Internações longas como a de Paulo Gustavo têm implicações; entenda

Médico intensivista explica que ficar internado por muito tempo requer um período maior de reabilitação do paciente

Internado há mais de um mês na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital no Rio de Janeiro para tratamento contra a Covid-19, o ator e humorista Paulo Gustavo, luta contra um quadro grave da doença. Ele respira com o auxílio da ECMO (Oxigenação Extracorpórea por Membrana), que trabalha como um pulmão artificial.

Nesses casos, é necessário um longo período de internação. Apesar de ser fundamental para que o paciente se recupere da infecção causada pelo novo coronavírus, uma longa internação tem suas implicações e exige um tempo de reabilitação maior, segundo explica Nivaldo Filgueiras, cardiologista intensivista e presidente da Sociedade Norte e Nordeste de Cardiologia.

Paulo Gustavo com chapéu na cabeçaPaulo Gustavo está internado desde o dia 13 de março com a Covid-19 – Foto: Reprodução/ Instagram Paulo Gustavo

“O intensivista tenta preservar os órgãos do paciente e fazer com que os sinais vitais que estão alterados voltem à normalidade. Mas o tempo de internação é muito variável, quanto maior a quantidade de comorbidades, maiores as chances da pessoa evoluir com uma internação mais prolongada. O que temos visto agora, diferentemente do ano passado, é que pacientes mais jovens têm permanecido por um tempo maior em ventilação mecânica”, explica o médico.

De acordo com o especialista, em um quadro de insuficiência respiratória, uma das manifestações agudas da Covid-19, o paciente precisa receber uma grande quantidade de sedativos e bloqueadores musculares — o chamado “kit intubação”— para que o equipamento de ventilação mecânica, que o auxiliará na respiração, seja colocado de forma correta e o pulmão consiga se restabelecer de maneira segura.

Nesses casos, por permanecer muito tempo sedado, o paciente acaba sofrendo com a perda da força muscular.

“Não é possível tratar esse paciente sem a sedação adequada, então quando ele fica muito tempo em ventilação mecânica há uma incidência maior do que chamamos de polineuropatia do doente crítico, que seria essa inibição da força muscular que gera uma dificuldade motora, com fraqueza muscular”, explica.

Além disso, de acordo com Filgueiras, é comum que pacientes que ficam muito tempo intubados desenvolvam um quadro de pneumonia associada à ventilação mecânica.

Reabilitação de pacientes em terapia intensiva é mais lenta. – Foto: Miguel Schincariol/AFPReabilitação de pacientes em terapia intensiva é mais lenta. – Foto: Miguel Schincariol/AFP

“Isso não ocorre por causa da Covid-19, mas por uma bactéria. Quanto mais tempo o paciente estiver utilizando a ventilação mecânica, maior a chance dele desenvolver a pneumonia. Infelizmente não tem como evitar e, uma vez identificado o problema, é preciso tratar com o uso de antibióticos”, explica o médico.

Reabilitação após a alta

Pacientes que ficam internados por um longo período em UTIs precisam passar por um processo de reabilitação após a alta hospitalar e isso ocorre com a ajuda de uma equipe multidisciplinar, principalmente com o auxílio de fisioterapeutas que trabalham pela reabilitação motora e pulmonar do paciente.

“O médico faz o acompanhamento de possíveis sequelas que esse paciente pode ter. O fisioterapeuta ajuda na reabilitação, que pode ser de origem pulmonar, como também uma reabilitação do ponto de vista motor, quando o paciente desenvolve a polineuropatia”, diz Filgueiras.

O acompanhamento de um nutricionista é importante para que o paciente, após a alta, consiga recuperar a massa muscular perdida durante o período de sedação.

A ajuda psicológica também é importante, seja com o auxílio de psicólogos ou psiquiatras, que auxiliam o paciente a lidar com o medo e a insegurança causada pela pandemia.

“Deixo meu agradecimento aos fisioterapeutas, enfermeiros e demais profissionais da saúde, porque a UTI é um ambiente onde a gente precisa de muito apoio, e esses profissionais de nível superior são fundamentais no tratamento e no manejo desses pacientes na unidade de terapia intensiva”, afirma o cardiologista.

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