Psicóloga explica como lidar com a dor e o luto da tragédia em creche de SC

Crime que deixou cinco mortos, entre eles três crianças com menos de dois anos, chocou o país na última terça-feira (4)

O ataque à escola infantil Pró-Infância Aquarela, em Saudades, no Oeste catarinense, chocou o país na última terça-feira (4). Mais do que isso, a chacina cometida pelo jovem de 18 anos destruiu famílias e, segundo especialistas, pode causar traumas psicológicos em testemunhas do caso.

Tragédia chocou o país na última terça-feira (4) – Foto: Willian Ricardo/NDMaisTragédia chocou o país na última terça-feira (4) – Foto: Willian Ricardo/NDMais

Segundo a psicóloga e doutora em psicologia clínica Vanessa Cardoso, todo caso de morte gera um processo de luto que passa pelas seguintes fases: negação, raiva, resignação e, por fim, aceitação.

“No caso de Saudades, por se tratar de uma tragédia que envolve crianças, ficará marcado por muito tempo. Até por ser uma cidade pequena, os familiares das vítimas podem ficar conhecidos como ‘pai do fulano’, ‘professora tal’, isso acaba dificultando esse processo de luto”, explica a profissional.

A orientação é que os familiares e amigos das vítimas procurem apoio psicológico neste momento. “Não é uma perda como outra qualquer, principalmente por se tratar de uma tragédia. É essencial esse apoio [psicológico], em especial para as famílias das crianças”, afirma Cardoso.

“É uma coisa ‘fora do processo do fluxo da vida’ uma criança morrer. Isso causa um trauma”, completa.

Outro ponto citado pela profissional é a pessoa aceitar todos os estágios do luto que a dor o obriga a viver. “Se estiver com raiva, lide com a raiva, queira justiça, deixe sentir. Não se cobre por urgência. Por exemplo, ‘eu já tinha que estar trabalhando’, ‘já tinha que estar fazendo tal coisa’. Deixe sentir, respeite o seu próprio tempo”, pontua a psicóloga.

“Muitas vezes as pessoas dão conselhos que tem que ser ‘assim ou assado’, é deixar a dor vir e ir encarando cada processo. Nunca será fácil de lidar, mas um suporte profissional será de grande ajuda”, completa.

Cardoso também afirma que os familiares dos envolvidos não devem se culpar por coisas como “não ter chegado a tempo no local”.

“Não tem que se culpar, a culpa retira uma energia psíquica tremenda. É preciso deixar a culpa e acolher o sofrimento e a dor, é algo difícil. Queremos tudo para ontem. Você pode sim ‘perder tempo’ sofrendo”, relata.

Sobreviventes devem ter acompanhamento

Questionada sobre o apoio psicológico às testemunhas do evento, a psicóloga cita que, normalmente, em casos como esse, é desenvolvido o chamado stress pós-traumático. A situação deve ser acompanhada de perto por um profissional.

A escola infantil Pró-Infância Aquarela foi alvo do ataque brutal de um jovem de 18 anos. – Foto: Willian Ricardo/NDMaisA escola infantil Pró-Infância Aquarela foi alvo do ataque brutal de um jovem de 18 anos. – Foto: Willian Ricardo/NDMais

“Quando um stress pós-traumático não é tratado, qualquer coisa que se assemelhe à situação vivida, por exemplo, uma porta batendo, um grito ou um barulho pode gerar sensações de horror e pânico, como uma forma de gatilho”, explica Cardoso.

Sobre o menino de 1 ano e 8 meses, que sobreviveu à tragédia, a psicóloga pontua que é necessário que os pais ou responsáveis acompanhem o sono, o processo de alimentação e os choros do bebê.

“É recomendado que se acompanhe o dia a dia da criança, uma vez que não é descartada a hipótese dela desenvolver esses traumas. Caso haja alteração comportamental, é aconselhável que os pais procurem apoio especializado”, finaliza a psicóloga.

Relembre o caso

Um jovem armado com uma katana invadiu a escola infantil Pró-Infância Aquarela, localizada na rua Quintino Bocaiúva, no bairro Industrial, em Saudades, no Oeste catarinense, na manhã de terça-feira (4), e atacou alunos e professores.

A primeira vítima identificada foi a professora Keli Adriane Anieceviski, de 30 anos. Já a segunda foi a agente educativa Mirla Amanda Renner Costa, de 20 anos.

Já as crianças foram identificadas como Sarah Luiza Mahle Sehn, de 1 ano e 7 meses, Anna Bela Fernandes de Barros, de 1 ano e 8 meses e Murilo Massing, de 1 ano e 9 meses.

Outro bebê, de 1 ano e 8 meses, também foi atingido, mas não morreu. Ele passou por uma cirurgia no Hospital Regional do Oeste e, posteriormente, foi transferido para o Hospital da Criança, onde está se recuperando.

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