Indígena vacinada em SC alerta para sobrevivência de seu povo em meio a pandemias

Líder indígena em Palhoça, Kerexu Yxapyry ressalta a importância de priorizar a vacinação contra Covid-19 para impedir o extermínio de povos nativos

Garantir prioridade de vacinação contra Covid-19 aos indígenas foi “uma vírgula de reparação histórica” para Kerexu Yxapyry, de 41 anos, a primeira indígena a ser vacinada em Santa Catarina.

Mais do que assegurar a sobrevivência ao coronavírus, a líder da aldeia no Morro dos Cavalos, em Palhoça, na Grande Florianópolis, alerta que a imunização é importante para impedir o extermínio dos povos indígenas, como aconteceu em outras pandemias. 

A primeira indígena a ser vacinada no Estado, Ela olha para a câmera e está de máscara enquanto recebe a vacinaKerexu Yxapyry foi a primeira indígena a ser vacinada contra Covid-19 em Santa Catarina – Foto: Ricardo Wolffenbüttel/SECOM/Divulgação ND

Como liderança, é essencial garantir o exemplo, explica Kerexu. “Foi preciso dar esse primeiro passo para que todas as pessoas que estão na aldeia se vacinem. É uma conquista, um direito nosso, então vamos nos vacinar, porque se não nos vacinarmos estamos correndo o risco de sermos exterminados.”

Ela argumenta ainda que é necessário desmitificar ideias erradas sobre a imunização. “Outra esfera de luta é quebrar tabus criados pela mídia e pelo  próprio governo federal que dizem que a vacina não é segura ou que as pessoas irão sofrer uma mutação. Isso traz à tona a memória do extermínio dos povos indígenas. Tudo isso é jogado como dúvida nas aldeias e faz com que as pessoas tenham esse receio de tomar a vacina”, aponta.

Kerexu conta que, desde março, no início da pandemia, lideranças indígenas se articularam para garantir a aplicação de testes.

“Tivemos que fazer um enfrentamento muito forte contra os governantes para garantir que nós fôssemos prioridade”, lembra.

Ao lado do enfermeiro Júlio César Vasconcellos de Azevedo, morador de Florianópolis, e João de Jesus Cardoso, de 81 anos, que mora em um asilo em São José, Kerexu recebeu uma das 144 mil doses da Coronavac encaminhadas ao Estado, na segunda-feira (18). 

De acordo com Kerexu, o início da vacinação no Morro do Cavalos deve acontecer nesta sexta-feira (22). Segundo a Prefeitura de Palhoça, foram encaminhadas ao município 185 doses para vacinação dos indígenas. A responsável pela vacinação é a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) do Ministério da Saúde.

Referência na educação e no respeito às mulheres

A líder indígena tem um longo histórico de atuação na política. Kerexu foi a primeira cacica Guarani reconhecida no país, e se consolidou como referência na conquista de direitos indígenas. 

A líder conta que continua o legado de seu pai, que foi professor e lutou incansavelmente pelos direitos dos Guaranis. Além disso, ela foi a primeira mulher a lecionar na aldeia e promoveu o direito à educação de crianças, jovens e adultos.

Índigena com cocar olha para o ladoA líder inspira confiança por sempre lutar pelos direitos de todos os Guaranis – Foto: Reprodução/Rede Sociais

“A comunidade me escolheu para atuar como cacica para representar todos os Guaranis por ser essa referência, de sempre trazer a voz de todos. Acho que o diferencial maior é que trabalho muito com as  mulheres e mães dos alunos, que são as que mantêm o sustento da comunidade”, ressalta Kerexu.

O papel da mulheres é fundamental no Morro dos Cavalos. Segundo Kerexu, são elas as gestoras da comunidade, enquanto que os homens executam as atividades, o que ela faz questão de valorizar.

“A partir do meu trabalho como professora na escola, passei a dar esse destaque na atuação das mulheres”, assegura.

Após realizar um magistério específico para os povos Guaranis, mais tarde ela se formou na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), na primeira turma do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, em abril de 2015. A líder é especialista em gestão ambiental.

Dessa forma, ela passou a atuar na gestão do território do Morro dos Cavalos, em que todas as famílias estão envolvidas.”É um processo muito bonito e todos estão envolvidos para a restauração e recuperação da área. Estamos retirando pinus e fazendo plantio de árvores nativas, assim como plantas agrícolas para o sustento da comunidade”.  Segundo ela, o objetivo é retomar o plantio do próprio alimento.

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