Não são apenas números, são vidas perdidas na luta contra a Covid-19 em Joinville

- +
Epicentro da pandemia em SC, Joinville registra a triste marca de mil mortes, um ano depois do primeiro óbito

Um número que choca e machuca. Mil mortes. Joinville chega a um número triste pouco mais de um ano após o início da pandemia e um dia depois de completados 12 meses da primeira morte registrada na maior cidade de Santa Catarina. Mário Borba morreu no dia 30 de março de 2020, aos 68 anos, e de lá para cá, muitas outras vidas foram interrompidas, sonhos cancelados e famílias despedaçadas. Em um ano, a Covid-19 vitimou homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, pessoas de todos os bairros, classes, idades e personalidades.

Em 2020, Joinville contabilizou 481 mortes. Em três meses de 2021, a cidade superou o número de óbitos de todo o ano passado. Antes da oficialização do município de quantas mortes aconteceram no último dia de março e que faz com que a cidade ultrapasse a marca das mil mortes, já eram 511 em 2021, 30 a mais do que os nove meses de pandemia no ano passado. Na contagem do Estado, o número já foi atingido, no entanto, os números de Joinville já excluem as mortes que não acontecem na cidade, mas são de moradores de outros municípios, atendidos nos hospitais joinvilenses.

“Eu perdi a minha filha, ela foi a bebê mais jovem e eu espero que seja a única porque nenhuma criança merece passar por essas coisas. Nem criança, nem adulto, nem idoso, ninguém. Aí tem gente que brinca, que está ali nas festinhas clandestinas achando que nada vai acontecer”. A dor em cada palavra é de Priscila de Lima Conradi, mãe de Anny Machado Conradi, a vítima mais jovem da Covid-19 em Joinville. Anny tinha apenas sete meses quando a doença a tirou da família no dia 23 de março deste ano.

Em dezembro de 2019, meses antes de a pandemia chegar ao Brasil, Priscila recebeu a notícia que encheu a família de esperança: estava grávida. Em agosto do ano passado, quando Joinville registrou 258 mortes pela Covid-19, Anny nasceu. Ainda no pré-natal ela foi diagnosticada com Síndrome de Dandy-Walker, malformação no cerebelo que compromete o sistema nervoso e pode afetar outros órgãos, como o coração, que foi afetado no caso de Anny.

Anny Machado Conradi foi a vítima mais jovem da Covid-19 em Joinville – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoAnny Machado Conradi foi a vítima mais jovem da Covid-19 em Joinville – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Depois de passar três meses na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) ela foi para casa, de onde saiu novamente no dia 19 de março, com sintomas do coronavírus, que já havia infectado os pais. Quatro dias depois, Anny morreu no Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria e, em casa, no guarda-roupa ficaram a lista de consultas agendadas, os horários de alimentação e as caixas com tudo que a acompanhou durante os meses de vida, de medicação a equipamentos.

O pai de Anny foi o primeiro a contrair a Covid-19 e depois de apresentar todos os sintomas, a mãe e a bebê também começaram a tossir. Ela chegou a ser medicada e liberada, mas dias depois teve complicações respiratórias e retornou ao hospital, de onde infelizmente não saiu com vida.

“Como ela tinha os probleminhas dela, imaginávamos que um resfriado, qualquer coisinha ela poderia voltar para o hospital e ficar lá. Sabíamos que qualquer coisinha errada na respiração e ela poderia ser intubada, poderia não aguentar. No fundo, sabíamos dos riscos, mas não acreditamos que ela poderia ir embora”, lamenta Priscila. “Foi triste não poder fazer mais nada, mas o que eu pude fazer com a Anny em vida, eu fiz. A sensação de dever cumprido é o que conforta também”, finaliza o pai, Geazi Machado.

Um rastro de perdas

O motorista Maurílio João de Souza Filho, de 62 anos, viu a irmã, amiga e conselheira ser contaminada em novembro do ano passado. Diabética e com problemas cardíacos, Maria Aparecida ficou cinco dias internada no Hospital Municipal recebendo oxigênio e foi liberada. “Ela veio boa para casa, conversava, mas depois a gente começou a notar que ela não estava falando coisa com coisa, tinha muito sono, dormia demais, estava sempre deitada e se caminhava um pouco, ficava muito cansada”, lembra.

Quatro meses depois, o vírus havia desaparecido, mas as sequelas continuaram e pioraram o quadro de saúde de Maria Aparecida. Pressão alta, coração com batimentos fracos e uma transferência com urgência para o hospital para que ela fosse intubada às pressas.

Maria Aparecida contraiu o vírus e, quatro meses depois, foi vítima das complicações – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoMaria Aparecida contraiu o vírus e, quatro meses depois, foi vítima das complicações – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

“Ela entrou na cadeira de rodas, conversando comigo, com a filha, com a neta. Levei ela para uma sala e fiquei no corredor esperando. Dois minutos depois, todo mundo estava correndo com aparelho de oxigênio, de saturação. Eu só perguntei: o que está acontecendo com a minha irmã?”, fala.

A resposta machuca e é a mesma que muitas famílias receberam. Aos 74 anos, Maria Aparecida não resistiu às complicações causadas pela Covid-19. “Agora que está caindo minha ficha porque ela era uma irmã muito querida, a mais velha, que se preocupava com os irmãos. Ela estava super contente que eu iria me aposentar agora para que a gente pudesse dar umas voltas. Eu gostava muito de passear com ela, mas infelizmente não deu, ela não chegou a ver a minha aposentadoria”, lamenta.

A família Pickler se despediu do pai, marido, companheiro e espelho para o filho, Sérgio Pickler Júnior, que seguiu os passos do pai e divide a paixão e a profissão, também se tornou caminhoneiro. Aos 21 anos, o jovem precisou dizer adeus para o pai, Sérgio Picker, que jovem, morreu aos 47 anos, vítima da Covid-19.

“Graças a Deus eu consegui realizar meu sonho de viajar com o pai, cada um em um caminhão, a mãe estava junto. Eu estava indo para Porto Alegre descarregar e no outro dia ele foi para Criciúma e ele pediu para esperar. Eu já tinha carregado, esperei e saímos andando até altas horas da noite”, recorda.

A companheira de vida, Magda Diacui Cabral chora a perda do marido, amigo, companheiro de uma vida inteira. Ela conta que o marido tinha muito medo de ser internado. “Ele estava com medo de ir e não voltar mesmo, talvez por conta do trauma que ele teve com a mãe. Foram 15 dias de sofrimento e muita dor para ele”, conta.

As últimas imagens do marido foram vistas pelo celular, a maneira usada para manter a união. Foram quase 15 dias e com o passar dos dias, as forças foram diminuindo, as conversas se tornando mais espaçadas, até que no dia 10 de março, o coração de Sérgio parou.

Sérgio deixou a família, mas deixou no filho o legado da paixão pelos caminhões – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoSérgio deixou a família, mas deixou no filho o legado da paixão pelos caminhões – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

“Nós dizíamos que o Sérgio tinha a alma de mãe, de querer cuidar de todo mundo. Ele me mimava muito, o filho, a filha. Quando casamos, ela tinha quatro anos, mas ele sempre a tratou como filha. Cinco anos depois, veio o menino, o sonho da vida dele. Na gravidez ele sempre dizia que tinha falado com Deus e que ele daria um filho, um homem para colocar o mesmo nome, para ser amigo e companheiro”, lembra.

Em um ano, mais de mil vidas perdidas e outras incontáveis dilaceradas pela perda, pela saudade, pela ausência. “Cuidem. A dor da perda é enorme, fica um buraco gigantesco e o pessoal aí brincando”, finaliza Priscila, que realizou o sonho de ser mãe e perdeu a filha para uma doença que chegou há mais de um ano e se espalha, silenciosamente, destruindo sonhos e vidas.