Moradora de Irati, no Oeste de SC, morreu de Covid-19 após cumprir viagem dos sonhos

De vida intensa, Paulina Debona é lembrada como uma mulher generosa e que dedicou a vida à família; Paulina morreu de Covid-19 no último dia 26

“Eu não morro sem antes fazer essa viagem” era a frase que os seis filhos de Paulina Debona ouviam a mãe falar constantemente, na língua italiana. A matriarca, de 75 anos e moradora de Irati, no Oeste catarinense, tinha o sonho de viajar no mar.

Eis que, no dia 9 de março, Paulina embarcou sozinha em um cruzeiro que navegou pela costa brasileira. Como se fosse uma profecia, a viagem dos sonhos foi sua última realização antes de morrer, no dia 26 de maio, em decorrência da Covid-19, contraída justamente na viagem.

Nos últimos 10 anos, após perder seu companheiro, Paulina viajou intensamente – Foto: Reprodução Redes Sociais/NDNos últimos 10 anos, após perder seu companheiro, Paulina viajou intensamente – Foto: Reprodução Redes Sociais/ND

“Viveu intensamente”

Durante seis décadas e meia, a vida de Paulina foi dedicada ao trabalho na lavoura, aos filhos e ao companheiro. Morando em um sítio no interior de Irati, onde criou todos seus descendentes, “ela pensava mais na família do que nela”, lembra uma das filhas, Ana Paula Debona.

Foi após perder seu marido, em 2010, que a idosa passou a dedicar-se à uma das suas maiores paixões: as viagens. Entre os destinos que conheceu estão praias brasileiras e a cidade de Fortaleza, no Ceará. “De cinco anos pra cá ninguém mais segurava ela. Ela viveu intensamente”, conta a filha.

“A melhor viagem”

O embarque da sua última viagem foi no dia 9 de março. Paulina sentia um pouco de fraqueza, mas nada a manteve em terra firme, mesmo diante da insistências dos filhos. Ela viajou sozinha e durante os sete dias do cruzeiro dividiu o quarto com a guia que orientava o grupo de passageiros.

A afeição da colega de quarto por Paulina foi tamanha que ela esteve junto aos filhos durante o sepultamento da idosa, dois meses e meio depois. A eles, a profissional contou que “durante uma tarde, Paulina estava deitada. A guia achou que estava séria demais e perguntou o que estava acontecendo. E ela disse que aquela era sua a melhor viagem”, lembra Ana Paula.

“Essa paixão pela viagem é um mistério. Não sei se o que era, se era o sonho de entrar no navio ou ficar no meio do mar. Sempre quis saber o que a água transmitia pra ela” conta.

Infecção

Uma semana após o retorno da viagem, Paulina passou a apresentar sintomas da infecção. Ela foi internada no dia 26 de março, no Hospital Regional do Oeste, em Chapecó, já com suspeita de Covid-19. Foi na semana seguinte que Paulina testou positivo para o vírus.

Ela foi uma das primeiras pacientes da Covid-19 no hospital, apenas uma semana após o Estado decretar isolamento social devido à expansão da pandemia. Durante todo o período, ficou internada em UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Com a mãe incomunicável em função do entubamento, os filhos apenas conseguiam falar com as equipes de saúde do hospital. Foi apenas um dia antes da morte dela que os filhos conseguiram ver a mãe, por meio de uma videochamada. Foi a última vez que viram Paulina.

Com as complicações no pulmão, ela não resistiu e morreu no dia 26 de maio. “A mãe foi ceifada das nossas vidas. Ela era completamente saudável, nunca precisou tomar remédio”, lamenta Ana. “Não recebemos um abraço, um carinho, porque a situação não deixa”.

Exemplo de humildade

Para os filhos, Paulina será sempre lembrada como uma mulher generosa, humildade e “além do seu tempo”. “Mesmo criada no interior, ela não tinha pensamento limitado. Sempre achava uma solução. Ela era um passarinho fora da gaiola”, conta a filha.

Entre os seus prazeres estavam as visitas às varias amigas que cultivava e com que jogava cartas. Ela também contribuía para o Postulado, um grupo de oração do município.

Paulina deixou seis filhos, netos, genros e noras. Ela também deixou uma bisneta, que nasceu na semana em que ela embarcou em viagem. Infelizmente, Paulina não teve a oportunidade de conhecê-la.

Sempre que Ana e seus irmãos apareciam aos prantos com problemas pessoais, a mãe sempre os lembrava de quatro valores fundamentais. Fé, paciência, força e coragem.

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