Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Epidemias na velha Floripa

A salvação era o chá de ervas cultivadas no próprio terreno. Até o chá de esterco de gado ajudava a combater a coqueluche

Dona Lola, que pariu 19 filhos, dos quais dois morreram em criança, e ainda suportou três abortos, confessa que, até o fim dos anos 1970, era difícil a família que não perdesse crianças e jovens, principalmente na Cachoeira do Bom Jesus.

A salvação era o chá de ervas cultivadas no próprio terreno. Até o chá de esterco de gado ajudava a combater a coqueluche. O Norte da Ilha era uma região carente de tudo, a começar pelo acesso, onde bastava chover pouco para formar barreiras de lama. Médicos? Só uma vez por mês.

<span dir="ltr"> Vermes, </span><span dir="ltr">malária, sarampo, coqueluche, comuns na região, </span><span dir="ltr">tornavam assustador o índice de óbitos infantis</span> &#8211; Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil Vermes, malária, sarampo, coqueluche, comuns na região, tornavam assustador o índice de óbitos infantis – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Os irmãos Nelinho e Nelito foram almas boas que levavam doentes para o Hospital de Caridade. Vermes, malária, sarampo, coqueluche, comuns na região, tornavam assustador o índice de óbitos infantis.

Os problemas sanitários provocavam muitos males. A Prefeitura de Floripa só em 1980 que deu à grande parte das famílias nativas casinhas de madeira, que serviam de privada sobre buraco aberto perto da residência. Para limpar impurezas fecais, usava-se papel de embrulho ou folha de bananeira.

Comuns os terrenos tomados de plantas essenciais para o chá, como o sabugueiro, laranja, e quem não criasse animais, recorria aos estercos dos pastos vizinhos. “Pra tudo havia o remédio caseiro. Minha mãe Maria das Dores, que morreu com 101 anos, só ia dormir depois do chá de erva-doce”, recorda Lola.

Na praia da Cachoeira…

– Ô Venanço, quando não tinha patente tu fazias onde?

– No mato, longe das cobra, responde Venâncio às gargalhadas.

– Mas tu não usava urtiga, não né?

– Puta meda, Lelo, sonhou com a cobra, foi?

– Venanço, naquela época nunca que eu ouvi falar em papel higiênico. Papel jornal também era difícil. A folha de bananeira era de mais asseio, mas a gente precisava ver se não tinha aranha nem abelha escondida.

– Meu avô morreu com 107 anos e ele fazia patente de madeira. E como a família era grande e alguns com diarreia, a cada mês o vovô precisava cavar mais um buraco. Banho de gamela? Duas vez por semana, mas a gente comia bem e não era muito de escovar dente. E dormia bem depois de apagar a vela. Pulava da cama antes das 5 horas. Tempo bom, aquele – emociona-se Venâncio.

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