Médico pioneiro, Henrique Prisco Paraíso fala sobre os avanços da medicina em SC

O médico baiano acompanhou o desenvolvimento da medicina no Estado e foi um dos fundadores da faculdade de medicina de Santa Catarina

Nascido na Bahia há 93 anos, o médico Henrique Prisco Paraíso formou-se em sua terra natal, fez residência no Rio de Janeiro, desembarcou em Florianópolis no dia 14 de janeiro de 1954 e aqui construiu sua história.

Ajudou a criar a Faculdade de Medicina, a partir de 1957, uma verdadeira saga que dividiu com Isaac Lobato Filho (falecido em 16 de setembro deste ano), Roldão Consoni e outros colegas.

Henrique Prisco Paraíso acompanhou o desenvolvimento da medicina no Estado e foi um dos fundadores da faculdade de medicina de Santa Catarina – Foto: Anderson Coelho/NDHenrique Prisco Paraíso acompanhou o desenvolvimento da medicina no Estado e foi um dos fundadores da faculdade de medicina de Santa Catarina – Foto: Anderson Coelho/ND

Presidiu a ACM (Associação Catarinense de Medicina) entre 1965 e 1967 e foi secretário de Estado da Saúde na gestão do governador Colombo Machado Salles (1971/1975).

Também participou da criação da Fundação Hospitalar de Santa Catarina e do Instituto Catarinense de Cardiologia. Acompanhou o desenvolvimento da medicina no Estado, desde os tempos em que havia muitos clínicos e cirurgiões gerais e poucos especialistas.

A par da vida nos hospitais e salas de aula, tinha por hobbies montar a cavalo e criar passarinhos. Aprecia música brasileira de qualidade, os clássicos e boleros.

Leitor de Eça de Queiroz e Jorge Amado, tem sete livros publicados, incluindo crônicas, poesias e as genealogias paterna e materna. Sua última obra é “Pensei, disse e escrevi”, um resumo da atuação como médico, distribuído apenas aos familiares e amigos mais próximos. Tem quatro filhos, sete netos e três bisnetos.

Natural de Salvador, como foi que decidiu se transferir e fazer carreira em Santa Catarina?

Vim para o Sul porque tratei como médico, na primeira metade dos anos 50, de meu futuro sogro, José Angelim Gallotti (de Tijucas), no Rio de Janeiro. Ele ia acompanhado pela filha Nadyr, por quem me enamorei.

Assim, em vez de voltar para a Bahia, optei por vir para cá. Homem de muitas relações, Gallotti tinha um irmão militar que era médico do Exército e que facilitou minha inserção como profissional da medicina no mercado de Florianópolis.

Na época, a cidade tinha pouco mais de 30 médicos em atividades. Trabalhei no Hospital de Caridade e depois no Celso Ramos, onde fui admitido após uma prova de títulos.

Paraíso também participou da criação da Fundação Hospitalar de Santa Catarina e do Instituto Catarinense de Cardiologia – Foto: Anderson Coelho/NDParaíso também participou da criação da Fundação Hospitalar de Santa Catarina e do Instituto Catarinense de Cardiologia – Foto: Anderson Coelho/ND

Por influência do subdiretor do antigo Samdu (Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência), Antônio Dib Mussi, também desempenhei a função de cirurgião nas colônias Santana e Santa Teresa, em São José, onde dava expediente em dois dias da semana.

A criação da faculdade de medicina foi um marco para o Estado. Qual foi a sua participação nessa conquista?

Em 1957, a ACM formou uma comissão para tratar da criação da faculdade de medicina, inaugurada em fevereiro de 1960. Foi um período de pesquisa, organização e busca de recursos para viabilizar a instituição.

Visitamos bancos, o comércio e fizemos até a rifa de um carro doado pelo empresário Dirceu Jendiroba, dono de uma revenda de veículos na cidade. Fomos também ao interior do Estado, apelando para a boa vontade de médicos de diversas cidades, mostrando-lhes a importância de ter um curso superior de medicina no Estado.

Queríamos a sua adesão e a indicação de amigos bem posicionados financeiramente para prestar auxílio. Tivemos o apoio de prefeituras, indústrias, laboratórios, bancos e pessoas físicas.

A luta foi dura, mas bem-sucedida…

Sim. Na época, os jovens que queriam ser médicos tinham que estudar em outras capitais. Usei esse argumento no balcão dos comerciantes, oferecendo cotas para viabilizar a criação do curso.

Um deles quis saber qual era o meu interesse na campanha, talvez duvidando de nossa intenção. Outro, anos mais tarde, achou que tinha direito à devolução da cota que doou.

Afora esses problemas, tudo correu bem e conseguimos alcançar 73% das cotas, superando a meta, que era de 70%. Mais tarde, a ACM considerou todos os profissionais envolvidos no projeto como fundadores do curso, embora em torno de 15 tenham participado mais efetivamente da campanha.

Como foram os primeiros anos do curso?

A faculdade de medicina já existia quando a UFSC foi criada, em dezembro de 1960, pelo presidente Juscelino Kubitscheck. A nova instituição agregou todas as faculdades que funcionavam na cidade, e teve como primeiro reitor o professor João David Ferreira Lima.

Em 1963, passei a dar aulas de técnica operatória na universidade, então já bem estruturada. A aula inaugural do curso, naquele mesmo ano, foi ministrada pelo cirurgião português Joaquim Madeira Neves, um profissional brilhante tanto na atividade médica quanto na retórica. Sua família tinha origem na cidade do Porto, em Portugal (assim como os meus antecedentes paternos), e possuía casa de comércio em Florianópolis.

Como foi formado o corpo docente da faculdade?

No começo, não havia aqui professores nem para as disciplinas básicas (como a anatomia), ministradas num prédio na rua Ferreira Lima, centro da cidade.

Além disso, ele foi secretário de Estado da saúde no governo de Colombo Salles – Foto: Anderson Coelho/NDAlém disso, ele foi secretário de Estado da saúde no governo de Colombo Salles – Foto: Anderson Coelho/ND

Buscamos esses profissionais em universidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Eles ficavam uma temporada aqui e voltavam para suas cidades, sendo substituídos por outros, que faziam o mesmo. Isso durou três anos.

Somente mais tarde, na gestão do reitor Caspar Erich Stemmer, é que o Hospital Universitário começou a funcionar. Até ali, as aulas práticas de cirurgia, por exemplo, eram dadas no Hospital de Caridade.

O senhor foi secretário de Estado da saúde no governo de Colombo Salles. O que de mais relevante realizou no cargo?

Como secretário de Estado, adotei a política de não construir novos hospitais enquanto não fossem reformados os que existiam e que estavam precisando de melhores equipamentos e estrutura.

Percorremos o Estado para conhecer a real situação da saúde em cada região. Na época, o governo criou cerca de 100 centros de saúde, reforçando a prevenção e a atenção a quem necessitava de tratamento.

Naquele período, o governo alemão, por meio de um fundo voltado para os países em desenvolvimento, subsidiou recursos que mais tarde, na gestão do governador Jorge Bornhausen, permitiram a construção de hospitais em Araranguá, Joinville, Curitibanos, Ibirama, Chapecó, Rio do Sul e São José, além da melhoria de muitas casas de saúde.

Como a medicina mudou dos anos 50 e 60 para cá?

Os conhecimentos médicos foram se acumulando e aprofundando em todos os lugares, e Santa Catarina também ganhou com isso.

O famoso cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini, o primeiro a realizar transplantes de coração no Brasil, fez operações aqui no início dos anos 60 e trouxe sua experiência para o Estado, onde até então só se fazia cirurgias cardíacas periféricas.

Antes, não se abria o tórax dos pacientes. O doutor Isaac Lobato, cirurgião pulmonar, foi pioneiro em Santa Catarina nesse campo. Na época, como não havia plantões médicos, em casos de urgência o Hospital de Caridade nos chamava em casa para atendimento, independente do dia ou da hora da noite.

Por que Florianópolis ainda atrai tantos pacientes de outras partes do Estado para tratamento?

Se hoje ainda vêm muitos pacientes para Florianópolis, é porque aqui há mais hospitais e especialidades médicas à disposição. Alguns municípios contam com hospitais filantrópicos, e muitos outros nem isso têm.

Há cidades sem médicos, enquanto na Capital podem ser realizados procedimentos e cirurgias mais complexas. Há casos em que o médico atende um ou dois dias da semana numa cidade, como eu fiz no início em nossa região.

Rancho Queimado, por exemplo, não tem um hospital operando ou médico que resida no município. São poucos os serviços de saúde oferecidos à população.

O que de mais relevante aconteceu em termos de avanço da medicina nesse período?

Quando comecei, a expectativa de vida dos brasileiros era de 60 anos, e hoje é quase de 80. Isso se deve à evolução da medicina, que acompanha os avanços da tecnologia.

Há também os novos medicamentos, as especializações, as boas instalações hospitalares. O preço de tudo isso, no entanto, ainda é muito elevado.

Um problema hoje no Brasil é que há muitas faculdades de medicina, o que prejudica o nível dos médicos que são formados. Por isso, o atendimento nos hospitais nem sempre é satisfatório.

Como vê o futuro em sua área? O homem sempre quis vencer a morte…

Existe a possibilidade de um homem biônico no futuro, e é bem provável que o tempo médio de vida passe dos três dígitos, mas isso custará muito caro. E não acredito que seja bom viver sempre mais e mais. Hoje, passar dos 100 anos ainda é exceção.

Pode fazer um balanço de sua vida pessoal e profissional?

Contribui como cirurgião geral antes que as especializações se tornassem corriqueiras na medicina – uma coisa que, como professor, sempre critiquei.

Lembro de ter enfrentado três grandes epidemias: a da meningite, nos anos 70, a da poliomielite e a da Aids, esta já nos anos 80. E agora veio a pandemia da Covid-19, que deixa todos perdidos e sem saber como reagir.

O que assombra é a evolução rápida do contágio, e também as visões antagônicas acerca do tratamento, da prevenção e das providências a tomar. Ainda estamos aprendendo a lidar com a doença.

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