Entidades de SC se manifestam sobre nebulização com hidroxicloroquina

MP investiga mortes de pacientes após uso de medicamento sem comprovação científica por nebulização; há casos confirmados no RS e AM

Santa Catarina volta a ser destaque por conta de polêmicas envolvendo o combate à Covid-19. Desta vez, porém, a repercussão negativa está por conta de médicos do Estado que estariam receitando a hidroxicloroquina por meio de nebulização para pacientes diagnosticados com a doença.

O procedimento tem gerado polêmica, uma vez que o tratamento é considerado ineficaz  e não recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Cartela de difostato de cloroquinaCovid-19: Entidades se manifestam sobre a nebulização com hidroxicloroquina – Foto: Agência Senado/Divulgação/ND

Além disso, há investigações do Ministério Público sobre o caso de uma paciente que morreu após realizar o tratamento experimental em Manaus (AM) e outros quatro casos no Rio Grande do Sul, ocorridos nos meses de fevereiro e março, respectivamente.

Sem denúncias em SC

O MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) informou que, até a tarde desta quinta-feira (15), não havia nenhuma representação – denúncia – sobre o uso da medicação em nebulizações.

Devido à repercussão e gravidade do tema, a reportagem do ND+ entrou em contato com associações médicas para que se manifestassem sobre o assunto.

Por meio de assessoria, a SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) informou que não se manifestará sobre o processo de nebulização da hidroxicloroquina, especificamente. Porém, o grupo já havia se mostrado contrário ao uso desta substância para o tratamento ou prevenção da Covid-19. A SBPT adotou o mesmo posicionamento quanto ao uso da Ivermectina e Nitazoxanide.

“Os resultados dos estudos publicados até a presente data não demostraram eficácia e segurança na profilaxia ou tratamento da Covid-19. A recomendação da SBPT é contrária ao uso de cloroquina ou hidroxicloroquina na prevenção ou tratamento da Covid-19”, destaca a nota.

Efeitos adversos

Além de ser preparada em fármacias para inalação, também existem denúncias no país do uso diluído de comprimidos de hidroxicloroquina para a nebulização. Em entrevista ao R7, a presidente da SBPT, Irma de Godoy, explicou quais problemas a inalação de comprimidos pode causar no organismo.

“Remédios para inalação são próprios para isso, com o mínimo de substâncias associadas. O comprimido, além de ter os componentes do medicamento, ainda tem silicato e uma série de substâncias que vão irritar o pulmão, causando inflamação maior do que a pessoa já tem”, explicou a presidente.

Além disso, Godoy alertou que a inalação feita com algum tipo de comprimido pode ter um resultado trágico. “As pessoas que fizeram morreram, há riscos grandes envolvidos nisso. Se algum médico propor isso, você tem que, no mínimo, procurar uma segunda opinião”, completou.

A ACM (Associação Catarinense de Medicina) foi procurada pela reportagem do ND+ para falar sobre o assunto, mas informou que não se manifesta sobre uma prática pontual.

“Na base de todas as suas ações está o respeito ao relacionamento entre o médico e o paciente, um dos alicerces dos seus valores institucionais. Por essa razão, a entidade reafirma o compromisso com a autonomia médica”, informou a ACM em nota.

Entenda a história

A família do aposentado Lourenço Pereira, de 69 anos, entrou na Justiça questionando o uso de nebulização com hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19. O homem era morador da cidade de Alecrim, no interior do Rio Grande do Sul, e foi internado no dia 19 de março, no Hospital de Caridade de Alecrim, vindo a falecer no dia 22.

Segundo o prontuário ao qual a família teve acesso, o médico Paulo Gilberto Dorneles prescreveu no dia 20 de março o procedimento de nebulização com o medicamento que, de acordo com diversas pesquisas, não tem eficácia no combate ao coronavírus.

A filha do aposentado, Eliziane Pereira, 32 anos, conta que a família não foi comunicada nem consultada sobre o tratamento. De acordo com ela, Lourenço foi internado sem a presença de nenhum familiar, já que a mãe de Eliziane estava na casa da filha, em Porto Alegre, para tratamento médico.

As informações entre os familiares e o paciente eram trocadas através do celular, e foi assim que Eliziane recebeu a notícia de que o pai estava se sentindo pior, justamente após a nebulização com cloroquina. “Não tivemos nenhuma informação do quadro do meu pai quando ele internou, o que o médico falou, ele mesmo nos repassou no dia 19.”

Embora o prontuário aponte que o tratamento tenha começado apenas no dia 20, Eliziane diz acreditar que a nebulização com cloroquina tenha iniciado já no dia 19.

“Tem algumas informações escritas a mão e para nós que não somos da área não conseguimos entender, mas acredito que a medicação tenha iniciado já no dia 19 porque no decorrer do dia 20 meu pai me passou uma mensagem dizendo que estava se sentindo estranho porque no dia seguinte já não conseguia respirar sem ajuda do oxigênio.”

Lourenço era semianalfabeto – de acordo com a filha sabia apenas escrever o próprio nome e, mesmo assim, de forma incompleta.

A família afirma que não foi consultada em nenhum momento sobre o tratamento que iria ser aplicado.

“O fato de já no sábado o nosso pai não conseguir ficar sem oxigênio nos faz questionar essa conduta, que não nos foi repassada, questionada ou informada, por qual motivo ela foi usada, o que me leva a crer que ela tenha contribuído para a piora do meu pai.”

Já no Amazonas, a Secretaria de Estado da Saúde demitiu e investiga a médica ginecologista Michelle Chechter, que trabalhava na maternidade Instituto da Mulher Dona Lindu, em Manaus, por aplicar nebulização de hidroxicloroquina como tratamento para Covid-19.

Pelo menos uma paciente morreu após o procedimento, conforme a Secretaria. Ela havia acabado de dar à luz. O bebê passa bem.

A pasta informou que o tratamento não faz parte dos protocolos terapêuticos do Instituto Dona Lindu “nem de outra unidade da rede estadual de saúde, ainda que com o consentimento de pacientes ou de seus familiares”, diz nota da secretaria. 

*Com informações da Agência Estado e do Portal R7

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