‘Prioridade deve ser a saúde’, diz infectologista de Blumenau sobre combate à pandemia

O infectologista Amaury Mielle Filho questiona a forma como o governo e a comunidade têm lidado com a Covid-19; confira a entrevista

Qual o número de mortes necessário para mudar alguma coisa?

O questionamento é do infectologista de Blumenau Amaury Mielle Filho. Em um ano de pandemia, a cidade já perdeu 364 pessoas para a Covid-19. Isso significa cinco vezes o número de mortes na queda do avião da Chapecoense; nove vezes o total de vítimas com o ônibus de turistas argentinos na Serra da Santa, no Vale do Itajaí; e 14 vezes a quantidade de vidas perdidas em Blumenau na tragédia climática de 2008.

É impactante na ótica dos números e ainda mais na perspectiva das famílias que enfrentam o luto e dos profissionais da saúde, que mesmo passados 12 meses ainda enfrentam jornadas exaustivas nos hospitais. É uma realidade contraditória que, diante do avanço científico obtido neste período sobre como ocorre a transmissão do vírus e como ele age, não se reverteu em medidas de contenção da pandemia, aponta o médico.

O médico Amaury Mielle Filho avalia o avanço da Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/ReproduçãoO médico Amaury Mielle Filho avalia o avanço da Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução

Em entrevista ao Grupo ND para a série de reportagens Blumenau: um ano de pandemia, Amaury Mielle Filho se mostrou crítico a forma como os governantes gerenciam a pandemia. Também ressaltou a necessidade de comprometimento da população para que seja possível reduzir os impactos da Covid-19 até a vacinação em massa, pois, além das mortes, os pacientes ficam com sequelas. Uma realidade, segundo o médico, para três em cada cinco infectados na forma leve da doença.

ND+: Qual a sua análise sobre este um ano de pandemia em Blumenau?

A avaliação do médico é de que houve crescimento científico grande sobre o vírus. Entretanto, ele aponta que isso se limitou a atenção médica e não reverteu em medida prática para conter a pandemia. O infectologista é enfático em dizer que a prioridade neste momento deve ser a saúde.

ND+: As medidas em vigor hoje são suficientes para conter o vírus?

As restrições em vigor são “tímidas, sem eficiência e vão protelar uma tragédia em crescimento”, avalia Mielle. Ele alerta que o cenário é crítico e ainda não há na cidade o predomínio da variante P1, de transmissão mais rápida e grave. Quando isso ocorrer, a situação pode ficar ainda mais complicada.

ND+: Como deve ser 2021 no enfrentamento da Covid-19?

Para o infectologista é difícil dizer como será este novo ano de pandemia. Isso porque, segundo ele, a situação atual exige planejamento de curto prazo para evitar um cenário ainda pior. Para tal, defende celeridade na vacinação e bloqueio do vírus, já que a nova cepa é “duas vezes e meia mais transmissível e provoca 60% mais de mortalidade”.

ND+: Vacina é carta-branca para as pessoas fazerem o que querem?

Mielle é enfático na resposta: não. Ele explica que ainda não se sabe o quanto a dose é capaz de evitar que uma pessoa seja infectada pelo vírus. Até o momento, os estudos mostram que a vacina é, sim, capaz de reduzir a força da doença, o que reflete na queda de demanda dos hospitais.

ND+: O que precisamos para virar o jogo?

Atitudes efetivas dos governantes e comprometimento da população são as chaves para voltar à normalidade o mais breve possível, aponta o infectologista. Para ele, são inadmissíveis episódios de festas e aglomerações. E questiona: “Qual é o número de mortes que temos que ter para mudar alguma coisa?”.

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