Fabio Gadotti

fabio.gadotti@ndmais.com.br Comportamento, políticas públicas, tendências e inovação. Uma coluna sobre fatos e personagens de Florianópolis e região.


“O legado da pandemia está relacionado à resiliência diante das perdas”

Coordenadora do Laboratório do Luto da UFSC, Ivânia Jann Luna fala sobre as angústias do presente e as perspectivas de futuro pós-Covid-19

Ivânia Jann Luna afirma que as pessoas buscam uma perspectiva de futuro que traga esperança e estabilidadeIvânia Jann Luna afirma que as pessoas buscam uma perspectiva de futuro que traga esperança e estabilidade

A pesquisadora Ivânia Jann Luna, que coordena o Laboratório de Processos Psicossociais e Clínicos no Luto da UFSC, fala à coluna sobre as diferentes perdas durante a pandemia e os principais legados dessa experiência.

O que já pode ser falado sobre os lutos vivenciados durante a pandemia da Covid-19?
Há vários tipos de luto de perdas, como morte de familiares, amigos, colegas de trabalho etc. E também as perdas simbólicas sociais e psicológicas impostas pelo distanciamento social. Por exemplo, a percepção da nossa segurança psicológica, social e econômica, e que sustenta nossas rotinas e certezas sobre o mundo e sobre nossa identidade, está seriamente abalada.

A pandemia ameaça a nossa visão sobre o modo estabelecido de se viver em sociedade, e isso por si só gera um luto relacionado a reconstruir um novo presente coletivo e um futuro. Estes lutos geram medo, raiva, culpa, ansiedade e angústia bem como a busca por culpados ou soluções milagrosas, negando o processo de enlutamento envolvido. 

Além de perder um ente querido, a impossibilidade de despedidas torna isso ainda mais difícil. Como lidar com isso e os possíveis reflexos?
Há necessidade de redefinição dos rituais coletivos para diminuir o anonimato dos mortos e dos enlutados bem como o isolamento social no luto, por exemplo, por meio do uso de tecnologia, plataformas online para acompanhar cerimoniais, de enterro e velório.

Cada vez está mais evidente a necessidade da construção de rituais de luto personalizados e simbólicos como ferramentas para acionarmos as nossas crenças religiosas e culturais sobre o significado da vida e da morte, e tornar presente a realidade da perda de um ente querido.

Por exemplo, conversar com pessoas sobre o que aconteceu, escrever memoriais sobre a vida da pessoa, expressar o luto em espaços públicos e coletivos em que a dor da perda tem significado. Por exemplo, há memoriais sobre as vítimas do Covid-19 e várias iniciativas que dão visibilidade à dor individual e coletiva do luto.

“Hoje saímos às ruas com máscara, mas tendemos a conservar a idéia que viver sem ela seria melhor”, diz Ivânia  – Foto: José Valério/Divulgação/ND“Hoje saímos às ruas com máscara, mas tendemos a conservar a idéia que viver sem ela seria melhor”, diz Ivânia  – Foto: José Valério/Divulgação/ND

Não vivemos só uma crise epidemiológica, mas também psicológica, em processo de sofrimento coletivo que envolve dúvidas sobre o futuro, não é?
Sim, vivemos a necessidade de se construir um novo presente e com isso uma perspectiva de futuro que traga esperança e estabilidade. Buscamos tanto a conservação de crenças quanto a inovação delas. Esses dois movimentos estão implicados na constante busca da estabilidade e esperança.

A pandemia evidenciou o conflito entre a conservação do cotidiano, recuperando o passado, e a inovação dele, construindo um futuro. Hoje saímos às ruas com máscara, mas tendemos a conservar a idéia que viver sem ela seria melhor. Este movimento contraditório e dialético entre conservação e inovação é justamente o nosso sofrimento coletivo: o impulso de conservação, de recuperar o passado e o contexto significativo que foi perdido, e o impulso de inovação, ou seja, o esforço de construção de novos significados e propósitos de vida. Esta é uma situação de conflito, onde a ambivalência é a sua característica principal, ou seja, entre reivindicar o passado e o futuro, ao mesmo tempo, fazendo o presente muito doloroso.

Ainda que este conflito interno siga um curso ambivalente, tem como premissa de resolução e adaptação a necessidade de prevalência do impulso de inovação e, neste caso, o impulso de recuperar o passado tem que ser superado. Sendo assim, o primeiro passo para adaptar-se à perda é a aceitação de que ela ocorreu.

E o legado? Vamos mudar com a pandemia?
A mudança é inevitável, porém cada pessoa vai fazer o processo de mudança a seu modo e vai deixar de acessar e recuperar o seu passado à medida que encontrar novos significados e propósitos de vida.

Algumas premissas para pensar o processo de mudança como algo pessoal e complexo: toda perda gera conflito que deve ser elaborado para restaurar o senso vital de continuidade da experiência e existência; a resolução deste conflito não pode ser pré-ordenada, pois a resolução só é significativa através de uma ambivalente exploração entre o passado, presente e futuro; e até que o luto seja elaborado, o próprio conflito torna-se a principal referência significativa do comportamento.

A meu ver o legado da pandemia está relacionado à nossa capacidade de responder de forma resiliente aos vários tipos de perdas que estamos enfrentando concomitantemente e isso implica se deparar e estar aberto aos aprendizados da experiência do conflito ambivalente entre não poder acessar um passado que não existe mais, e viver cada dia como um novo um presente considerando que há um futuro que está sendo construindo mas ainda é incerto.

Para isso, precisamos democraticamente e solidariamente compartilhar recursos materiais, crenças, opiniões, afetos que dispomos na nossa comunidade bem como criar novos significados coletivos para a nossa vida e nosso futuro, um deles é a esperança e um olhar com foco no futuro.

Loading...