Médica Marilin Garcia Baran se aposenta após dedicar mais de 40 anos à saúde pública

Ela ousou e resolveu dedicar a vida à medicina quando a presença de mulheres era bem rara nesta profissão

Rogério Souza Jr./ND

Marilin não é mulher de planos, ela sempre deixou a vida lhe levar, e agora, com mais tempo para dedicar a si própria, continuará neste mesmo ritmo

Ao iniciar o ensino médio, com 15 anos, Marilin ainda não decidira qual profissão seguiria. “Antes de terminar o científico, porém, eu já sabia que seria médica. Ainda que muitas pessoas argumentassem que não era a profissão mais adequada para uma mulher, fui em frente, estudei, me dediquei e agora posso garantir que valeu a pena”, diz a médica Marilin Terezinha Garcia Baran, agora aposentada, após completar 70 anos – os últimos 37 dedicados ao serviço público, em Araquari. “Pelo calendário, ainda sou uma mocinha”, brinca, aludindo ao fato de aniversariar no dia 29 de fevereiro.

Foi na cidade paranaense de Ponta Grossa que Marilin passou a infância e parte da adolescência. Tinha 14 anos quando a família mudou-se pela primeira vez, em função do emprego do pai, funcionário do Banco do Brasil. “Fomos morar na cidade de Goiás. Há quem chame de ‘Goiás Velho’, mas o nome do município é Goiás mesmo”, frisa. Entre as lembranças da pequena cidade, diverte-se com as diferenças de sotaque. “Os colegas ficavam esperando a chamada, quando eu respondia ‘presente!’, pronunciando todas as letras, e não ‘presenti’, como os outros”, conta, ainda preservando o forte acento paranaense – reforçado com os anos que passou em Curitiba, após uma breve passagem por Florianópolis.

De Curitiba, em 1964 Marilin retornou à capital catarinense, desta vez sozinha, para fazer a faculdade de medicina na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). “Criamos lá um ‘paraíso do estudante universitário’, que depois virou a Casa do Estudante, da qual cheguei a ser presidente.” Também foi líder estudantil, participou do diretório acadêmico, cantou no coral e jogou vôlei pelo time da medicina. No terceiro ano, após integrar uma missão do Projeto Rondon à Amazônia, decidiu se especializar em saúde pública.

Arquivo Pessoal/ND

No diário, recortes de fotos que mostram Marilin e colegas partindo em missão do Projeto Rondon

Carreira como sanitarista

O tal alerta de que “isso não é profissão para mulher” foi transformado em obstinação. “Até então, de fato, eram raras as mulheres fazendo medicina. Mas na minha turma éramos dez moças. Hoje, como se pode constatar, a presença feminina é forte na profissão.”

Durante as missões do Projeto Rondon, que também a levaram ao vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Marilin constatou uma realidade diferente da que se habituara a ver: “Vi como eram duras as condições de vida nas palafitas às margens do rio Solimões, e o sofrimento das populações indígenas.” Sua expedição à Amazônia está relatada num diário, com fatos e fotos da aventura.

Ainda na faculdade, Marilin participou de ações sociais promovidas pela Polícia Militar e chegou a trabalhar – “Ganhando salário!” – no hospital da PM, em Florianópolis. E não desperdiçava convites para viagens: “Aproveitava todas as oportunidades, tanto para aprender mais, quanto para conhecer outros lugares”. Formada em 1970, passou um ano no Instituto de Higiene de São Paulo, antes de retornar a Curitiba, onde ingressou no serviço público. Casou-se, teve quatro filhos e, em meados dos anos 70, topou novo desafio: “Como já tinha feito um curso de administração hospitalar, assumi a gestão do hospital de São João Batista, incluindo o posto de saúde de Canelinha”. Também atendia num consultório, o que exigia dedicação quase integral. Decidiu que era hora de se mudar novamente a partir de um episódio. “Estava com a família na ceia de Natal, quando vieram me chamar para atender uma emergência. Fui tirar chumbinho da bunda de um sujeito flagrado por um marido enfurecido. Ali decidi procurar um trabalho diferente”, diverte-se.

“Eu não sou muito de fazer planos,

gosto de ir levando, vivendo um dia

de cada vez. Tempo é questão de preferência.”

 

O destino, então, foi Joinville, a serviço da Regional de Saúde. Instalou-se no bairro Costa e Silva, no mesmo endereço em que ainda reside, e pegou outro desafio: “A Regional abrangia desde Porto Belo até Porto União. Viajei muito!”. Em 1977, assumiu a gestão do Hospital Senhor Bom Jesus, em Araquari, passando depois para a Secretaria de Saúde, onde exerceu sua profissão de sanitarista até a aposentadoria, ao completar 70 anos.

Agora, espera ter mais tempo para viajar, dedicar-se à pintura de quadros, alimentar os pássaros que povoam o pomar que cerca a casa, cuidar da cachorrada…

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