Frigoríficos são recomendados a afastar trabalhadores indígenas no Oeste de Santa Catarina

Afastamento deve ser feito sem corte de salários; demissões de indígenas em função da pandemia podem configurar ato discriminatório

Um documento formulado pelo MPF (Ministério Público Federal) e o MPT (Ministério Público do Trabalho) recomenda às unidades dos frigoríficos que promovam o afastamento remunerado dos funcionários indígenas para isolamento em função da pandemia do novo coronavírus. O motivo é que os indígenas integram o grupo de risco.

Frigoríficos do Oeste de Santa Catarina são recomendados a afastar trabalhadores indígenas – Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

As unidades dos frigoríficos são Ecofrigo (grupo Bugio), JBS, Seara, GTB Foods e JMS (frigorífico de suínos), instaladas nos municípios catarinenses de Abelardo Luz, Chapecó, Ipuaçu, Seara e Xaxim, na região Oeste,

Essa recomendação, expedida nesse sábado (23), busca medida semelhante à que foi estabelecida em recente TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado pelo MPT, de abrangência nacional, com a Cooperativa Central Aurora Alimentos, sediada em Chapecó, onde tem 9 mil empregados.

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Nos termos do TAC, que o MPF e o MPT querem que sejam seguidos pelos demais frigoríficos do Oeste catarinense, foi reconhecido que os indígenas, por comporem grupo de risco da Covid-19, devem, nas atividades incompatíveis com o trabalho em casa, ter a dispensa remunerada caso não seja possível adotar outras medidas cabíveis.

Algumas dessas medidas seriam a interrupção do contrato de trabalho; concessão de férias coletivas, integrais ou parciais; suspensão dos contratos de trabalho (“lay off”), suspensão do contrato de trabalho para fins de qualificação (art. 476-A da CLT); entre outras permitidas pela legislação vigente, aptas a garantir o isolamento social.

Risco de demissão

A recomendação, que tem prazo de cinco dias corridos para ser cumprida pelas empresas, foi expedida a partir de representação recebida de indígenas relatando que foram ameaçados de demissão por justa causa, o que teria ocorrido em mais de uma empresa, se não comparecessem ao trabalho.

Eles ainda teriam recebido orientação para que cada trabalhador se apresentasse na empresa munido dos seus documentos pessoais, a fim de serem emitidas as rescisões, tratando-se de uma possível situação de demissão discriminatória.

O documento dos MPs Federal e do Trabalho enviado às empresas alerta que eventual dispensa de indígenas, em face da pandemia da Covid-19, pode configurar demissão discriminatória, vedada em lei, atraindo ainda a aplicação de sanções penais e a proibição de obtenção de empréstimo ou financiamento junto a instituições financeiras oficiais.

Por isso, é recomendado que os frigoríficos abstenham-se de rescindir os contratos de trabalho de indígenas ou de considerar as ausências deles ao trabalho em função de medidas de proteção contra o coronavírus como razão para sanções disciplinares ou o término da relação de trabalho.

A determinação diz ainda que a Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina deve adotar as medidas necessárias, no âmbito de sua atribuição, para assegurar o atendimento dos itens recomendados.

Prazo de cinco dias

Foi fixado o prazo excepcional de cinco dias corridos para o cumprimento da recomendação, bem como que sejam informadas aos Ministérios Públicos Federal e do Trabalho as providências adotadas para o cumprimento das determinações.

A não adoção das medidas recomendadas pode implicar todas as medidas administrativas e ações judiciais cabíveis contra os agentes que se omitirem.

A recomendação, expedida nesse sábado, é assinada pelos procuradores da República Analúcia Hartmann, Carlos Humberto Prola Júnior e Fernanda Alves de Oliveira e pelo procurador do Trabalho Sandro Eduardo Sardá, gerente do Projeto Nacional de Frigoríficos do MPT.

A reportagem do nd+ entrou em contato com os frigoríficos Ecofigo e JBS, que não quiseram se manifestar sobre o documento. A reportagem tentou contato com os frigoríficos Seara, JMS e GTB Foods, mas não obteve retorno até as 9h10.

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