Há 100 anos, surto de gripe espanhola mudava rotina e hábitos de higiene em Florianópolis

Doença infectou cerca de 30% da população da Capital e matou ao menos 126 pessoas

“Estamos ás portas de um grande perigo para a saúde pública e por isso estas columnas dedicadas habitualmente a interesses commerciaes, vão tratar hoje da questão que mais afeta a curiosidade publica, nos momentos que correm”.

O trecho remete a um cenário conhecido nos últimos meses com a pandemia do novo coronavírus. No entanto, a linguagem “dedura” que não se trata da Covid-19.

Trata-se do início de uma reportagem intitulada “Influenza Hespanhola”, que estampa a capa da publicação Boletim Commercial da 1ª quinzena de novembro de 1918, da Associação Comercial de Florianópolis.

Há mais de 100 anos, a Capital catarinense fora acometida pela gripe espanhola, que infectou cerca de 30% da população, e matou ao menos 126 pessoas. No Brasil, estima-se que foram 30 mil mortes oriundas da peste, que chegou ao país de navio.

No mundo, 50 milhões de pessoas perderam a vida, embora estatísticas apontem até 100 milhões de mortos.

Recepção no porto municipal, em Florianópolis, em 1919 – Foto: FCC/Reprodução/NDRecepção no porto municipal, em Florianópolis, em 1919 – Foto: FCC/Reprodução/ND

Cenário de epidemias

Na segunda metade do século 19, as epidemias eram cada vez mais comuns no Brasil. Além da gripe espanhola, a população foi acometida pela febre amarela, sarampo, febre tifoide e varíola. Neste contexto, a saúde e a higiene públicas se tornaram temas em destaque.

Em Florianópolis o primeiro diagnóstico de gripe espanhola foi dado em 23 de setembro de 1918. Houve um pico de contágio de pelo menos 50 dias, em que aproximadamente 10 mil pessoas foram infectadas. Na época, a Capital catarinense tinha uma população estimada em quase 40 mil pessoas.

Fármácia Popular no Centro de Florianópolis, no início de 1919 – Foto: FCC/Reprodução/NDFármácia Popular no Centro de Florianópolis, no início de 1919 – Foto: FCC/Reprodução/ND

Hábitos de higiene

Conforme o historiador Rodrigo Rosa, os hábitos de higiene da época eram precários. Os banhos não eram comuns e, além disso, a água potável era um privilégio reservado aos prédios públicos ou aos mais abastados. A caixa d’água inaugurada em 1910 no Morro da Caixa abastecia, principalmente, a região Central.

Àqueles que não tinham acesso, restavam os banhos coletivos em tinas de madeira, onde a água era compartilhada. Jogar lixo nas baías Sul e Norte também fazia parte da rotina da população da Capital, bem como criar porcos e galinhas nas ruas. Esses costumes começaram a ser criticados pelos códigos de postura que iriam ditar os novos hábitos de higiene.

Entre eles, está o aumento da quantidade de banhos e retirada das criações de animais de vias públicas. Outro trecho da reportagem do Boletim Commercial destaca a importância da higiene individual como “as frequentes lavagens do rosto, mãos e corpo, mudança contínua das roupas de cama e especialmente das que ficam em directo contacto com a pelle”.

A edição de 29 de outubro de 1918 do jornal O Estado aconselha a população a não usar toalhas ou outros objetos dos acometidos pela doença.

Decretos e códigos de postura

Durante o surto de gripe espanhola, o poder público passou a influenciar todos os setores da sociedade, seja por meio de decretos estaduais ou códigos de postura municipais.

Houve o fechamento de repartições públicas, igrejas, portos, teatros, cemitérios e escolas. Eventos esportivos e procissões religiosas foram cancelados. Os velórios podiam ter no máximo oito pessoas presentes, contando com o padre e o coveiro.

A edição de 6 de novembro de 1918 do jornal Republica, de Florianópolis, trouxe uma nota governo municipal referente à salubridade pública.

A nota apresentou um artigo do código de posturas que trata da proibição do lançamento de “cisco, palhas, immundices, materiais fecaes, animais mortos, lixo e entulho nos quintaes, ruas, caes, praias ou terrenos comprehendidos no perímetro da cidade e povoações ou nos designados pela Superintendencia para edificações”. Além disso, também foi proibido conservar lamaçais ou água parada.

Nota na edição de 6 de novembro de 1918 do jornal Republica – Foto: Reprodução/NDNota na edição de 6 de novembro de 1918 do jornal Republica – Foto: Reprodução/ND

Os infratores estavam sujeitos a multa de dez a quinze mil réis, o que equivale a cerca de R$ 1.845. De acordo com Rosa, as ações do poder público seriam mais efetivas no que diz respeito ao atendimento da população mais pobre.

Segundo ele, há o surgimento de hospitais de campanha na Capital catarinense e profissionais da saúde criariam o hábito das visitas domiciliares, inclusive no interior da Ilha.

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Influência nas moradias

O surto de gripe espanhola traz mudanças não só à rotina, como também à própria estrutura das moradias da época. O historiador explica que as casas do perímetro urbano e no interior da Ilha eram feitas de alvenaria e possuíam poucas divisões internas.

Os sobrados, como eram chamadas as moradias dos abastados, eram maiores e mais espaçosos.

A população menos favorecida da Capital vivia em casas extremamente próximas umas das outras, muitas vezes com apenas um cômodo, para abrigar toda a família.

O discurso higienista do início do século 20, aliado ao da modernização, resulta na demolição de boa parte das moradias mais simples, sobretudo no entorno do rio da Bulha, para a construção da avenida Hercílio Luz, no Centro.

A partir disso, começaria a proliferação de casas de madeira nas encostas dos morros, como o Morro da Caixa e o Morro do Mocotó. Uma série de decretos seria publicada com determinações para a construção de moradias, que deixaram para trás o estilo luso-brasileiro para adoção do neoclássico.

Paralelo à mudança na estrutura, o jornal Boletim Commercial traz alguns princípios de higiene que deveriam ser “rigorosamente observados” pela população.

Entre eles, a lavação das casas de dois em dois dias com água e creolina, a exposição diária ao sol das roupas de cama, manter as portas e janelas abertas durante o dia e evitar o acúmulo de água e materiais em decomposição nos quintais e áreas das moradias.

Origem da gripe espanhola

De acordo com os historiadores, a gripe denominada espanhola teve origem nos Estados Unidos e foi um resultado direto da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918).

Além da destruição estrutural por causa da guerra, as condições mínimas de saúde pública dos países em conflito, junto à aglomeração de pessoas em condições vulneráveis, corroboraram para a infestação do vírus.

Estima-se que a gripe contaminou 600 milhões de pessoas em todo o Planeta, com estudos que apontam até 100 milhões de mortos.

Pacientes internados em local improvisado, vítimas da gripe espanhola – Foto: EDWARD A. “DOC” ROGERS/OAKLAND PUBLIC LIBRARYPacientes internados em local improvisado, vítimas da gripe espanhola – Foto: EDWARD A. “DOC” ROGERS/OAKLAND PUBLIC LIBRARY

Em Florianópolis, em janeiro de 1919 a doença já não tinha tanta força e, de acordo com os registros, o próprio Carnaval daquele ano pôde ser mantido.

Em março foram três diagnósticos, até encerrar o mês de abril sem nenhum, momento em que oficialmente a gripe fora “exterminada” em terras catarinenses.

No Brasil, registros indicam que o surto teve as últimas vítimas em agosto de 1919, menos de um ano depois de ter ingressado em terras tupiniquins.

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