Florianópolis é modelo de inovação na área de saúde

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Embora seja considerada referência no Brasil no segmento, a capital catarinense tem talentos, mas sofre com a falta de recursos e a perda de mão de obra especializada para o mercado internacional

Os especialistas são unânimes. Florianópolis está muito bem quando o assunto é inovação na área de saúde. Com mais dinheiro e mão de obra qualificada, o cenário seria ainda melhor.

A Capital é sede de muitas empresas que desenvolvem software para gestão de clínicas e hospitais, além de negócios que exploram as grandes tendências do setor, como telemedicina e inteligência artificial.

Florianópolis tem destaque em inovações na medicina – Foto: Fábio Abreu/Especial NDFlorianópolis tem destaque em inovações na medicina – Foto: Fábio Abreu/Especial ND

“Já visitei centros de inovação do Oriente Médio, Europa, América do Norte. Florianópolis não perde para ninguém. O que não temos é a grana e o ambiente favorável para fomento da inovação”, analisa o diretor da vertical saúde da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), Walmoli Gerber Jr.

A vertical saúde, criada há dez anos, reúne cerca de 50 empresas da associação que conversam sobre o setor e traçam objetivos comuns, mas Santa Catarina tem ainda mais negócios nesta área.

Segundo Gerber, Florianópolis está criando bastante, porém, um pouco limitada a softwares.

“Isso é bom e, ao mesmo tempo, ruim. Acabamos reféns de hardwares gringos. É que, no Brasil, hoje, as empresas não têm fôlego para desenvolver hardware”, explica.

Sua colega na Acate e no mercado, Karina Salum Dantas, comanda uma empresa com cerca de 600 clientes no Brasil, que desenvolve softwares para gestão de clínicas.

“Florianópolis tem um núcleo muito forte de empresas de inovação para saúde, com destaque nacional e internacional”, constata a empresária.

Marketing dirigido

Em 2016, Alex Menezes fundou a Kos, agência de marketing que atende somente empresas de saúde. Ele tem 21 clientes no Brasil, em cidades como Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Teresina e Piauí, e observa que a capital catarinense está atenta às mudanças e investindo em inovação.

“Temos três clientes em Florianópolis investindo pesado em tecnologia para indicadores. Mesmo no segmento de saúde, é nova essa questão de gestão. Mas as empresas estão evoluindo”, revela

Entre as cinco capitais do Brasil

O presidente da ACM (Associação Catarinense de Medicina), Ademar José de Oliveira Paes Jr., situa a capital catarinense entre as cinco mais relevantes, atualmente, em inovação para a saúde, ao lado de São Paulo, Fortaleza, Recife e Belo Horizonte.

“Tecnologia é o maior arrecadador de ISS (Imposto Sobre Serviços) da cidade. Como Florianópolis tem um ecossistema de saúde forte, com universidades, hospitais públicos e privados, médicos com renome internacional, startups, temos um solo muito fértil para fortalecer e crescer”, acredita ele.

A tese de Paes Jr. corrobora com a do empresário Cristian Rocha, CEO e cofundador do Robô Laura, solução que usa inteligência artificial na saúde e classifica o ecossistema de inovação de Florianópolis como muito rico. “Grandes inovações em saúde partem daqui.

Exemplo disso é a Unimed Florianópolis, uma das mais inovadoras do Brasil. É a única que tem gestão executiva, com um CEO”, ressalta o especialista.

“Fuga de cérebros” é um dos gargalos

Na visão dos especialistas, Florianópolis e o Brasil não estão em um nível melhor por causa da “fuga de cérebros”. Segundo Gerber, empresas estrangeiras contratam brasileiros para trabalhar de forma remota, causando um problema sério no país. “Precisamos criar mecanismos para nos defendermos”, desafia.

Ele conhece professores universitários que deixaram a garantia do concurso público – a tradicional segurança do brasileiro – para atender empresas do exterior e ganhar 15 mil dólares por mês.

Segundo Rocha, em relação ao resto do mundo, na área de inteligência artificial o Brasil ainda está engatinhando. Os destaques são os Estados Unidos, parte da Europa e a China.

“Temos cérebros brilhantes aqui sendo exportados para Estados Unidos e Europa, porque a moeda deles é muito mais forte do que a nossa”, destaca. Ele admite que não tem como competir com empresas de fora que oferecem salários de até 10 mil dólares sem grandes dificuldades para desenvolvedores aqui.

A empresária Karina percebe o mesmo problema. “Temos um gargalo muito grande hoje, que é mão de obra especializada. Existe demanda reprimida nas empresas e estamos em um cenário em que o colaborador está escolhendo a vaga. Há muito mais vagas do que pessoas para a área de software, não somente para saúde”, pontua.

Na pandemia, a empresa dela contratou, não demitiu. Mesmo assim, há vagas disponíveis. É mais uma empresa atrás de talentos capazes de escrever o futuro da área de saúde e criar sistemas tão inteligentes quanto os atuais, que melhoram a gestão de hospitais, democratizam o acesso à medicina de qualidade e contribuem para manter a população saudável.

Entrevista: Richard Oliveira, CEO da Unimed Grande Florianópolis

O CEO da Unimed Grande Florianópolis, Richard Oliveira, fala sobre as transformações da pandemia, a adaptação a novas tecnologias e opina sobre a posição de Florianópolis na área de inovação para saúde.

Que inovações a pandemia trouxe?

Nos últimos dois anos, demos vários saltos, especialmente em inovação e mudanças na cultura organizacional. Um dos exemplos é o aplicativo Cliente UGF, que está mais intuitivo. Pelo app, o cliente pode se conectar com o médico à distância, via telemedicina. Também lançamos, em nível nacional, cabines de pronto atendimento e telemedicina, que permitem conexão direta com o médico. Além disso, fomos uma das primeiras Unimeds a instituir o home office e a primeira a anunciar o modelo definitivamente. Mesmo depois da pandemia, nossos colaboradores poderão trabalhar de qualquer lugar do mundo, o que atrai talentos e especialistas.

Como foi a adaptação às novas tecnologias neste último ano?

Lidamos com tranquilidade e maturidade. Contamos com talentos próprios e, pelo nosso hub de inovação, o base U, nos conectamos com empresas e startups. Inovar não precisa, necessariamente, recursos tecnológicos. A inovação na saúde pode estar associada a atitudes mais simples, como a leitura de cartas escritas a mão para pacientes nesta era em que o digital predomina.

E no caso do cliente. Houve resistência?

Todas as novidades foram colocadas à disposição dos clientes e, naturalmente, os digitais aderem com maior facilidade, mas não esquecemos do fator humanizado. Em todas as inovações, o fator humano é priorizado. Nossos atendimentos prezam por um jeito de cuidar que leva em consideração o que as pessoas sentem e precisam.

Qual é a posição de Florianópolis em termos de inovação no mundo?

Ao longo dos últimos anos, tanto a Capital quanto as cidades próximas colocaram investimentos para potencializar o polo de tecnologia que essa região se tornou. E esse salto se deve, diretamente, aos empreendedores formados nas universidades locais, um celeiro de mão de obra altamente qualificada. Hoje, no Brasil, Florianópolis é referência em tecnologia, inovação e conexão com startups.

Em todas as inovações, o fator humano é priorizado. Nossos atendimentos prezam por um jeito de cuidar que leva em consideração o que as pessoas sentem e precisam.