Gaslighting na quarentena: veja os sinais do abuso psicológico

Termo usado para definir forma de violência pode intensificar durante o período de isolamento social

Sutil, mas com impactos severos, o gaslighting é uma forma de violência em que o abusador usa artifícios psicológicos para ter controle sobre a vítima, ao ponto gerar insegurança, medo e muitas dúvidas.

O termo faz referência ao filme norte-americano Gaslight, de 1944, que conta a história de um homem que distorce e cria informações para confundir a esposa. O objetivo era abalar a sua confiança e deixá-la vulnerável. 

Geralmente, as manipulações ocorrem de maneira gradual dentro das relações. E nesta quarentena, onde os casais e as relações estão mais próximas no tempo e espaço, o abuso emocional pode ser mais frequente. 

Gaslighting na quarentena: entenda o que é o abuso psicológico – Foto: Reprodução/Youtube/NDGaslighting na quarentena: entenda o que é o abuso psicológico – Foto: Reprodução/Youtube/ND

Frases como “você fantasia”, “isso não aconteceu”, “você está imaginando coisas”, são comuns quando o gaslighting ocorre. Essa manipulação pode ser considerada como um tipo de violência emocional e, algumas vezes, ocorre em paralelo a outras violências. 

Além disso, apesar de ser mais comum em relacionamentos amorosos, a manipulação ocorre na convivência familiar, no trabalho ou nas amizades. Ela também não é exclusiva a um gênero.

De acordo com a psicóloga policial Simone Daltoe, que atua na Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) de Florianópolis, o gaslighting é tão prejudicial quanto a violência física, porém, mais difícil de ser notado. Diferente de uma agressão física, os abusos mentais são construídos ao longo do tempo.

“É um tipo de abuso psicológico, para convencer a mulher [ou vítima] e menosprezá-la. Ela acaba duvidando da capacidade emocional. O gaslighting tem essa sutileza, que é o abalo à saúde emocional”, descreve.  

Conforme a psicóloga, além do gaslighting, outros tipos de violência e abusos emocionais que já ocorrem dentro dos lares podem ganhar força na pandemia, com a convivência mais intensa dos casais. Por isso, é importante observar os sinais.  

A ONU (Organização das Nações Unidas) já alertou para aumento da violência doméstica durante este período. Em março, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, já havia afirmado que o isolamento aumentaria a incidência dos casos.

Como identificar

Além das frases acima, outros sinais definem o gaslighting. “O parceiro convence, e a pessoa fica duvidando da sua própria capacidade psicológica”, destaca Simone. 

Usado como base para um livro sobre o tema, a psicóloga Stephanie Moulton Sarkis escreveu artigo intitulado “11 Sinais Para Ficar Atento ao Gaslighting”. No texto, ela elencou as técnicas usadas pelas pessoas que praticam o abuso, em diferentes espaços e relações. 

Confira alguns:

  • Eles contam mentiras chocantes;
  • Eles negam que tenham dito algo, mesmo que você tenha provas;
  • Eles usam o que é próximo e especial para você como munição;
  • Eles diminuem você ao longo do tempo;
  • Eles sabem que a confusão enfraquece as pessoas;
  • Eles dizem a você e aos outros que você está louca;
  • Eles dizem a você que todos os outros são mentirosos.

Veja a íntegra do artigo, em inglês, aqui.

Denúncias na quarentena

Segundo dados divulgados pelo Ministério Público, em abril deste ano, houve aumento de mais de 35% de denúncias pelo Disque 180 em relação ao mesmo mês de 2019, conforme balanço do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos no Brasil.

Nos meses de março e abril, cresceram em 22% os registros de casos de feminicídio, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Já em Santa Catarina, neste primeiro semestre do ano, de janeiro a junho, houve uma diminuição de 9% na notificação de violência doméstica. Neste ano, ao menos 26,6 mil vítimas procuraram a polícia. Em 2019, o número foi de 29,1 mil denúncias. 

Dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública) mostram que até o dia 3 de agosto, 31 mulheres foram vítimas de feminícidio em Santa Catarina. Em todo o ano de 2019, foram 35.

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