Morte da esposa de capitão do JEC escancara divergência sobre leitos de UTI em Joinville

Enquanto Joinville aponta que tem seis leitos públicos de UTI para a Covid-19, Estado mostra apenas um, no Hospital Regional Hans Dieter Schmidt

A morte de Janaína Coelho, esposa do ala e capitão do JEC Futsal, Xuxa, vítima da Covid-19 acendeu um alerta e uma discussão importante sobre a disponibilidade de leitos e a regulação das transferências hospitalares de pacientes, além, é claro, de chamar a atenção para a situação gravíssima que Joinville, no Norte de Santa Catarina, continua vivendo com a pandemia.

De acordo com os dados estaduais, há apenas um leito público de UTI disponível em Joinville, no Hospital Regional – Foto: Montagem/NDDe acordo com os dados estaduais, há apenas um leito público de UTI disponível em Joinville, no Hospital Regional – Foto: Montagem/ND

Aos 37 anos, Janaína precisou ser transferida da rede privada para um leito público e foi direcionada para uma enfermaria em Rio Negrinho, no Planalto Norte. Com a piora do quadro, precisou de um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e, mais uma vez, não seria direcionada para Joinville e sim para Mafra. No entanto, não houve tempo para a transferência e ela morreu na manhã de segunda-feira (23) devido às complicações.

O secretário de saúde de Joinville, Jean Rodrigues, garantiu que o sistema de saúde da cidade tem estrutura e pode atender aos pacientes e ressaltou que a regulação e o direcionamento de transferências é realizado pelo Estado. No entanto, os dados do município e do Estado não estão sincronizados e há uma discrepância no que diz respeito à estrutura de leitos da maior cidade de SC.

Na última atualização do município, realizada na segunda-feira (23), às 17h, os dados apontam uma taxa de ocupação nos leitos de UTI adulta para a Covid-19 é de 92%, com oito leitos privados disponíveis e seis públicos, totalizando 14 leitos disponíveis na cidade. Mas, os dados do Estado apontam outro cenário.

Atualizado na mesma segunda-feira, mas às 18h22, os dados do painel estadual apontam um cenário ainda mais preocupante para Joinville. De acordo com o Coes (Central de Operações de Emergência em Saúde), Joinville tem apenas um leito de UTI disponível na rede pública, no Hospital Regional Hans Dieter Schmidt. Hospital Bethesda e Hospital Municipal São José estão com 100% de ocupação, com 40 e 33 leitos respectivamente, todos ocupados.

Dados do Estado apontam que Joinville tem apenas um leito público de UTI Covid-19 – Foto: Reprodução/NDDados do Estado apontam que Joinville tem apenas um leito público de UTI Covid-19 – Foto: Reprodução/ND

Segundo o Coes, toda a região Norte e Nordeste tem apenas sete leitos de UTI disponíveis. Além do leito no Regional, são dois no Hospital Santa Cruz de Canoinhas, três no Hospital São Vicente de Paulo de Mafra e um na UPA Padre Aldo Seidel, em Mafra.

Os dados sobre os leitos de enfermaria também não batem. Segundo o painel municipal, são 40 leitos no sistema privado e 23 na rede pública. Os números do Coes apontam 18 leitos de enfermaria em Joinville entre os hospitais Bethesda, São José, Regional e Darcy Vargas.

Janaína precisava, no primeiro momento, de um leito de enfermaria. Além dela, uma mulher de 67 anos, moradora de Itapoá, também foi internada e, mais uma vez, não houve transferência para Joinville, cidade mais próxima. Ela foi encaminhada para Rio Negrinho.

Sobre a inconsistência dos dados, o secretário de Saúde Jean Rodrigues confirmou os números disponíveis no painel e afirmou que, diante dos deles, a equipe irá analisar e verificar a divergência nos dados.

“Não conseguimos absorver em Joinville e absorvemos na região”

A gestão de leitos é realizada pelo Estado e, a partir do momento que um paciente precisa de transferência, ele entra na logística que o encaminha para uma unidade que possui leitos disponíveis. De acordo com Thiago Patrício Furtado, coordenador da Macrorregional de Saúde de Joinville, “se temos um paciente aqui em Joinville e todos estão esgotados, ele é inserido no sistema estadual e onde houver leito, esse paciente será encaminhado”. A explicação chama a atenção, mais uma vez, para as transferências de pacientes de Joinville para outras cidades, uma vez que, segundo os dados municipais, há vagas na cidade, embora o sistema trabalhe no limite.

Dados municipais, no entanto, mostram seis leitos públicos – Foto: Reprodução/NDDados municipais, no entanto, mostram seis leitos públicos – Foto: Reprodução/ND

“Isso é muito dinâmico, sabemos que Joinville é a maior população, os leitos estão batendo quase 100% todos os dias, a gente nunca tem uma folga. Onde tem leito naquele momento, com capacidade, a gente encaminha o paciente. Estrutura tem, mas como ela tinha mais gente aguardando. Então, a gente não consegue absorver todos os leitos aqui em Joinville e absorve na região”, diz.

“Ela não deveria perder a vida, poderia ter sido atendida”

“Joinville já tem o sistema praticamente no limite e vai começar a demandar de outra forma. É preciso que seja revista essa forma porque uma pessoa não deveria perder a vida, poderia ter sido atendida e vem a óbito”. A frase do professor e coordenador do Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) impacta e chama a atenção justamente para a situação do sistema de saúde de Joinville, que não consegue absorver a demanda crescente de casos da Covid-19.

De acordo com os últimos dados do município, são mais de 1,7 mil casos ativos na cidade que, conforme os dados apontados, vive falta e divergência de dados sobre os leitos disponíveis.

O professor ressalta a necessidade de analisar os dados que apontam o crescimento de casos e a gravidade deles em agosto. “O cenário é muito típico de situações que já vivemos anteriormente, quando você tem um surto, você precisa imediatamente ter dois tipos de ação: alertar fortemente a população, redobrar os cuidados e, por outro lado, os próprios serviços de saúde já se precaver porque do dia para a noite você não aloca muitos leitos de UTI, você precisa ter disponibilidade para a possibilidade concreta de expansão da doença. Não dá pra esperar para depois aumentar a estrutura”, salienta.

Os dados, ressalta o professor, preocupam e é necessário avaliar as condições da cidade que, desde o início da pandemia, convive com alto número de casos e mortes e alta taxa de ocupação de leitos.

“O que me chama a atenção na região de Joinville é porque sempre é a região que tem o maior número de óbitos semanais. Na última semana, você tem uma concentração desses óbitos. Tivemos 166 óbitos em Santa Catarina, 41% se concentraram em 10 cidades, só que se você olhar Joinville tem 26, a outra com maior número de mortes é Chapecó com 8. É algo que já vem com Joinville e é essa preocupação que deveria servir de alerta para as autoridades no sentido de uma ação mais efetiva e uma retaguarda mais rápida, não esperar explodir a contaminação”, reforça.

A flexibilização, destaca Mattei, reflete diretamente nos números. “Acho que é perfeitamente factível estabilizar, mas isso tem que ter uma combinação da autoridade local e da população. Eu sinto que as pessoas estão normalizando demais como se a doença tivesse passado, adotando um comportamento coletivo de uma situação normal quando ela continua totalmente anormal e por isso há esses picos”, finaliza.

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