Entrevista: família italiana abandona emprego e se isola em chácara após pandemia

Acompanhado da esposa e do filho, Ignesti Cristiano, que já morou em Itajaí, está há 20 dias em isolamento social

“As pessoas nem imaginam o que está acontecendo por aqui. Não é brincadeira, é uma catástrofe. Tem que se cuidar de verdade”.

Foi com um alerta, emitido com tom sério e forte sotaque, que o italiano Ignesti Cristiano, de 52 anos, iniciou a conversa com a reportagem do nd+ sobre a situação da pandemia da Covid-19 na Itália.

Simona, Ignesti e Lorenzo, na chácara onde moram na Itália – Foto: Divulgação/NDSimona, Ignesti e Lorenzo, na chácara onde moram na Itália – Foto: Divulgação/ND

Ele está há 20 dias em isolamento social ao lado da esposa, Simona, de 49 anos, e do filho Lorenzo, de 27 anos. O trio se encontra em quarentena na chácara da família, onde mora há cinco anos.

A propriedade fica localizada a 15 km da cidade de Pistoia, na região da Toscana, no centro da Itália. A 40 km fica a cidade de Florença, onde Simona trabalhava como guia turística. Já Ignesti trabalhava com antiguidades e obras de arte. Ambos tiveram que abandonar os empregos em função da pandemia.

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Quarentena

Antes do isolamento, o casal continuava em suas funções, mas por medo da propagação da Covid-19, decidiram permanecer de vez em casa. Ignesti conta que a situação de isolamento teve início no Norte da Itália.

Muitas pessoas acabaram se deslocando para outras regiões, o que fez com que a doença se espalhasse e o isolamento fosse necessário em todo o país. Para Simona, a situação é triste e o que ela mais sente falta é do trabalho como guia turística.

“Não podemos trabalhar porque é proibido. O meu emprego foi muito afetado, em especial, porque eu atuava em Florença. Houve diversos cancelamentos por parte dos turistas. Além disso, os museus estão fechados”, lamenta.

Ignesti conta que é preciso uma certificação para sair de casa para fazer compras, por exemplo. “Se a polícia parar uma pessoa na rua, e ela não estiver com a certificação, pode ser multada em 3 mil euros”. O valor equivale a cerca de R$ 17 mil.

Demora das autoridades

As notícias sobre o vírus começaram a circular na Itália já em janeiro. No entanto, para Ignesti, as autoridades do país não deram a devida importância à época.

Família está em isolamento há 20 dias – Foto: Divulgação/NDFamília está em isolamento há 20 dias – Foto: Divulgação/ND

“A Itália demorou para perceber a gravidade da situação. Ainda hoje, ônibus e trens continuam funcionando. Assim não tem como combater o vírus de forma efetiva. Não sabemos quando isso tudo vai acabar”, conta.

As escolas, no entanto, foram fechadas e as aulas estão sendo ministradas de forma online. A maior preocupação do governo italiano no atual cenário é com a situação financeira do país.

As ações de combate ao vírus são precárias, segundo Ignesti, e a polícia não consegue conter todas as pessoas que não respeitam a quarentena. O fim do isolamento estava previsto para o dia 3 de abril. Porém, o governo italiano decidiu prorrogá-lo por mais 15 dias.

“Não vamos chegar a lugar algum se tudo não parar. Acho que mesmo após essa data, a vida não voltará ao normal, o comércio não vai abrir”, projeta Ignesti.

Mudança de hábito

A família teve que adotar alguns hábitos de higiene no dia a dia para prevenir a doença. Eles aumentaram o cuidado ao lidar com o dinheiro e moedas. Cada vez que manuseiam, lavam as mãos com água e sabão.

O casal Ignesti e Simona. Ele trabalhava com antiguidades e ela, atuava como guia turística – Foto: Divulgação/NDO casal Ignesti e Simona. Ele trabalhava com antiguidades e ela, atuava como guia turística – Foto: Divulgação/ND

Ignesti diz que orientações de como combater a doença são transmitidas pela televisão, destacando a importância de lavar bem as mãos, não tocar no rosto, boca e olhos e cuidar com o manuseio de objetos.

Em uma dessas transmissões, a família soube que o vírus sobrevive em plástico e superfícies metálicas até 24 horas. Agora, as embalagens dos produtos adquiridos no mercado são devidamente higienizadas.

Cuidados ao sair de casa

Os supermercados só permitem a entrada de, no máximo, quatro pessoas e é necessário portar luvas, máscaras e manter uma distância de 1 metro e meio entre as pessoas. Nos 20 dias de isolamento, Ignesti conta que saiu de casa cerca de quatro vezes para ir ao mercado. No carro, além do motorista, só é permitido transportar mais um passageiro no banco detrás.

Chácara da família Cristiano fica na região da Toscana, na Itália – Foto: Divulgação/NDChácara da família Cristiano fica na região da Toscana, na Itália – Foto: Divulgação/ND

Os próprios mercados oferecem, na entrada, luvas e álcool. As máscaras, conforme Ignesti, estão cada vez mais difíceis de serem encontradas.

Ele conta que nos primeiros dias de isolamento, as pessoas ficaram com medo e encheram os carrinhos de produtos. O governo italiano acabou por alertar a população de que não havia a necessidade de compras excessivas e que os serviços essenciais continuariam abertos e abastecidos.

Para evitar ambientes com alta circulação de pessoas, Ignesti e a família evitam os grandes mercados e costumam frequentar um pequeno comércio próximo da chácara. No pequeno estabelecimento, entra apenas uma pessoa por vez.

Preocupação com o filho caçula

Inegsti se mudou para a cidade de Itajaí, em Santa Catarina, no ano de 2010. Na época, ele conta que a Itália vivia um período de crise econômica. Casado com uma mulher brasileira, ela sugeriu que o casal fosse morar no Brasil. O italiano trabalhava em uma plataforma de petróleo. Em 2016, Ignesti se divorciou e voltou para a Itália, casando-se novamente.

Mesmo com o retorno ao país natal, a ligação com o Brasil continua. Ignesti tem um filho de 10 anos que mora com a mãe, em Joinville. O município no Norte do Estado registrou a primeira morte por Covid-19, na noite desta segunda-feira (30).

O italiano diz sentir medo por conta do saneamento básico precário no Brasil e torce para que as escolas permaneçam fechadas. Ignesti esteve no Brasil pela última vez, em setembro de 2019.

Amigos próximos que são médicos e atuam em hospitais na Itália, contaram a Ignesti que já não há mais espaço para atender os doentes. Três ex-colegas de trabalho do italiano contraíram a doença e foram internados em hospitais. No entanto, Ignesti não soube informar o estado de saúde deles.

Idosos não estariam mais sendo atendidos nas unidades de saúde por conta da superlotação dos hospitais. E o medo já está instalado.

“Temo que aconteça no Brasil o mesmo que aconteceu na Itália. Não é só uma simples gripe. Depois que contrai o vírus não há como voltar atrás e se cuidar. O vírus afeta muito a saúde”, conclui Ignesti.

03 Comentários

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  • Fernando
    Fernando
    Nao adianta comprar italia com Brasil... assassinatos? Chineses trabalhando principalmente na lombardia, frio, idosos, turismo...
  • Eduardo Santin
    Eduardo Santin
    bora se alimentar do sol
  • Tomelli pinto
    Tomelli pinto
    O ideal é fazer como esta família se isolar e deixar o resto se fouder, e se não der resultado tentem fazer arminha pro vírus.

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