Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


No Natal da Bélgica, apenas um convidado poderá usar o banheiro

A Bélgica é o país com mais óbitos por milhão na pandemia. Veja como o controle ditatorial das ações individuais está dando certo. Já usaram até drone para fiscalizar praça pública

O governo da Bélgica determinou que só um convidado por ceia natalina poderá usar o banheiro do anfitrião. Especificando: só um dos quatro convidados (número máximo de visitantes permitido).

Ou seja: três convidados estarão condenados a se segurar na Noite de Natal – e aí você já imagina o drama dos que resolverem tomar cerveja. Beber em ceia belga virou esporte radical.

A Bélgica é o país com mais óbitos por milhão na pandemia. Veja como o controle ditatorial das ações individuais está dando certo. Já usaram até drone para fiscalizar praça pública – e se esse nível de vigilância não resultou em maior proteção da população contra a Covid-19 as autoridades não têm nada com isso. A culpa deve ser do vírus.

Bélgica soma 591 mil casos e 17,3 mil mortes da Covid-19 – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC/NDBélgica soma 591 mil casos e 17,3 mil mortes da Covid-19 – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC/ND

O máximo de quatro convidados natalinos por família provavelmente vai suscitar controvérsias. Talvez uma família de dois se considere injustiçada diante de uma família de seis – já que terá uma celebração com meia dúzia de participantes, contra o vizinho com um quórum total de uma dezena.

Afinal, reuniões com quantas pessoas são seguras? Será que vai se formar um mercado paralelo de visitantes natalinos? Famílias mais numerosas comprarão vagas de moradores solitários? E como fica a questão do banheiro?

“Caro vizinho. Minha esposa e eu passaremos o Natal sozinhos. Estamos assim disponibilizando nosso banheiro para um de seus convidados – desde que previamente identificado, cadastrado e com a indicação de quantos litros pretende consumir na ceia. Não temos o intuito de controlar o consumo do seu visitante, alcoólico ou não.”

“Apenas informamos que serão 5 euros para cada utilização do nosso banheiro – até três vezes. A partir da quarta incursão ao nosso toalete, o valor passa para 10 euros.”

“Não nos leve a mal. É apenas uma forma de cobrir nosso investimento em sabonete e toalhas limpas, além do consumo de água, luz e da nossa paciência de ficar abrindo a porta para seu agregado.”

“Temos certeza de que essa experiência vai nos aproximar ainda mais e nos fazer superar aquela briga por vaga na garagem. Viva a empatia! PS: o contrato prevê que você custeará testes de Covid para minha esposa e para mim, já que nunca saberemos exatamente onde o seu amável convidado andou se metendo.”

O governo belga determinou que, na noite de Natal, as conversas só devem acontecer no jardim.

Ou seja: nada de se distrair na hora de mostrar o caminho do banheiro ao seu convidado (o felizardo dispensado de censurar sua fisiologia durante a ceia) e sair explicando oralmente a ele as coordenadas, ou mesmo se distrair e aproveitar para falar mal de alguém que está no jardim.

No máximo faça um gesto depreciativo. Não tente semear uma intriga oralmente em ambiente fechado. O governo está de olho em você – e é para o seu bem.