Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


O esporte como segregação

É de se supor que ele esteja se referindo à vacina de Covid como uma medida de segurança sanitária, certo?

O técnico Tite declarou que não convocaria o lateral Renan Lodi. “Foi alijado da sua possibilidade de convocação em função de sua não vacinação (contra Covid). Essa informação foi passada, então ele perdeu a possibilidade de concorrer em função de não ter se vacinado”, declarou Tite.

O técnico foi além: “A vacinação é uma responsabilidade social. Ela é minha e pra qualquer pessoa que está do lado.” Seria pedagógico se o professor Tite explicasse ao público que responsabilidade social é essa a qual se refere e pratica.

Tite, técnico da seleção brasileira de futebol  – Foto: Lucas Figueiredo/ CBFTite, técnico da seleção brasileira de futebol  – Foto: Lucas Figueiredo/ CBF

É de se supor que ele esteja se referindo à vacina de Covid como uma medida de segurança sanitária, certo? Um instrumento de imunização para evitar a propagação de uma moléstia.

Sim, só pode ser a isso que Tite, o ético, se refere. O problema é que sua premissa de proteção à coletividade é tão segura quanto a defesa da sua equipe vendo o ataque da Bélgica passear na Copa da Rússia.

A seleção de Tite foi tão eficaz no bloqueio ao ataque belga – que mandou os brasileiros para casa cedo – como as vacinas de Covid são eficazes para impedir a infecção pelo SarsCov2. Mesmo com o alastramento de uma variante menos agressiva que as anteriores, continua havendo internados com Covid que ostentam o chamado “esquema vacinal completo”.

Será que isso não foi informado ao técnico Tite? De onde ele tirou seu conceito de “responsabilidade social” a ponto de alijar um jogador da possibilidade de atuar pela seleção brasileira? Podemos imaginar.

Ele extraiu seu conceito “empático” da mesma propaganda totalitária que baniu Novak Djokovic, o tenista número um do mundo, do torneio Aberto da Austrália. Os heróis da “responsabilidade social” não se importaram com o fato de que quatro tenistas foram diagnosticados com a doença dentro da Austrália e estavam plenamente vacinados – enquanto Djokovic provou sua imunidade alta e ausência de infecção.

Esses falsos éticos ainda vão desmoralizar o conceito de vacina – tratando substâncias em desenvolvimento como panaceia usada para perseguição e segregação. Não é esse o motivo? Qual é, então? Preservação da saúde pública não pode ser – senão a preocupação na Austrália, por exemplo, seria com a presença do vírus, e não com a exigência do passaporte fascistoide.

Alguém na equipe técnica de Tite disse que o Brasil não faria como a Argentina, que chegou para a Copa América com jogadores que não cumpriram a quarentena. É um show de desonestidade intelectual.

Quarentena serve para observar e prevenir. Vacina que deixa o vírus passar não garante nada. Tite se disse contra a realização da Copa América por motivos sanitários – e disputou a competição. Não é preciso dizer mais nada sobre o rigor dos seus critérios.

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