ND Explica: o epicentro de contágio e locais de surtos da Covid-19 em Santa Catarina

Grande parte das regiões do Estado se encontra em nível grave de transmissão da doença. Para o Coes, cenário pode ser ainda mais preocupante

A atualização do mapa de risco para Covid-19, divulgada nesta quinta-feira (22), mostra que subiu para dez o número de regiões em nível alto de risco (amarelo) para a doença em Santa Catarina. Outras seis regiões estão em nível grave (laranja). Nenhuma aparece em nível gravíssimo (vermelho) ou moderado (azul).

Região da Grande Florianópolis é considerada o epicentro da Covid-19 em Santa Catarina – Foto: Anderson Coelho/ND

No entanto, a dimensão transmissibilidade do mapa apresenta um cenário bem diferente. Isso porque 16 regiões do Estado estão no nível grave e duas – Extremo Oeste e Médio Vale do Itajaí – no nível gravíssimo. Somente a região do Alto Vale do Rio do Peixe está no nível alto.

A transmissibilidade é analisada na matriz de risco potencial para a doença no Estado ao lado de outras três dimensões: evento sentinela, monitoramento e capacidade de atenção.

O dado acende o alerta para o aumento no contágio da doença causada pela novo coronavírus. Entre os motivos estão a aglomeração de pessoas em eventos sociais, praias cheias, deslocamento para o trabalho e até as campanhas eleitorais.

Entenda a dimensão

A superintendente da Vigilância em Saúde, Raquel Bittencourt, explica que a dimensão transmissibilidade tem dois indicadores: regressão e infectividade.

O indicador da regressão é aferido pela variação do número de casos de Covid-19 por semana. É feita a análise do número de casos da semana anterior com os casos da semana atual.

Se esse número for menor que -15%, o nível é azul (moderado); se for entre -15h% e +5% é amarelo (alto); se for entre 5 e 15% é laranja (grave) e se for acima de +15% é vermelho (gravíssimo).

O indicador infectividade mede a proporção dos casos ativos da doença pelo número de habitantes.

Sendo assim, até 10/100 mil é considerado nível azul; 10-25/100 mil, nível amarelo; 25-50/100 mil, nível laranja e acima de 50/100 mil, nível vermelho. A composição desses dois indicadores resulta na cor da dimensão da matriz de risco.

Mapa de risco de acordo com o item transmissibilidade. Atualização foi divulgada nesta quinta-feira (22) – Foto: Divulgação

A especialista em Epidemiologia do Coes (Centro de Operações de Emergência em Saúde), Maria Cristina Willemann, explica que quando as regiões se encontram no nível vermelho para essa dimensão, quer dizer que há uma velocidade alta no contágio em relação à população e uma variação positiva.

Pandemia em expansão

Para a professora Eleonora D’Orsi, que atua no Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a pandemia da Covid-19 em Santa Catarina está em plena expansão. Segundo ela, os dados sugerem que o Estado atravessa uma terceira onda da doença.

A primeira teria sido em março, quando foram notificados os primeiros casos; a segunda, em julho, quando o quadro da doença se agravou no Estado e a terceira, durante o mês de outubro.

A professora também é membro do Observatório Covid-19, iniciativa que contabiliza os dados produzidos nas Secretarias de Saúde, fazendo correções no atraso das notificações e projeções do número de casos.

As informações obtidas pelo Observatório indicam que o número de casos da doença está aumentando em Santa Catarina.

“Está acontecendo uma pandemia em expansão. Infelizmente, as únicas medidas preventivas disponíveis atualmente são o distanciamento social, o uso da máscara, a higiene das mãos e a etiqueta da tosse”, diz.

Para a professora Eleonora D’Orsi, a pandemia da Covid-19 em Santa Catarina está em plena expansão – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/ND

Aumento no contágio

Maria Cristina Willemann alerta que, nas últimas semanas, houve diversos relatos de aglomeração de pessoas em eventos sociais e praias.

Além disso, o período de campanha eleitoral também estaria contribuindo para as aglomerações, segundo ela.

Nesse cenário, a especialista destaca dois fatores que são preocupantes: o fato das pessoas estarem cansadas de ficar em casa aliado à flexibilização das atividades por necessidade econômica.

Sendo assim, a liberação de atividades levaria a população ao falso entendimento de que a situação no Estado melhorou e que a pandemia já passou. Contudo, os dados do contágio mostram que a situação não é bem essa.

Epicentro da transmissão

Florianópolis tem sido considerada o novo epicentro do contágio do novo coronavírus em Santa Catarina. Com mais de 1.281 casos ativos, a Capital está com cenário pior do que em julho, que foi um dos meses mais críticos.

A cidade passou de 659 casos ativos no dia 7 de outubro para 957 doentes na última sexta-feira (16). O aumento gira em torno de 300 novos casos por semana. Os dados são da Sala de Situação da GVE (Gerência de Vigilância Epidemiológica).

Ao todo, são 141 vítimas e 16.700 infectados pela Covid-19 desde o início da pandemia.

último boletim do NECAT (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense), vinculado à UFSC, mostra que a taxa de crescimento de casos ficou em 7% em Florianópolis na primeira semana de outubro. No mesmo período, nos principais municípios catarinenses, essa mesma taxa não foi superior a 4%.

Situação preocupa

Willemann diz que a região da Grande Florianópolis requer atenção e medidas restritivas mais rígidas para barrar o aumento no número de casos da Covid-19. O alto número aliado à grande circulação de pessoas nas ruas só tende a piorar a situação.

Ainda assim, a região que tinha nível gravíssimo para a transmissibilidade na semana passada, apareceu com nível grave na última atualização do mapa de risco.  A especialista explica que isso se dá pelo fato da Grande Florianópolis ser a mais populosa do Estado.

Fluxo de pessoas que precisam se deslocar para o trabalho é um dos fatores que tem contribuído para o aumento na transmissão da doença na região da Grande Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/ND

Com isso, quando os casos são computados na matriz de risco, eles acabam “diluídos” pelo número de pessoas. Portanto, o aumento de casos na região não fica tão evidente quando analisado pelo mapa.

“O fato é que cada um desses casos ativos tem a possibilidade de transmissão. Então, a tendência é que haja contágio rápido entre as pessoas. Assim, a pandemia tomará proporções que já vivenciamos antes e queremos evitar passar por isso de novo”, ressalta.

Deslocamento para o trabalho como fator

O fluxo de pessoas que precisam se deslocar para o trabalho é um dos fatores que tem contribuído para o aumento na transmissão da doença na região da Grande Florianópolis, de acordo com a professora Eleonora D’Orsi.

Neste contexto, os olhares se voltam, principalmente, para o Centro da Capital. A professora explica que, em média, 100 mil pessoas se deslocam todos os dias para a região para trabalhar.

Grande parte vem dos municípios vizinhos. O transporte coletivo atuaria como um foco de transmissão da Covid-19 por promover o ajuntamento de pessoas em um espaço fechado.

Cenário pode ser ainda pior

A especialista Maria Cristina diz que o quadro da doença em Santa Catarina pode ser ainda pior do que o apresentado na matriz de risco, sobretudo, na região da Grande Florianópolis. Isso porque existe um atraso na informação natural do que acontece no Estado para o dado que o governo efetivamente possui.

“A pessoa fica doente. Leva dois dias para procurar o serviço de saúde. Solicita exame. Leva alguns dias para sair o resultado. Só depois que essa informação é colocada no sistema e enviada para o Coes”, esclarece.

Além disso, o sistema que computa as informações, mantido pelo Ministério da Saúde, passou por instabilidade na semana passada, o que causou ainda mais atraso na contagem dos casos ativos.

Em paralelo, o aumento no número de casos teria sobrecarregado os municípios, que demoraram mais para contabilizá-los.

“É possível que os dados que temos no Estado essa semana esteja muito diferente dos dados dos municípios. Por isso, é importante olharmos para as informações oferecidas por eles, neste momento”, conclui.

Respeito aos protocolos

A transmissão de forma comunitária, ou seja, de pessoa para pessoa estaria colocando a Grande Florianópolis na posição de epicentro da doença.

Aglomeração na Praia do Rosa, em Imbituba, neste feriadão de 12 de outubro – Foto: Divulgação/ND

O secretário de Saúde da Capital, Carlos Alberto Justo da Silva, diz que mais de 60% dos casos ativos são de pessoas na faixa etária dos 18 aos 30 anos.

Ele ressalta a necessidade das pessoas criarem consciência sobre a situação e seguirem as medidas restritivas impostas pela prefeitura.

“Há pessoas que questionam o uso da máscara. Outras negam a existência da pandemia. Precisamos reverter isso. Há uma pandemia e ela está crescendo. Não adianta termos construído excelentes protocolos quando eles não são respeitados pela população”, adverte o secretário.

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