Hospitais de Joinville adotam estratégia de ‘guerra’ para salvar vidas

Médico relata que protocolo já foi usado e pode ser alternativa para lidar com o esgotamento de recursos e a situação drástica nos hospitais

A cada dia mais os números da Covid-19 crescem em Joinville, principalmente no que diz respeito aos casos graves. Nas últimas semanas, o município do Norte catarinense registrou um aumento significativo nas internações devido a doença. Só nesta terça-feira (16) eram 270 internados – maior número desde o início da pandemia.

Se o cenário já é de colapso, com receio de falta de recursos para medicação e equipamentos, a escolha de quem vai ocupar um leito é uma preocupação real para algo que pode se tornar ainda mais caótico.

“Eu tenho muito receio que em poucos dias, da maneira que a gente tem observado o avanço [da Covid-19], os hospitais não vão conseguir dar conta do atendimento”, conta o médico intensivista Glauco Westphal.

Joinville registrou recorde de internação nesta terça-feira (16) – Foto: Divulgação/SES/ND – Foto: Divulgação/SES/NDJoinville registrou recorde de internação nesta terça-feira (16) – Foto: Divulgação/SES/ND – Foto: Divulgação/SES/ND

Segundo ele, já há hospitais na cidade que estão atuando com UTIs improvisadas dentro do pronto socorro, além do uso de carrinhos de anestesia para fazer o papel de respiradores. Ou seja: além de lidar com a exaustão, médicos também enfrentam o problema de usar recursos adaptados para salvar vidas.

“Mas daqui a pouco vai faltar espaço, cama, respirador, monitor, bombas de infusão, o que mostra que estamos caminhando em direção a carência [de recursos]”, alerta.

E com essa falta, o médico não descarta que o protocolo para definir quem vai ocupar um leito de UTI, igual o que acontece em situação de ‘guerra’ e que já vem sendo usado em situações específicas, passe a ser uma prática diária nos hospitais de Joinville.

Quando é necessário fazer a escolha, a situação é levada a família antes que se decida pela limitação dos suportes. “Sem dúvida essa é uma situação muito desgastante, do ponto de vista emocional, chegar no ponto em que não se pode destinar todos os recursos a todos os pacientes”, desabafa.

“Escolha extremamente difícil”

O protocolo não é nenhuma novidade. Ele foi definido em meados do ano passado, após discussões entre a AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), ABRAMEDE (Associação Brasileira de Medicina de Emergência), SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos).

“Essa discussão já tinha acontecido no ano passado, porque já se percebia a iminência de chegar na situação em que teria que se escolher os pacientes que receberiam os recursos. É uma dura escolha em uma situação extremamente difícil”, diz o médico intensivista.

O objetivo é definir estratégias para alocar recursos em casos de esgotamento da rede de saúde durante a pandemia. O documento, inclusive, foi apreciado por entidades jurídicas, principalmente as relacionadas com questões éticas.

“Com base nesses parâmetros, discutimos uma sequência de procedimentos para decidir como prosseguir. Isto inclui a avalição clínica e os recursos que se tem no local. Você não faz nenhum procedimento se não tiver recursos”, pontua o médico.

Westphal exemplifica de uma maneira simples: se há um leito e um ventilador, para dois pacientes, o protocolo é ativado. “Lembrando que a decisão nunca é feita individualmente, mas sim em conjunto com uma equipe técnica definida para lidar com isso”, diz.

“Nunca estivemos numa situação tão grave e assustadora”

A situação nos leitos de UTI se torna cada vez pior. “Nós nunca tivemos uma situação tão grave e assustadora”, fala o médico.

Os hospitais da cidade operam em capacidade máxima, em um cenário de colapso iminente. Na rede privada, segundo o município, a ocupação é de 90% nos leitos de UTI Covid adulto. Já na rede pública, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, ela é de 97,14%. Fora a lista de espera por uma vaga.

Segundo Westphal, o que mais assusta é gravidade e a faixa etária dos pacientes que chegam ultimamente às UTIs: a faixa etária passou dos 60 anos, no fim de janeiro, para os 30 em fevereiro.

“E são pacientes extremamente graves, precisando de ventilação invasiva, intubação. Antes, o usual era que, de dez internados, dois estivessem em uma situação muito grave. Agora, dos dez, todos estão nessa situação, o que é muito desgastante”, alerta o médico.

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Saúde