Outubro Rosa: falta medicamento para tratar o câncer de mama em Santa Catarina

As pacientes que utilizam os medicamentos trastuzumabe e pertuzumabe não têm nenhuma previsão de quando o tratamento será retomado.

Desde 2017, a programadora visual aposentada Bia Salgueiro faz uso da medicação trastuzumabe para o tratamento da metástase do câncer de mama. Nesses últimos três anos, Bia ficou sem o medicamento algumas vezes e na tarde de sexta-feira (23) foi mais um dia em que não teve acesso ao remédio responsável por conter a doença. Segundo a Amucc (Associação Brasileira de Portadores de Câncer), a medicação está em falta desde julho.

O mês de outubro, dedicado à prevenção do câncer de mama, está nos últimos dias e as pacientes que utilizam os medicamentos trastuzumabe e pertuzumabe não têm nenhuma previsão de quando o tratamento será retomado. O protocolo de aplicação do trastuzumabe indica sua aplicação a cada 21 dias.

Bia Salgueiro está há dois meses seguidos sem tomar a medicação para conter a metástase – Foto: Divulgação/ND

Bia Salgueiro não tomou a medicação em julho, recebeu uma dose em agosto, nenhuma em setembro em outubro até essa sexta-feira. “Neste ano tenho cinco doses não tomadas. Esse medicamento é o que me dá qualidade de vida, não tem efeito colateral, não me deixa mal. Ninguém tem noção que tipo de consequência a interrupção do tratamento pode trazer e isso é assustador”, disse Bia.

Marli Ribeiro também teve o tratamento interrompido por falta do medicamento. A última dose que ela recebeu da medicação foi em julho e desde então não recebeu nem mesmo uma previsão de quando terá seu direito de paciente respeitado. “Eu estou esperando e muitas mulheres também. É uma medicação que não pode faltar. São três meses de atraso e eu estou muito preocupada porque faz parte do meu tratamento. Quero pedir que alguém faça alguma coisa”, disse Marli.

De acordo com Jurema Ramos dos Santos, coordenadora do Outubro Rosa da Amucc, Bia e Marli estão entre as poucas pacientes que denunciaram à associação a falta dos medicamentos. Jurema disse que a maioria das mulheres sente medo em fazer uma denúncia ou mesmo registrar uma reclamação e depois sofrerem algum tipo de represália, inclusive, de perder o direito ao tratamento. “É uma situação muito delicada e por isso nesse ano o lema da campanha é ‘O câncer não pode esperar’. A doença não espera pelo tratamento. Essas mulheres não têm tempo para isso”, afirmou.

Falta é recorrente

A falta desses medicamentos não é um fato inédito. Bia Salgueiro ficou sem o tratamento algumas vezes desde 2018 e após essa falha apareceu um nódulo onde havia feito a mastectomia. Ela não tem certeza se há relação entre o nódulo e a interrupção do medicamento, mas considera a possibilidade.

Para a farmacêutica Simone Lopes, vice-presidente da Amucc, a suspenção inesperada do medicamento pode afetar o tratamento a que as pacientes estão sendo submetidas. Simone afirma que a falta de trastuzumabe e pertuzumabe está ocorrendo em todo o País. A medicação é fornecida pelo Ministério da Saúde à SES (Secretaria de Estado da Saúde) que então encaminha para o Cepon (Centro de Pesquisas Oncológicas) fazer a aplicação nas pacientes.

Em ofício enviado pela SES à Amucc em setembro passado foi informado que o Ministério da Saúde enviou ao estado no dia 24 daquele mês doses de trastuzumabe para atender 69% das pacientes naquele período. Quanto às doses de pertuzumabe, a SES informou que foram recebidas. No entanto, explica Simone Lopes, esse medicamento só pode ser aplicado em associação com o trastuzumabe.

Procurada pela reportagem, a SES não havia respondido aos questionamento até o fechamento da edição.

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