“Estamos trabalhando no limite e próximos da falta de equipamentos”, alerta intensivista

Médico intensivista Glauco Westphal conta como tem sido o trabalho das equipes em Joinville, do risco da falta de equipamentos e da multiplicação de leitos que continua sendo insuficiente

“Em todos os hospitais de Joinville, estamos trabalhando com mais que o dobro da nossa capacidade normal. Estamos às portas de ter carência de equipamentos, como ventiladores mecânicos, e insumos básicos”. 

As declarações acima são do médico intensivista Glauco Westphal, coordenador das UTIs da Unimed e do Hospital Bethesda e responsável pelas residências de terapia intensiva do Hospital São José e da Unimed. 

Glauco Westphal, coordenador das UTIs da Unimed e do Hospital BethesdaGlauco Westphal, coordenador das UTIs da Unimed e do Hospital Bethesda – Foto: Divulgação ND

Com experiência de mais de 25 anos na área, Glauco Westphal enfrenta, ao lado de todos os profissionais de saúde, o pior momento da pandemia até agora.

O especialista fala à reportagem do ND+ sobre os desafios dos profissionais de saúde que atuam nas UTIs, a multiplicação de leitos, os tratamentos adotados e deixa um alerta. 

Joinville tinha, antes da pandemia, 10 UTIs com 99 leitos ao total e 65 médicos trabalhando, divididos entre 43 intensivistas e 22 especialistas de outras áreas. Na pandemia, o número de UTIs e de leitos da cidade mais do que dobrou, com 21 UTIs, 207 leitos e 99 médicos ao total. 

Só na Unimed, o número de leitos saltou de 19 para 37. O Bethesda, que nem tinha leitos de UTI, está com 40 só para Covid. Nesta segunda-feira (22), segundo o painel da Prefeitura de Joinville, a cidade dispõe de 195 leitos de UTI destinados ao tratamento da Covid entre adultos e infantis, mas o número é insuficiente.

“O ritmo de chegada de pacientes à UTI vem sendo maior do que o ritmo de saída dos pacientes. Isso que preocupa porque não vamos conseguir abrir leito infinitamente”, alerta o especialista, lembrando que um paciente fica, em média, de duas a três semanas internado em uma UTI. 

A impressão é que aumentar a capacidade de atendimento mais parece enxugar gelo diante da gravidade do quadro. Outra ponderação é de que, para abrir novos leitos de UTI, é preciso pessoal e pessoal treinado, equipamentos e insumos. Não basta espaço físico.

“A demanda por equipamentos, como ventiladores mecânicos, está muito alta. A gente tira um paciente da máquina e já põe outro. Chegamos a ficar perto de não ter ventilador reserva em Joinville.” E o problema é que há falta desses equipamentos no mercado, ou seja, os pedidos já foram feitos, mas a entrega pode demorar. 

Hospital Bethesda já está com 40 leitos de UTI destinados ao tratamento do novo coronavírus – Foto: Jonathan Batista/Divulgação NDHospital Bethesda já está com 40 leitos de UTI destinados ao tratamento do novo coronavírus – Foto: Jonathan Batista/Divulgação ND

Por essas razões, Glauco Westphal teme que a crise na saúde possa piorar ainda mais. “Não temos notado melhora nas últimas semanas. Toda hora chega mais pacientes e não consigo acelerar a saída dos que já estão na UTI. Eles precisam cumprir o ciclo de tratamento”, acrescenta. 

“Estamos no limite. Temos profissionais de todas as áreas dando tudo de si, se desdobrando para dar conta. Pessoas que nem eram da área, mas que hoje estão lutando para salvar vidas. Intensivistas, por exemplo, estão triplicando a jornada de trabalho e atendendo em vários hospitais”, testemunha Westphal.

Ele explica que hoje em Joinville, em alguns hospitais, dois pacientes Covid-19 chegam a dividir um mesmo box (equipamentos). O ideal seria um paciente.

Lockdown

Embora não seja a solução definitiva para a pandemia, o lockdown é sim uma estratégia para diminuir a circulação do vírus, reduzir o número de contaminados e, por consequência, a demanda por leitos nos hospitais. Essa é a visão de Glauco Westphal e que representa os médicos intensivistas de Joinville.

Com o sistema de saúde desafogado, evita-se que pacientes possam vir a morrer sem acesso a recursos adequados e tratamento especializado.

“Muitos países e até algumas cidades brasileiras adotaram o lockdown e foi bem eficaz”, reforça.

Assistência ventilatória não-invasiva (CPAP)

Técnica rotineira e utilizada muito antes da pandemia em Joinville, a CPAP – equipamento usado para enviar fluxo de ar às vias respiratórias, por meio de uma máscara – é indicada para pacientes com formas leves e moderadas da Covid-19. Acopla-se uma máscara no rosto do paciente e o CPAP passa a ofertar oxigênio. 

Westphal explica que a técnica é utilizada quando o pulmão não consegue oferecer oxigênio suficiente para a circulação sanguínea. Porém, só pode ser usada quando a insuficiência respiratória não é muito grave. Nas formas graves, a intubação traqueal se impõe. 

Aí que entra a expertise da equipe, que reúne, além de intensivistas, fisioterapeutas. “É preciso ter conhecimento suficiente para diferenciar o paciente que pode ser tratado com CPAP daquele que precisa de intubação”, sublinha o coordenador de UTIs.

” A Assistência ventilatória não-invasiva (CPAP) é um método corriqueiro dentro dos hospitais de Joinville, desde pronto-socorros até UTIs, absolutamente dominado pela nossa equipe no meio da terapia intensiva”, comenta o especialista. 

A técnica é adotada considerando, sempre, a possibilidade de evitar a intubação. Segundo Westphal, pode, de fato, ajudar muitos pacientes a não ir para intubação: de 20 a 30%. 

CPAP é e sempre foi, inclusive, utilizada para outros tratamentos relacionados à insuficiência respiratória, como asma.

Por isso, volta a frisar o intensivista, a equipe formada por médicos e fisioterapeutas precisa entender o quanto o paciente pode ou não se beneficiar do dispositivo. 

Joinville, apesar de ter um corpo técnico com bastante experiência e conhecimento na área, recebeu um reforço de profissionais no último sábado (20). Foi por meio de um convênio da Secretaria Municipal de Saúde com o Hospital Bethesda. Uma equipe de Manaus com quatro fisioterapeutas está na cidade para ajudar a disseminar o treinamento de profissionais com relação ao uso do CPAP.

A equipe vai compartilhar e trocar conhecimento com profissionais dos Hospitais São José, Bethesda e Hospital de Campanha Leste. Segundo a Prefeitura de Joinville, nem todos os fisioterapeutas estavam acostumados a usar essa técnica e, como Manaus passou por momentos bastante críticos com o sistema de saúde colapsado, aprendeu algumas lições que agora vai dividir com a equipe de Joinville.

Participe do grupo e receba as principais notícias
de Joinville e região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.

+

Saúde