Espécies já ameaçadas de extinção enfrentam novas ameaças durante pandemia

Os animais estão sendo alvo de caça furtiva que aumentou com o isolamento social pela presença reduzida de policiais e turistas

Em meio a pandemia do novo coronavírus, uma emergência global de vida selvagem está se desenvolvendo. Rinocerontes, elefantes, pangolins, onças-pintadas e girafas são os animais que mais correm risco de extinção, segundo o jornal britânico The Independent.

Espécies já ameaçadas de extinção enfrentam novas ameaças durante pandemia, segundo reportagem do jornal britânico The Independent – Foto: Montagem/ND

O jornal revelou recentemente a escala potencial da crise depois que o turismo entrou em colapso e as doações filantrópicas diminuíram, o que afetou os meios de subsistência de centenas de guardas florestais da linha de frente e milhares de outras pessoas que trabalham na conservação e nas proximidades .

De acordo com o Fundo de Conservação de espécies MBZ (The Mohamed Bin Zayed), quase um terço dos conservacionistas temem que a pandemia aumente as ameaças a espécies e habitats, incluindo o aumento da caça furtiva devido à presença reduzida de policiais e turistas, além da maior dependência da caça por comunidades vulneráveis. 

Estão surgindo relatos de avanços na caça furtiva em todo o mundo: três aves gigantes ibis, ameaçadas de extinção, foram recentemente envenenadas no Camboja; quatro tigres e seis leopardos foram mortos desde o isolamento social na Índia. Em Uganda, Rafiki, o raro gorila-das-montanhas se tornou um dano colateral de caçadores que procuravam animais menores.

Rinocerontes, elefantes, pangolins, onças-pintadas e girafas são espécies já ameaçadas de extinção e que enfrentam ameaças crescentes durante a pandemia, de acordo com especialistas que conversaram com o jornal.

Rinocerontes

O grupo de conservação Rhino 911, informou que nove rinocerontes foram furtados na África do Sul desde o confinamento, porém os números podem ser maiores. Do outro lado da fronteira, a Rhino Conservation Botswana relatou o assassinato de outros seis rinocerontes.

Os animais são procurados pelos caçadores furtivos pelo chifre, que buscam valor ornamental ou podem ser moídos em medicamentos tradicionais.

Meio milhão de rinocerontes percorriam a África e a Ásia no início do século passado, mas hoje restam apenas 29 mil na natureza. Três espécies de rinoceronte – preto, Javan e Sumatra – estão criticamente ameaçadas.

Cathy Dean, CEO da Save The Rhino , disse ao The Independent que o impacto total da pandemia da caça furtiva nas populações de rinocerontes ainda está em avaliação.

Elefantes

Os elefantes também estão na lista dos animais em estado de alerta para extinção. Em junho, um chocante massacre de seis elefantes ocorreu em um dia no Parque Nacional Mago, na Etiópia. Outros dez elefantes foram mortos na África Oriental, além de dois elefantes que morreram eletrocutados por caçadores  no estado de Odisha, na Índia.

Entre 2007 e 2014, uma média de 55 elefantes foram mortos todos os dias na África, principalmente por suas presas de alto valor e pela procura por Marfim.

Max Graham, fundador da organização internacional de caridade Space for Giants, disse que “há atividades ilegais crescentes em áreas protegidas. Estamos preocupados com a oportunidade que o isolamento apresenta para o tráfico de vida selvagem”.

Pangolins

O mamífero mais traficado do mundo atraiu a atenção global depois de ser identificado como um elo potencial na disseminação do coronavírus.

Estima-se que 200 mil pangolins são retirados da natureza todos os anos em toda a África e Ásia, de acordo com a WildAid . Os caçadores furtivos têm como alvo pangolins para carne e escamas de queratina, um ingrediente da Medicina Tradicional Chinesa.

O professor Ray Jansen, presidente do Grupo Africano de Trabalho sobre pangolins, registrou 97 toneladas de escamas de pangolim deixando a África em 2019, mas esse volume caiu para cerca de 30 toneladas desde a pandemia. “O fechamento de fronteiras e o fechamento de portos de carga, levou a uma enorme redução no tráfico de escalas de pangolins e outros produtos de pangolins”, disse.

Onça-pintada

As onças-pintadas são listadas como ‘quase ameaçadas’ na lista vermelha da união internacional para a conservação da natureza. Hoje, cerca de 173 mil onças são deixadas em estado selvagem, tendo já sido extintas no Uruguai e El Salvador.

A fragmentação de habitats e os incêndios florestais cada vez mais desenfreados, destinados intencionalmente ao desmatamento por agricultores e pecuaristas, são uma ameaça crescente às onças-pintadas, que também são alvo de retaliação quando se aproximam do gado.

Esteban Payan, diretor regional do Programa Jaguar na América do Sul da Panthera, a organização global de conservação de gatos selvagens, disse ao The Independent que só no início do mês de julho, houve relatos de sete onças mortas. 

“Não acreditamos que os assassinatos sejam motivados pelo comércio ilegal, mas é provável que venha de fazendeiros e agricultores que encontrem onças-pintadas em suas terras. Também pode haver encontros acidentais de pessoas que se deparam com os animais enquanto caçam durante a quarentena”, disse.

Girafas

As girafas estão sofrendo uma extinção silenciosa e a pandemia trouxe sinais crescentes dos problemas. Em Uganda, sete girafas mortas foram encontradas em questão de dias no Murchison National Park, de acordo com a organização Uganda Conservation Foundation . Algumas subespécies já são consideradas ‘criticamente em perigo’.

David O’Connor, presidente da Save Giraffes Now, apontou que os projetos de conservação de girafas estão várias décadas atrás de outras espécies em risco. Detalhes sobre o número de girafas caçadas podem ser difíceis de estimar devido a um sistema de monitoramento irregular.

“Sabemos que a caça ilegal está acontecendo em algumas áreas mais do que em outras e algumas espécies de girafas estão particularmente em risco. No entanto, existem muitas incógnitas na dinâmica da caça furtiva de girafas, pois não há a mesma rede de monitoramento que existe para elefantes em toda a África, por exemplo”, completou.

+

Saúde