Laudelino Sardá

Causos da Ilha, seus personagens, histórias e momentos do cotidiano de Florianópolis com quem conhece os cantos da Capital de Santa Catarina.


Não quero ser mais mascarado

O mundo desassociou-se na individualização. Ninguém mais para na rua Felipe Schmidt para conversar: somente os amigos decanos se avistam

Incrível, mas preciso baixar a máscara para um amigo me reconhecer. As pessoas se cruzam e nem se olham, como os sicilianos de New Orleans, no começo do século 20.

Os que preferem ser reconhecidos cobrem apenas os lábios e queixo, ao contrário dos quem abafam todo o rosto e baixam a cabeça para distanciar-se de cumprimentos.

Woman in the city. Person in a mask. Coronavirus theme. – Foto: Freepik/Divulgação/NDWoman in the city. Person in a mask. Coronavirus theme. – Foto: Freepik/Divulgação/ND

O mundo desassociou-se na individualização. Ninguém mais para na rua Felipe Schmidt para conversar: somente os amigos decanos se avistam. E somos obrigados a trocar de máscara todos os dias, em nome do consumismo obrigatório, que alimenta a indústria da exploração humana.

Depois da Ômicron, virá outro vírus. E quem sabe um novo já esteja saindo de laboratório. O manezinho da Cachoeira nem mensura o risco. Vive a pescar e não se perturba com o turista de tênis, calção e sem a máscara.

O vizinho, na abastança, trava-se na máscara e encolhe-se no iate, enquanto o vírus responde pela sua soberba. Será que o vírus ensejou tudo isso? Não! A Covid facilitou a individualização, e quem não tem tempo a perder em conversa tem ajuda do vírus.

Zé Garganta, 95 anos, lá dos Ingleses, lembra-se da última peste: “Nem do cabrito a gente se aproximava, mas não tinha tanta gente doente como hoje”. É, Zé, quem sabe a indústria pensava mais no cidadão. Mas de uma coisa Zé Garganta recorda-se: “A mulhé não deixava agente sair de casa com medo daquela outra contaminá a gente”.

Enquanto isso, na praia da Cachoeira…

A turma do senadinho da Cachoeira, bem em frente à “Bebidas do Léo”, joga butiá pra dentro ao som de coleirinhas atrevidos, que cantam sem parar.

– Ô Bidinho, não tens medo de ficar namorando por aí com essa peste?- E quem falou que namoro a peste?

– Ô, seu ixtepô, tô falando do convid.- Puta meda, Aley, tu achas que isso atrapalha?

– Mas pode matar, arremata Ademir, contestado pelos demais.

– Deixa dilso, pare com ilso, brinca Bidinho. Na brincadeira, gargalhadas e saborosas pingas, a turma do senadinho do mané não vê a peste se aproximar. Mas na areia da praia….

– Ô Venanço, essa gentarada toda deve tá trazendo o corona pra cá, né?

– Pode até, Lelo, mas tu vê que eles passam longe da gente.

– É verdade. É bom mesmo eles ficar longe da gente. Pelo menos essa máscara safada não precisa tapar minha cara.

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