Pesquisadores de SC desenvolvem novo kit de teste rápido e barato para Covid-19

Inovação vem sendo desenvolvida em conjunto por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, da UFSC, do IFSC e a iniciativa privada

O pesquisador do IOC/Fiocruz (Instituto Oswaldo Cruz), André Pitaluga, e a professora do departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética da ​UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Luísa Rona, foram dois dos principais responsáveis pelo desenvolvimento de um novo kit de teste rápido de alta precisão, e baixo custo, para detectar a Covid-19.

A descoberta é anunciada perto deste 8 de julho, data em que são comemorados o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador Científico.

Resultado de testes para Covid-19: Em amarelo – positivo, rosa – negativo – Foto: Luisa Rona/Divulgação/NDResultado de testes para Covid-19: Em amarelo – positivo, rosa – negativo – Foto: Luisa Rona/Divulgação/ND

A ideia surgiu logo no começo da pandemia, quando um vizinho do casal de pesquisadores precisou realizar um teste do tipo PCR – conhecido como “teste do cotonete”, e reclamou sobre o valor pago e o tempo de espera.

Desde então, a inovação vem sendo desenvolvida com pesquisadores do IOC/Fiocruz, da UFSC, do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), em parceria com a empresa SPK Solutions.

Fase de testes

Os testes de validação foram realizados em parceria com o Lacen/SC (Laboratório Central de Saúde Pública de Santa Catarina) e as prefeituras de Tubarão e Florianópolis.

De maneira simples, rápida e barata, o kit de diagnóstico identifica o material genético do SARS-CoV-2, responsável pelo novo coronavírus, utilizando uma técnica chamada de RT-LAMP.

Em fase de testes de validação, com mais de mil amostras, o exame apresentou precisão equivalente ao RT-PCR, considerado como padrão-ouro para o diagnóstico da Covid-19.

Para amostras da orofaringe – coletadas com um tipo especial de cotonete, conhecido como swab, introduzido no nariz dos pacientes – o teste demonstrou 96% de sensibilidade e 98% de especificidade.

A metodologia pode ser aplicada ainda para amostras de saliva, cuja coleta é mais simples. Neste caso, as primeiras análises indicaram 70% de sensibilidade e 98% de especificidade, e uma nova rodada de testes aponta que é possível alcançar quase 100% de sensibilidade caso a coleta seja realizada em jejum, logo após o despertar.

“A ingestão de alimentos, bebidas e higiene bucal alteram a composição da saliva e podem reduzir a presença de partículas virais na amostra, dificultando o diagnóstico”, comenta o pesquisador André Pitaluga.

André Pitaluga é um dos principais idealizadores do projeto – Foto: Luisa Rona/Divulgação/NDAndré Pitaluga é um dos principais idealizadores do projeto – Foto: Luisa Rona/Divulgação/ND

“Os testes com a coleta em jejum, pela manhã, ainda estão em andamento, mas os resultados preliminares são bastante positivos”, afirma Pitaluga.

O que os diferencia de outros testes já utilizados

O custo estimado do novo kit de diagnóstico da Covid-19 é de R$ 30, o que representa menos de um terço do valor de um kit de RT-PCR, de aproximadamente R$ 100. O gasto de operação para realizar o exame também é significativamente menor, considerando equipamentos e profissionais envolvidos.

Os pesquisadores destacam que a ferramenta reúne componentes para extração e amplificação do RNA viral. A primeira etapa busca extrair da amostra apenas o material genético, deixando de lado as outras moléculas presentes. A segunda tem o objetivo de identificar e multiplicar alvos do genoma do SARS-CoV-2, de forma a tornar possível a sua detecção.

“As duas etapas são muito importantes para o diagnóstico. A extração facilita a detecção do RNA, aumentando a sensibilidade do teste. Se esse procedimento não for correto, ocorre a degradação do RNA viral, podendo gerar resultado falso-negativo”, destaca Luísa Rona.

Um dispositivo para extração do RNA, criado pelos cientistas, integra o kit de diagnóstico. Basta usar uma pipeta para depositar a solução com a amostra no local indicado, onde uma membrana retém as partículas de RNA presentes.

Para a amplificação dos alvos no genoma viral, o kit contém uma solução pronta, com todo os ingredientes necessários à reação de RT-LAMP, incluindo a enzima que participa do processo e moléculas que identificam especificamente o RNA do SARS-CoV-2.

Como é feito o teste

É preciso apenas colocar a amostra purificada em um tubo com a solução e utilizar um aparelho de banho seco ou banho maria para aquecer a mistura. Após 30 minutos a 65°C, a reação de RT-LAMP é concluída.

O resultado é indicado pela mudança na cor da solução. Nos casos positivos, há alteração no pH da mistura, que se torna amarela. Nos casos negativos, o líquido permanece rosa.

“Todo o procedimento leva cerca de 45 minutos. O único equipamento necessário é um banho seco ou banho maria, e qualquer profissional treinado pode aplicar o teste”, destaca Pitaluga.

Dra. Luisa Rona realizando o teste para detectar a Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDDra. Luisa Rona realizando o teste para detectar a Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

“Pela simplicidade, o custo operacional é muito menor do que a RT-PCR que exige equipamentos sofisticados e precisa ser executada por especialistas em biologia molecular”, resume o pesquisador.

Próxima etapa para o lançamento

A partir dos bons resultados nos testes de validação, os pesquisadores estão buscando parceiros para a produção e o fornecimento do kit de diagnóstico.

O projeto integra a Vitrine Tecnológica Covid-19 do IOC, plataforma que dá visibilidade a inovações em desenvolvimento no Instituto com o objetivo de fomentar parcerias para a geração de produtos e processos inovadores para o enfrentamento da emergência sanitária.

As próximas etapas do projeto devem contemplar também o escalonamento do produto para fabricação industrial e a submissão à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Desde o início, desenvolvemos esse produto com foco no SUS (Sistema Único de Saúde), com objetivo de ampliar o acesso ao diagnóstico e contribuir para o enfrentamento da pandemia no nosso país”, ressalta André, acrescentando que a inovação pode ajudar ainda na luta contra outros agravos.

“Essa metodologia é muito versátil. Já estamos trabalhando em uma versão do kit para o diagnóstico da febre amarela”, adianta o pesquisador.

Apoio e financiamento

Para desenvolver o kit de diagnóstico, os pesquisadores contaram com o apoio do NIT-IOC (Núcleo de Inovação Tecnológica do IOC) e o financiamento da empresa Engie, Programa Inova Fiocruz e MPT (Ministério Público do Trabalho).

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Saúde

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