Primeira médica da história de Itapoá vence a Covid-19

Gladis Stock Fonseca acompanhou o crescimento da cidade e acumulou amigos e pacientes pelos postos onde atuou

Já em casa, Gladis Stock Fonseca ainda busca entender como contraiu a doença que levou a vida de dezenas de seus colegas nos últimos meses.

Aos 74 anos, a médica é mais uma entre as tantas que contrariou as estatísticas e venceu a Covid-19, quando os próprios médicos acharam que seria impossível.

Primeira médica de Itapoá Gladis foi a primeira médica do município e acumula uma série de amigos e pacientes pelos lugares onde passou – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Mas a história de Gladis vem muito antes dos 41 dias em que ficou internada em um hospital particular de Joinville, município vizinho a Itapoá, no Litoral Norte, onde vive há mais de 30 anos. Sua trajetória remonta ainda da década de 1970, quando iniciou os primeiros passos na medicina no Rio Grande do Sul.

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Natural da cidade de Pelotas, Gladis se formou em medicina em 1970. Ao término da faculdade, ela começou a fazer residência em um hospital de Curitiba e, pouco tempo depois, se mudou para o Paraná onde atuou em outras unidades da região.

Após quase uma década no estado, ela resolveu encarar um novo desafio, dessa vez em terras catarinenses: ser médica no município de Itapoá.

“Enquanto estava no Paraná, fiquei sabendo que tinha sido aberto um concurso para médico na cidade. Como já tinha casa por aqui, resolvi tentar. Em um primeiro momento, passei em segundo lugar, porém como o primeiro colocado não assumiu, acabei sendo chamada” relembra.

E foi desse chamado que ela começou a fazer história, se tornando a primeira médica mulher e primeira contratada pelo município que, na época, contava com cerca de 5 mil habitantes.

Gladis atuou em todas as unidades de saúde do município – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoGladis atuou em todas as unidades de saúde do município – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Por anos, Gladis foi a única médica da cidade

Durante anos, Gladis atuou como a única médica de Itapoá no único posto de atendimento da cidade, que ficava na colônia dos pescadores.

“Era como se fosse 24h. De  dia, eu atendia no local, mas se a noite eles [pacientes] precisassem de ajuda, eles me chamavam e eu voltava até lá. Ou até mesmo, eles eram levados para minha casa”, relembra.

Com o passar dos anos, ela viu a medicina e o município do Litoral catarinense evoluir. A cada novo posto construído, ela era transferida para trabalhar na unidade e, assim, acumulou amigos e pessoas que até hoje guardam um carinho especial pela médica.

“Em todos esses anos trabalhando na saúde eu vi muitas melhorias, em uma estrutura que no começo era muito precária. Ainda temos algumas deficiências, mas espero que elas sejam sanadas ao longo dos próximos anos”, fala.

Após se dedicar a saúde da cidade, em 2011, Gladis pediu pela aposentadoria. Porém, a pausa não durou muito. Anos depois ela resolveu voltar a fazer aquilo no qual mais dedicou a vida: cuidar de pessoas.

“Eu fiquei uns dois anos paradas, mas resolvi fazer um novo concurso e voltei a trabalhar na cidade”, conta.

Pandemia e o afastamento das funções

Porém, com a chegada da pandemia, assim como outras pessoas, Gladis viu sua rotina mudar com a Covid-19. Por fazer parte do grupo de risco, ela foi afastada das funções presenciais, que realizava em um dos postos da cidade, e passou a trabalhar de casa.

“Em julho [de 2020] acabou o meu contrato, mas como já existia a pandemia e eu faço parte do grupo de risco, sendo hipertensa e idosa, meu contrato não foi renovado”, explica.

Mas, apesar de todos os cuidados, ela não escapou de ser contaminada pelo vírus no fim do ano passado. Ela afirma que não sabe como pegou a Covid-19 e nem lembra como foi o período de recuperação.

“No dia 21 de dezembro eu estive no pronto atendimento em Itapoá onde positivei para Covid. Dois dias depois, os sintomas pioraram eu voltei para o PA. Foi quando, já na madrugada do dia 24 de dezembro, fui internada em Joinville”, conta.

Uma luta que parecia improvável

Após dar entrada na unidade, ela passou o Natal longe da família e em observação. Porém, no dia 26, os sintomas pioraram e ela precisou ser entubada na UTI.

“Eu não tenho muitas lembranças desse período. Só sei que tudo foi muito rápido”, conta. Alguns médicos chegaram a dizer que Gladis tinha apenas 10% de chances de sobreviver.

Mas a médica lutou e lutou muito. Cada dia em que passava dentro daquele quarto de hospital, ela mostrava mais e mais vontade de viver e, com isso, aos poucos foi vencendo um vírus que ainda gera muitas dúvidas.

A vitória veio no dia 26 de janeiro, quando Gladis deixou a UTI. Depois, ela passou a receber visitas de amigos e familiares, sempre com aquele sorriso no rosto característico da médica, até que no dia 2 de fevereiro, ela pôde finalmente voltar para casa.

O momento, inclusive, foi de festa. Vários amigos e pacientes da médica se reuniram para comemorar a recuperação e a recepcionar durante a volta para o lar.

Agora, ela continua com o processo de reabilitação em casa e com acompanhamento de uma fisioterapeuta. Como médica e curada da Covid-19, ela deixa um recado:

“As pessoas não podem subestimar o vírus e devem cada vez mais continuar cuidando e prevenindo para não pegar a doença, pois qualquer descuido pode ter graves consequências”, alerta.

Amigos e familiares fizeram festa na volta de Gladis para casa – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoAmigos e familiares fizeram festa na volta de Gladis para casa – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

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