“Me concentrava para não enlouquecer”, conta idosa que passou 12 dias isolada em hospital

Internada em hospital de Itajaí em decorrência da Covid-19, Conceição Pereira, de 66 anos, precisou lidar com a solidão imposta pelo isolamento e com o medo constante da morte

Conceição Pereira, 66 anos, passou doze dias e onze noites no que considera a experiência mais traumática da sua vida. Este foi o período em que a professora aposentada ficou internada no isolamento para pacientes de Covid-19 do Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí.

Ao longo dos dias, as únicas paisagens vistas por ela foram o teto do quarto do hospital, além de parte da avenida Marcos Konder vista da janela após, finalmente, conseguir se sentar. 

“Eu só ouvia, tudo era som. O som do carrinho de comida, o som do carrinho da medicação, gritos, choros, portas abrindo e fechando, passos, correria. Eu não via ninguém e me concentrava para não enlouquecer”, conta Conceição.

Início dos sintomas

No dia 6 de dezembro a aposentada começou a sentir dores abdominais, que foram piorando ao longo do dia. À noite, ela percebeu um agravamento dos sintoma e resolveu ligar para a neta, Letícia, que voltou para casa. 

Conceição Pereira, 66 anos, ficou 12 dias internada no isolamento de Covid-19 em Itajaí, sua neta Letícia identificou que era hora de levar a avó ao Hospital – Foto: Arquivo Pessoal/NDConceição Pereira, 66 anos, ficou 12 dias internada no isolamento de Covid-19 em Itajaí, sua neta Letícia identificou que era hora de levar a avó ao Hospital – Foto: Arquivo Pessoal/ND

O filho mais velho de Conceição, Acácio, estava chegando de Florianópolis quando recebeu a ligação de Letícia sobre o estado de saúde da aposentada. Ele foi direto buscar a mãe e seguiu para o Hospital do Coração de Balneário Camboriú.

“O médico detectou manchas em meus pulmões, mas como meu quadro ainda era leve, ele recomendou que fizéssemos o tratamento em casa. Dias depois, minha neta mediu minha glicose, que estava alta, e resolveu que deveríamos ir ao Hospital”, relembra a paciente.

Além de idosa, Conceição é diabética, mais um motivo para estar no grupo de risco. No dia 12 de dezembro, a família a levou ao hospital Marieta e, desta vez, ela precisou ficar internada. Inicialmente, seu plano de saúde não indicava vagas, foram muitas negociações até conseguirem um quarto no isolamento para Covid-19 no hospital.

“Gustavo, amigo da minha neta que trabalha no Marieta, falou para o meu filho que a partir dali não poderia mais me acompanhar”. Foi a última vez, em 12 dias, que Conceição viu rostos conhecidos.

A linha tênue entre a sanidade e a loucura

A maioria dos pacientes que ficam no nono andar do Hospital Marieta Konder Bornhausen estão em coma ou inconscientes. Conceição Pereira conta que na maior parte do tempo em que esteve internada, mantinha-se consciente. Ela lembra dos gritos perturbadores que ouvia e da agitação do setor, o que a deixava angustiada. 

“Tinha uma mulher que pela voz, parecia ter a minha idade. Ela gritava: ‘Néia, Néia, me ajuda’. Outra, acho que mais velha, pedia pela mãe: ‘mãe me ajuda, mãe me tira daqui’. Aquilo era desesperador. Tanto que, mesmo depois de voltar pra casa, eu ouvia os gritos. Também escutava a agitação dos médicos e enfermeiros: intuba, faz isso, corre para a UTI… Mesmo já em casa, demorei dias para me desligar do que vivi no hospital”, relembra.

Conceição Pereira lembra os momentos de angústia que viveu no Isolamento de Covid-19, no Hospital Marieta, em Itajaí – Foto: Arquivo Pessoal/NDConceição Pereira lembra os momentos de angústia que viveu no Isolamento de Covid-19, no Hospital Marieta, em Itajaí – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Em nota, o Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen explicou que atualmente conta com 27 leitos clínicos e 70 de UTI exclusivos para pacientes com Covid-19.

Respeitando as normas de segurança, os pacientes permanecem sem acompanhante, e recebem a visita do médico e da equipe multidisciplinar diariamente.

Com essa avaliação, caso ocorra alguma piora no quadro de saúde, a pessoa é encaminhada para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Pensando no acolhimento tanto do paciente quanto da família, o Hospital realiza chamadas de vídeo com boletins diários para os familiares e, desta forma, conseguem acompanhar melhor o paciente enquanto ele está internado.

Conceição define os dias vividos no Marieta como uma guerra em que  cada pessoa, cada médico, enfermeiro e paciente lutavam pela própria sobrevivência. “Se você caísse, se deixasse sucumbir, você morreria. Não por falta de humanidade, mas porque todos ali estavam lutando pela vida, para chegar ao fim do sofrimento”, relata.

Além de lutar, era necessário também ter fé e concentração na saúde mental. “Eu rezava dia e noite. Mas quando chegava o fim da tarde, me dava um medo tão forte, parecia que eu não passaria daquela noite, todas foram assim. Lembrava da minha vizinha que também faleceu de Covid-19 e imaginava se os médicos estariam ligando para os meus familiares para contar sobre a minha morte”, relembra.

Conceição se refere a forma como sua vizinha, Tereza, foi enterrada. Ela foi a terceira vítima fatal de Covid-19 em Itajaí. A família não pode se despedir da forma como gostaria e o corpo de Tereza foi direto para o cemitério em um caixão lacrado. O enterro durou menos de cinco minutos.

A psicóloga Marina Corbetta explica os danos que o isolamento causa as  pessoas. Ansiedade, depressão e síndrome do pânico são alguns deles.

“Nós, enquanto seres humanos, precisamos de contato com outras pessoas e espaços de diálogos. É muito importante estar com alguém, principalmente quando a pessoa está doente, que é quando vem uma série de inseguranças e sentimentos, questionamentos de como será o futuro. O isolamento pode trazer por consequência até piora em alguns quadros de saúde”, explica Corbetta.

Nestes casos, a psicóloga defende que o uso de ferramentas como vídeos, áudios e mensagens pode ajudar a diminuir os danos do isolamento.

“Claro que manter o distanciamento e nos comunicar com as pessoas por estas ferramentas não é a mesma coisa, mas pelo menos ajuda a prevenir problemas maiores que a pandemia tem acarretado como a crescente nos casos de depressão e ansiedade”, salienta Corbetta.

“Ora por mim?”

A emoção toma conta de Conceição Pereira quando ela relembra uma das conversas que teve com o médico que a assistiu, Duilio Dalla Costa Neto.

“Ele sempre me dizia: a vó vai sair daqui porque a senhora tem uma força que eu só vi em poucas pessoas. Eu já atendi pacientes com quadros mais leves que os da senhora, que acabaram morrendo, porque não tinham essa força. Mesmo a gente fazendo de tudo para salvar, a pessoa não resistia. Mas pacientes que têm essa fé sempre se recuperam”, conta emocionada. 

Conceição fala com gratidão sobre o médico que a assistiu, que se despediu dela com um pedido. “Depois de um abraço, ele me pediu: Ora por mim, vó? Eu não tenho essa força que a senhora tem e mesmo sendo cético, eu acredito que essa tua fé faz diferença. E eu preciso demais disso. Não esquece de me colocar em suas orações?”, lembra. 

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