Reino Unido aposta em doses de reforço para manter mortes por Covid-19 sob controle

País está entre grupo de nações que já proibiu a entrada de viajantes de países africanos em que foi detectada uma nova variante do coronavírus

Em uma tentativa de manter as taxas de hospitalização e mortes por Covid-19 relativamente estáveis, sem impor novas medidas de isolamento, o governo britânico aposta em uma campanha agressiva de doses de reforço das vacinas. A dose extra tem como público alvo as pessoas mais velhas e vulneráveis à doença.

Reino Unido foi a primeira nação a começar vacinação em massa; agora, faz campanha pelas doses de reforço para conter nova onda da Covid-19 – Foto: Divulgação/NDReino Unido foi a primeira nação a começar vacinação em massa; agora, faz campanha pelas doses de reforço para conter nova onda da Covid-19 – Foto: Divulgação/ND

O país tem registrado uma média de 43,5 mil casos diários, contra 54 mil na Alemanha, por exemplo.

A contagem de mortes também aumentou desde o final de julho, quando todas as restrições contra a Covid-19 foram abolidas, incluindo o uso obrigatório de máscaras. No entanto, a média diária atual é de 132 óbitos, inferior à da Alemanha, que é de 212.

As diferentes estratégias entre os países europeus criaram um intenso debate político sobre a melhor maneira de combater a mais nova onda da pandemia.

A Áustria, por exemplo, decidiu voltar à quarentena total e tornou a vacinação obrigatória, enquanto a Itália, a Alemanha e outros países estão endurecendo as medidas contra os não vacinados.

O Reino Unido adota uma estratégia oposta. O primeiro-ministro Boris Johnson alertou para uma “nevasca vinda do leste”, referindo-se à quarta onda da Covid-19 no resto da Europa, mas indicou que não há planos para mudar as regras sobre máscaras ou adotar passaportes de vacinas, o que muitos países da União Europeia impuseram.

Imunização

Nessa comparação, as taxas nacionais de imunização por si só não contam toda a história.

Na Alemanha, cerca de 86% da população com 60 anos ou mais – uma faixa que responde por mais de 90% das mortes por Covid-19 no país – foram vacinados. Isso significa que 3,4 milhões de pessoas altamente vulneráveis ainda não receberam vacinas.

No Reino Unido, mais de 90% dessa faixa etária foi imunizada.

“Uma coisa que os países da UE podem aprender com o Reino Unido é a importância de se concentrar nas pessoas que mais precisam de vacinas”, disse Mike Ryan, chefe do programa de emergências de saúde da Organização Mundial de Saúde.

“Os governos devem saber exatamente quem não foi vacinado e passar de porcentagens contundentes para indivíduos perdidos. O Reino Unido realmente liderou o mundo na forma de analisar dados.”

Os altos números de casos da Covid-19 no Reino Unido não resultaram em mais mortes provavelmente devido a uma combinação de fatores. Um deles é que quase 16 milhões de pessoas receberam a terceira dose, contra 6,6 milhões na Alemanha.

O lançamento lento da vacina para os jovens também pode ser um fator. A disseminação de infecções foi particularmente pronunciada em escolas, e as crianças têm menos probabilidade de sofrer doenças graves ou morrer de Covid-19.

“É tudo uma questão de imunidade populacional”, disse David Heymann, professor de epidemiologia de doenças infecciosas na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. “A imunidade da população no Reino Unido é provavelmente muito alta porque o vírus circulou mais nas comunidades.”

O lado dramático disso é que, em toda a pandemia, o país acumula 144 mil mortes, um recorde na Europa. “O Reino Unido tem mais imunidade do que muitos lugares, tanto por causa de infecções como de vacinação”, disse Graham Medley, membro do painel consultivo sobre Covid-19 do governo.

“Se as pessoas continuarem sendo vacinadas e recebendo seus reforços, e continuarem os testes para limitar a transmissão, o Reino Unido pode não ter que introduzir mais medidas para reduzir o número de pacientes no hospital.”

Medo de nova variante

Enquanto isso, Itália, Alemanha e República Tcheca anunciaram na manhã desta sexta (26) a proibição de entrada de viajantes de países africanos em que foi detectada uma nova variante do coronavírus potencialmente mais transmissível, a B.1.1.529, já batizada de Ômicron.

A medida segue decisão anunciada na quinta (25) pelo Reino Unido e por Israel, entre outros, e pode ser adotada em toda a União Europeia, segundo proposta divulgada também na manhã desta sexta-feira pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Ursula informou por meio do Twitter que deve propor uma proibição de viagens aéreas oriundas de países do sul da África após a descoberta de uma nova variante do coronavírus na região.

A Ômicron carrega um número grande de mutações e é “claramente muito diferente” de versões anteriores do vírus, segundo Túlio de Oliveira, professor de bioinformática que dirige instituições de sequenciamento de genes em duas Universidades sul-africanas, em uma entrevista coletiva nesta quinta-feira (25).

Conforme a imprensa israelense, a nova variante foi detectada em uma pessoa que retornou para o país após uma viagem para o Malaui. Dois outros casos suspeitos relacionados a viajantes estão aguardando os resultados dos exames. Todos estariam com o esquema de vacinação completo.

O Ministério da Saúde de Cingapura anunciou que todas as pessoas com histórico recente de viagens para Botswana, Eswatini, Lesoto, Moçambique, Namíbia, África do Sul e Zimbábue não terão mais permissão para entrar ou transitar no país a partir das 23h59 de sábado (27). Até o momento, nenhum caso da nova cepa foi detectado.

No Reino Unido, a médica-chefe da Agência de Segurança de Saúde, Susan Hopkins, disse em entrevista que a variante preocupa principalmente pela possível alta taxa de transmissão. Em entrevista à Rádio BBC, explicou que a taxa R em Gauteng, onde a nova variante foi encontrada, chegou ao valor 2, o que é “realmente muito alto”.

“Não vimos níveis de transmissão como esse desde o início da pandemia por causa de todas as medidas que tomamos. Seria um grande problema ter essa transmissão alta com esse tipo de vírus e com a possibilidade de ele pode escapar das respostas imunológicas que já existem”, ressaltou.

(Com agências internacionais)

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