“O vírus circulava antes mesmo de termos ciência sobre a sua rotina”, diz pesquisadora

A descoberta mostra que o vírus começou a circular em novembro de 2019 em Florianópolis, 66 dias antes da confirmação do primeiro caso nas Américas

O coronavírus já circulava em Florianópolis em novembro de 2019, 66 dias antes da confirmação do primeiro caso nas Américas. É o que mostra um estudo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que detectou a presença do vírus em amostras colhidas do esgoto local.

Pesquisa analisou amostras de esgoto de outubro do ano passado até março de 2020 – Foto: Laboratório de Virologia Aplicada/UFSC

Intitulado “SARS-CoV-2 in human sewage in Santa Catarina, Brazil, November 2019” — SARS-CoV-2 no esgoto humano em Santa Catarina, Brasil, Novembro 2019, em livre tradução — o estudo foi conduzido por pesquisadores da UFSC, da Universidade de Burgos (Espanha) e da startup BiomeHub.

Em entrevista coletiva, via webconferência, concedida na tarde desta quinta-feira (2), as pesquisadoras Gislaine Fongaro (Laboratório de Virologia Aplicada – LVA/UFSC), Patrícia Hermes Stoco (Laboratório de Protozoologia/UFSC), e Maria Elisa Magri (Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental) falaram sobre o estudo.

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A conclusão da pesquisa é que o vírus já circulava, embora fossem desconhecidos seus sintomas e efeitos. “O vírus circulava antes mesmo de termos ciência sobre a sua rotina em pacientes, ou em humanos, sejam assintomáticos ou sintomáticos”, disse a pesquisadora Gislaine Fongaro.

“O que nós leva a ter certeza de falar isso desta forma são os cuidados que se tem na manipulação dessas amostras, bem como o cuidado de fazer vários genes específicos do vírus, de buscar várias porções do genoma do vírus e que são específicos para SARS-CoV-2, não se baseando apenas em um único resultado, mas sim em vários resultados e em ensaios independentes”, completou Fongaro.

O primeiro ensaio da pesquisa foi feito no dia 9 de junho e submetido a três repetições independentes. Foram realizados ainda testes interlaboratoriais após a primeira análise dos resultados.

A “verificação” foi feita por uma equipe comandada pela professora Maria Luiza Bazzo, do laboratório de Biologia Molecular, Microbiologia e Sorologia da UFSC. “Realmente o vírus circulava antes da gente saber que ele circulava em humanos”, concluiu Gislaine.

A pesquisa foi enviada para publicação em uma revista científica internacional e está sob revisão. Uma versão preliminar do artigo foi distribuída pelo site MedRxiv.

Pesquisa analisou amostras entre outubro e março

O trabalho dos pesquisadores se concentrou na análise de amostras de esgoto coletadas entre os dias 30 de outubro de 2019 e 4 de março deste ano. A coleta foi feita por meio de uma bomba submersa colocada dentro de um poço.

O material é comumente utilizado para limpeza e inspeção da rede e, para o estudo, foi recolhido esgoto bruto. A descoberta só foi possível porque pôde acessar amostras que já eram coletadas por outros estudos.

Uma nova etapa da pesquisa tenta descobrir trajetória do vírus – Foto: Laboratório de Virologia Aplicada/UFSC

“Dentro do nosso departamento [Engenharia Sanitária e Ambiental] o trabalho com esgoto sanitário da cidade e com amostras de esgoto é uma rotina. Temos como praxe para os nossos estudos, sempre deixar amostras preservadas caso a gente precise repetir alguma coisa”, explicou em coletiva à pesquisadora Maria Elisa Magri.

Essas amostras são do esgoto da região central de Florianópolis, atendendo uma população de aproximadamente 5 mil habitantes. Não foi revelado pelos pesquisadores, que alegaram questões éticas, a qual bairro pertencem às amostras.

Análise foi feita com testes PCR

Em todas as coletas foram recolhidas amostras de 200 ml, levadas posteriormente para o Laboratório de Virologia Aplicada da UFSC, sendo armazenadas a – 80°C até seu uso.

O genoma do vírus foi rastreado por meio de teste RT-PCR (da sigla em inglês: transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase). Nesta testagem o RNA do vírus é transformado em DNA para investigação da presença do genoma viral. O exame é muito sensível e encontra quantidades diminutas do vírus.

Às duas primeiras amostras, recolhidas em 30 de outubro e 6 de novembro, deram negativo para a presença do vírus. Diferente do material coletado a partir do dia 27 de novembro até o fim da pesquisa em 4 de março.

A carga constatada em 27 de novembro foi baixa: 100 mil cópias de genoma do vírus por litro. Depois disso, novas amostras deram positivo em doses mais elevadas em 11 de dezembro e 20 de fevereiro, até que em 4 de março a carga de SARS-CoV-2 chegou a um milhão de cópias de genoma por litro de esgoto.

Nova etapa da pesquisa pode esclarecer como vírus chegou a Florianópolis

Os pesquisadores trabalham agora no sequenciamento do genoma completo do vírus encontrado nas amostras. Com o resultado disso, avaliou a pesquisadora Patrícia Hermes Stoco durante coletiva, pode ser possível traçar como o vírus chegou a Florianópolis.

“A gente não tem certeza se vai encontrar algumas modificações que vão indicar esse caminho diferente. Estamos trabalhando bastante nisso agora, em ter o quanto antes essas respostas em termos comparativos de genoma completo”, disse Stoco.

A pesquisa avaliou até agora os marcadores do vírus presentes nas amostras coletadas. Não foi encontrada nenhuma diferença significativa nesses genes em relação ao que está circulando no mundo como todo.

A expectativa, adiantou Patrícia, é que nas próximas semanas sejam divulgados novos resultados que podem esclarecer o caminho retroativo do SARS-CoV-2 encontrado em novembro na Capital.
“Oficialmente conhecemos a existência desse patógeno no mundo em dezembro. Anteriormente não se buscava porque não se sabia que ele existia. O diagnóstico está relacionado a se conhecer o agente causador e isso não foi possível em dezembro”, comentou Gislaine.

Importância de estudo dos esgoto

Durante a coletiva, as pesquisadoras destacaram também a importância do estudo retroativo dos esgotos para entender diversas patologias. A análise seria uma forma indireta de criar medidas anteriores a início de um surto ou de uma pandemia. “No esgoto, no momento que deu positivo é um alerta. O vírus, nesse caso, está circulando”, disse Gislaine Fongaro.

“Esse é um artigo que vai dar o ‘start’ talvez para que tanto outros esgotos retroativos no país e outras regiões no mundo consigam acessar esse material nós vamos ter bastante informação. Já dá o alerta que devemos olhar para amostras retroativas de pacientes para entender o fluxo do vírus em si”, explicou a pesquisadora.

Dentro da virologia ambiental, comentou Fongaro, grupos estão avaliando o esgoto do momento pandêmico. Com a análise de amostras anteriores as datas oficiais em que a doença foi confirmada, pode ser possível traçar o fluxo do coronavírus pelo mundo.

Linha do tempo do vírus

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o primeiro caso de coronavírus no mundo foi relatado em 8 de dezembro de 2019 na província de Hubei, China. Em 11 de janeiro, mais de um mês após os primeiros casos, foi confirmada a primeira morte. A vítima era um homem de 61 anos que frequentava um mercado de frutos do mar na localidade chinesa, considerado epicentro inicial da Covid-19.

Os primeiros casos fora da China, aconteceram no Japão e na Coreia do Sul ainda em janeiro. Na Europa, o vírus foi diagnosticado pela primeira vez na França em 14 de fevereiro. Mais tarde, no dia 25 daquele mesmo mês, foram confirmados casos nos Estados Unidos.

No Brasil, o primeiro caso foi confirmado no dia 26 de fevereiro. O paciente era um homem, de 61 anos, que tinha viajado para Roma, na Itália. Os primeiros casos em Santa Catarina foram confirmados pela SES (Secretaria de Estado da Saúde) em 12 de março. Os dois infectados — um homem de 34 anos e uma mulher, de 28 — tinham retornado de viagens ao exterior.

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