Mortes por síndrome respiratória indicam subnotificação da Covid-19 em Santa Catarina

São 217 óbitos por SRAG no Estado entre janeiro e abril deste ano; Portal da Transparência de Registro Civil aponta picos de mortes por pneumonia e insuficiência respiratória

O número de pessoas que morreram por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em Santa Catarina aumentou 703% neste ano, em comparação ao mesmo período de 2019. Foram 217 mortes em 2020, contra 27 no ano passado, de janeiro a abril.

Os dados fazem parte dos boletins sobre a SRAG divulgados pela Dive/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina). O material é focado na influenza, outro vírus respiratório, mas também traz dados sobre o novo coronavírus (Covid-19).

Número de mortes pela SRAG chega a 217 nos primeiros quatro meses de 2020 – Foto: Divulgação/K WhitefordNúmero de mortes pela SRAG chega a 217 nos primeiros quatro meses de 2020 – Foto: Divulgação/K Whiteford

O levantamento do nd+ comparou os meses de janeiro a abril de 2019 e 2020, conforme boletins da Dive/SC. As informações são baseadas em notificações médicas sobre internações hospitalares e testes do Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública).

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Assim como nas mortes, o número de casos confirmados de SRAG também subiu. Em 2019 foram 293 casos entre janeiro e abril. Já em 2020, em apenas quatro meses são 2.114 pacientes – superando o balanço de todo o ano passado, que teve 2.103 casos.

Subnotificação de mortes pela Covid-19

Os boletins da Dive indicam uma possível subnotificação nos óbitos pela Covid-19. Em Santa Catarina, até esta sexta-feira (8) foram confirmadas 63 mortes pela Secretaria de Estado da Saúde. No entanto, o número pode chegar a 112, com base nos dados da Diretoria.

Isso acontece porque das 217 mortes notificadas por SRAG – complicação respiratória causada por diversos vírus, incluindo o novo coronavírus -, 49 podem ter sido causadas pela Covid-19.

Os boletins dividem as mortes por SRAG em cinco tópicos principais:

  1. SRAG por influenza (incluindo suas subtipagens, como H1N1 e H3N2)
  2. SRAG não especificada (vírus desconhecido, já descartadas influenza e Covid-19)
  3. SRAG por outros vírus respiratórios (aqui inclui suspeitas da Covid-19)
  4. SRAG por outros agentes etiológicos (como fungos e protozoários)
  5. Em investigação (aguardando resultado do laboratório, com Covid-19 já descartada)

Confira as mortes por cada classificação de SRAG:

Mortes por SRAG em SC – Foto: Dive-SC/ReproduçãoMortes por SRAG em SC – Foto: Dive-SC/Reprodução

A reportagem do nd+ questionou a Dive/SC e o governo do Estado sobre as 49 mortes que podem ter ocorrido por Covid-19.

A Dive afirmou que não divulgará o resultado, pois os boletins são focados na influenza. O Estado, via secretaria de Comunicação, reconheceu que as 49 mortes do boletim podem ter ocorrido por Covid-19. No entanto, não disse quantos destes casos já foram incluídos no balanço das 63 mortes (ou mesmo se foram incluídos).

O Lacen também foi questionado sobre a realização dos testes citados no boletim. Segundo o órgão, até o momento foram feitas 20 mil testagens em Santa Catarina. A divulgação das mortes por Covid-19, no entanto, fica concentrada apenas nos boletins diários do governo do Estado – que apresenta, até o momento, as 63 mortes.

Mortes por pneumonia e insuficiência respiratória

Além de SRAG, houve picos de mortes por pneumonia e insuficiência respiratória em Santa Catarina. Os dados podem ser observados no Portal da Transparência de Registro Civil, plataforma que reúne dados das declarações de óbitos da população.

Em 28 de fevereiro, data em que foram registrados os primeiros casos da Covid-19 no Estado, foram 14 mortes por pneumonia e 9 por insuficiência respiratória em um dia.

Também houve um pico de mortes por pneumonia no dia 19 de março, dois dias após o governo adotar medidas de isolamento social. Naquela data, 32 pessoas morreram pela doença.

No dia 14 de abril, quando Santa Catarina já tinha 28 mortos pela Covid-19, um outro pico, desta vez de insuficiência respiratória, com cinco óbitos.

Tanto a insuficiência respiratória quando a pneumonia são quadros que podem ser causados pela Covid-19. É o que explica o médico infectologista Valter Araújo:

“A gente costuma classificar os pacientes com a Covid-19 em assintomáticos, leves, moderados, graves e severos. Os últimos são as pessoas que têm pneumonia e falta de ar. Então, quando é classificada uma morte por pneumonia , ela pode ter sido em razão do vírus”, explica.

Valter destaca ainda que o aumento brusco nos casos de SRAG, com sintomas de gripe e falta de ar, são justificados pela Covid-19. “Isso é a única explicação”, avalia.

Mortes sem causas determinadas

Com sintomas da Covid-19, duas pessoas foram enterradas em Itajaí sem que houvesse a confirmação dos testes. Eram Astesia e Paulo.

Astesia Maria Onofre, de 67 anos, foi cremada sem velório nem despedidas. Sua morte era tida como suspeita da Covid-19, o que impossibilitou qualquer contato com a família. Ela morreu no dia 4 de maio.

Dias antes, em 27 de abril, Paulo Roberto da Silva, 53 anos, também foi enterrado às pressas. Tinha suspeita da Covid-19 e o resultado do teste não chegou a tempo do velório. Também sem um último adeus.

Além da pressa no enterro, os dois têm em comum a declaração de óbito, sem um motivo claro para a morte. “Causa desconhecida/indeterminada” é o que consta na guia fúnebre.

No portal de Registro Civil, Astesia e Paulo somam-se a outros 23 moradores de Santa Catarina que foram enterrados sem registro da causa de suas mortes – todos por complicações respiratórias, de 1º de janeiro até esta sexta-feira (8).

Segundo o governo do Estado, todas estas 25 mortes por causas desconhecidas foram testadas no Lacen. Não foi informado à reportagem quantas delas deram positivo para Covid-19. A secretaria de Comunicação estadual afirmou que os óbitos constam no balanço da Dive sobre a SRAG (que aponta as 217 mortes).

Segundo a secretaria de Saúde de Itajaí, o resultado para Covid-19 demora em média três dias para chegar. O médico tem respaldo da pasta municipal para deixar a morte sem resposta, e depois do óbito declarado é que a Vigilância Epidemiológica passa a atuar.

Após os enterros sem despedida de Astesia e Paulo, os exames deram negativo para o novo coronavírus.

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