conta da quantidade de sepultamentos diariamente. Nesta terça-feira, pelo menos seis vítimas do coronavírus seriam enterradas no Cemitério Jardim do Éden

No maior cemitério de Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, o ritmo de trabalho mudou desde março do ano passado por causa da pandemia do coronavírus. Todos os dias, novas covas são abertas para o sepultamento de vítimas da Covid-19 no Jardim Morada do Éden, que fica localizado às margens da SCT-480.

Cresceu o número de sepultamentos no cemitério devido às mortes por coronavírus – Foto: Willian Ricardo/NDCresceu o número de sepultamentos no cemitério devido às mortes por coronavírus – Foto: Willian Ricardo/ND

A média diária de enterros saltou de três para seis. A demanda leva em consideração o avanço da pandemia que já matou 210 chapecoenses desde março do ano passado. Nos últimos seis dias foram 46 óbitos, sendo oito somente nesta terça-feira (23).

Embaixo do sol forte, que predominava na manhã desta terça, estava o coveiro Dirceu Correia. Se protegendo da doença respiratória com uma máscara branca e segurando uma pá suja de terra, o trabalhador contava com a ajuda de um colega para abrir mais uma cova nos fundos do cemitério, ao lado de túmulos antigos. “Essa vai ser para às 5h da tarde”, detalhou o trabalhador. 

A demanda só não é maior, pois Chapecó tem outros cemitérios espalhados na cidade e no interior. Mas mesmo assim, o número impressiona. “De sábado para cá todos os dias sepultei seis. Hoje, se não falhar, aquele agendado para às 15h, vão ser sete, sendo que seis são de Covid. O primeiro da manhã foi de infarto”, comentou o coveiro, perto das 10h.

Dirceu Correia conta com a ajuda de colegas para dar conta da demanda diária – Foto: Willian Ricardo/NDDirceu Correia conta com a ajuda de colegas para dar conta da demanda diária – Foto: Willian Ricardo/ND

Apesar de tomarem todos os cuidados para evitar a contaminação pelo vírus, o medo está presente no trabalho do dia a dia. Com o agravamento da pandemia, a rotina no lugar ficou ainda mais árdua. Correia lembra que já foi contaminado pelo vírus no início da pandemia. “Fiquei bem mal, porque tenho problema no pulmão. Fiz um tratamento forte e me recuperei”, considera. 

Ao lado da cova que estava sendo aberta por Dirceu, já estavam outros corpos sepultados. “Esse aqui é de Covid”, apontou para um túmulo coberto de flores coloridas sob a terra. 

Equipe defasada 

Dois membros da equipe de quatro homens estavam afastados nesta manhã de terça, pois se contaminaram com a Covid-19. Por conta da alta demanda de sepultamentos, a limpeza dos túmulos precisou ser suspensa temporariamente.

Aos fundos do cemitério Dirceu e um colega abriram mais uma cova – Foto: Willian Ricardo/NDAos fundos do cemitério Dirceu e um colega abriram mais uma cova – Foto: Willian Ricardo/ND

“Para nós está sendo muito acelerado. Estamos com dois funcionários com a Covid e a equipe ficou reduzida. Hoje precisei pegar duas pessoas de fora para ajudar e estamos em quatro, mas ontem trabalhamos em seis”, completou o coveiro que estava acostumado a fazer cerca de três enterros por dia antes da pandemia. 

Apesar do aumento de enterros, não há um espaço específico para as vítimas do coronavírus. Ele conta que as vítimas são enterradas em áreas alugadas ou comprados pelas famílias. “Hoje, se precisar enterrar 150 pessoas, nós temos espaço imediato”, disse.

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