Prefeituras registram mais casos de coronavírus do que o governo de Santa Catarina

Fonte de informação para ações públicas como isolamento social, números divulgados pelas prefeituras da Grande Florianópolis e pela secretaria estadual são divergentes

Os 22 municípios que compõem a Grande Florianópolis contabilizam 10.205 casos de Covid-19 segundo o boletim divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde divulgado na noite de segunda-feira (27). Os casos informados por balanços das próprias prefeituras, porém, somam 14.308. A divergência é de 40,2%. 

Usados para basear decisões sobre afrouxamento do isolamento social e fortalecer decretos do Estado e municípios, os dados divergem também no número de mortes. Segundo as prefeituras, 154 pessoas morreram por coronavírus na Grande Florianópolis. O Estado lista 144 vítimas. 

Centro de Florianópolis em tempos de pandemia – Foto: Anderson Coelho/ND

Enquanto a prefeitura de Antônio Carlos afirma que houve 156 pessoas infectadas por Covid-19 e 10 mortes, o Estado afirma que apenas 147 foram infectados pela doença no município da Grande Florianópolis. A Secretaria de Estado da Saúde ainda contabiliza oito mortes. Duas vítimas, de 80 e 84 anos, não entraram para a estatística estadual. As mortes ocorreram nos últimos sete dias, segundo o município.

Capital tem a maior divergência 

Com uma plataforma especial e atualizada diariamente, Florianópolis é a cidade com a maior discrepância de casos. Segundo o Estado, 3.050 pessoas já foram diagnosticadas e 45 morreram com Covid-19. O município, porém, contabiliza, nesta terça-feira (28), 5.430 casos e 52 mortes. 

coronavírus mostra que cenário retratado Estado é de três semanas atrás – Foto: Divulgação

Procurado na manhã da última quarta-feira (22), o secretário municipal de saúde de Florianópolis, Carlos Alberto Justo da Silva, ficou surpreso com a diferença de informação.

Segundo o médico, os dados do Covidômetro são repassados diariamente ao Estado. “Muito estranho isso”, disse. “Os nossos dados são oficiais. São os que nós temos de pacientes com testes confirmados na nossa vigilância”, afirmou. 

Os dados sobre o município apresentado pelo Estado no último boletim correspondem ao cenário de Florianópolis há três semanas. Em 7 de julho, a Capital havia passado de três mil infectados segundo o Covidômetro. 

Contraponto

Por meio de nota, a Secretaria de Estado da Saúde informou que o painel deles é feito com base em vários sistemas, alimentados pelos serviços de saúde e vigilâncias epidemiológicas municipais e consolidados na Plataforma Estadual.

A pasta reconhece que “podem ocorrer possíveis atrasos na atualização” das informações. A demora se dá por conta do processo de validação do próprio sistema. No entanto, o prazo para que as mortes sejam lançadas, após a confirmação no Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) é de 24 horas. 

“Importante ressaltar que os casos são registrados de acordo com a cidade de endereço do paciente que consta no CNS (Cartão Nacional de Saúde). Quando ocorre uma morte suspeita, por exemplo, o município registra no sistema e é responsável por acompanhar o resultado do exame para a confirmação ou não do óbito pela COVID-19”.

Apesar da afirmação, a contabilização de mortes em alguns casos estende-se a mais de um dia. Vítima de Covid-19, Irene Ida de Souza, 87 anos, morreu em 30 de abril. O caso dela só foi incluído na plataforma do Estado em 23 de maio, ou seja, com 24 dias de atraso.

Dados são usados em plataforma 

Mesmo com subestimação nos números pelo Estado, a região da Grande Florianópolis está há duas semanas classificada com risco potencial gravíssimo para o coronavírus. Em uma plataforma atualizada a cada sete dias, os dados dos boletins são consolidados e usados para tomada de decisões. 

Professor de saúde pública na UFSC (Universidade Federal de santa Catarina), Fabrício Augusto Menegon, acompanha a evolução do vírus no Estado e afirma que os dados são importantes para basear as estratégias de combate ao vírus:

“O Estado tem que ter compromisso de transparência da informação, principalmente na situação de pandemia, para que as pessoas possam ter noção real da gravidade do problema. Se nós temos uma divergência deliberada, isso é um problema muito sério do ponto de vista da organização do serviço e do ponto de vista da transparência”, afirmou o especialista. 

Além de Florianópolis e Antônio Carlos, as cidades de Biguaçu, Alfredo Wagner, Canelinha, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz e São João Batista possuem mais mortes do que divulgadas pelo governo do Estado. 

Já nos boletins dos municípios de São José e Governador Celso Ramos o número de mortes é menor do que o registrado pela secretaria estadual. 

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