Fabio Gadotti

Comportamento, políticas públicas, tendências e inovação. Uma coluna sobre fatos e personagens de Florianópolis e região.


“Precisamos de estratégias mais coordenadas contra a Covid-19”

Presidente da Associação Catarinense de Medicina, Ademar José de Oliveira Paes fala sobre o cenário da epidemia em Santa Catarina

Presidente da Associação Catarinense de Medicin, Ademar José de Oliveira Paes Jr, – Foto: Divulgação/ND

Os principais gargalos de Santa Catarina no enfrentamento ao coronavírus foram discutidos durante a semana pelos representantes dos hospitais públicos e privados, que pediram mais coordenação entre os órgãos públicos na adoção de medidas conjuntas.

“Vamos entrar num período difícil agora”, diz Ademar José de Oliveira Paes Jr., presidente da Associação Catarinense de Medicina, referência às quedas das temperaturas que acarretam em aumento das doenças respiratórias.

Hospitais públicos e privados discutiram durante a semana ações conjuntas de enfrentamento da Covid-19. Quais são os principais problemas no Estado?
Santa Catarina tem características diferentes nas diversas regiões, com algumas áreas mais estressadas e outras um pouco mais tranquilas. Está sendo cumprido um planejamento de ampliação de leitos de UTI. Temos alguns gargalos. Além dos leitos, precisamos de médicos especialistas e equipe multidisciplinar. E intensificar os cuidados para não perdermos ninguém do time de frente por contaminação, com EPIs de qualidade e testes para diagnóstico rápido. E estamos tratando agora da falta de medicamentos, tentando mobilizar a indústria para tentar agilizar essa distribuição.

Os medicamentos estão faltando porque a indústria não está conseguindo atender o país inteiro ou por falhas na gestão da área da saúde estadual?
É uma soma dos dois. A capacidade de distribuição é limitada – estava restrita à demanda convencional – e o Estado também não se antecipou na previsão desse possível gargalo. Havia um consumo padrão porque, em geral, o número de leitos varia pouco de um semestre para outro, mas com o uso intensivo começou a faltar. Poderíamos ter antecipado nisso aí. É uma falha operacional.

Considerando a ocupação de leitos de UTI, como avalia a situação?
Estamos preocupados porque entramos no período do pico de síndromes respiratórias agudas graves e do Influenza. Esses casos se somam aos de Covid-19. Muitas vezes se confunde o diagnóstico. Vamos entrar num período difícil agora. As UTIs estão chegando próximas do limite e a ACM estava vendo claramente uma linha de crescimento da ocupação sem observar essa reverberação nas secretarias e próprias gestões hospitalares para estratégias de ampliação dos leitos.

Vocês estão defendendo também o tratamento precoce da Covid-19 para evitar que os pacientes cheguem em estado mais crítico aos hospitais?
Quando a rede está com folga essa discussão sobre o tratamento antes da chegada ao hospital estava um pouco menos aquecida e intensa. Várias estratégias de tratamento ainda não têm as evidências científicas máximas, mas existem outros com outros níveis de evidência um pouco mais baixos e a ACM, junto com o CRM (Conselho Regional de Medicina), propôs essa discussão para que as prefeituras e governo do Estado permitissem o acesso a essas medicações. E que o CRM garantisse a segurança jurídica para que o médico possa ter autonomia de selecionar os casos adequados nessa estratégia de tratamento precoce.  Só que não adianta o CRM autorizar e os governos não disponibilizarem os medicamentos. Infelizmente, a maioria das pessoas ainda não tem condições de comprar.

Como vê o isolamento social no estágio atual de combate à Covid-19?
Não temos medicação específica, vacina e testes de diagnóstico baratos para atingir a população de forma massiva. O que sobra como estratégia é trabalhar o ambiente de forma mais intensiva. Temos plena convicção que as consequências econômicas podem trazer problemas de saúde, mas é comprovado que o distanciamento e o isolamento reduzem a transmissibilidade.

Como chegar a um equilíbrio?
Como modular isso, regionalizar e setorizar é uma discussão que depende de inteligência de dados, testes e uma conscientização muito clara da população. A restrição tem que ser muito maior nas atividades de lazer para priorizar o setor produtivo e a manutenção de empregos. Precisa ser controlado o índice de transmissibilidade que, comprovadamente, aumenta o número de casos, as internações e os óbitos. E nenhum governante quer ser responsabilizado por não ter disponibilizado o número de leitos necessários à população. Ficou muito claro que precisa intensificar a comunicação entre prefeituras e governo do Estado. Mesmo em cidades muito próximas percebemos diferenças de estratégicas. É o caso da Grande Florianópolis. Não faz sentido, por exemplo, Florianópolis ter restrições e São José ter uma estratégia diferente. Essa discrepância entre União, Estados e municípios – às vezes com três níveis de governos com discursos diferentes – está sendo muito ruim.

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Fabio Gadotti