Santa Catarina atinge marca de 100 mortos pela Covid-19

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Pais, mães, avós e filhos partiram sem que famílias pudessem se despedir, pelo risco de contágio. Nova forma de luto e vidas tranformadas em estatísticas diárias deixam cicatrizes ainda mais profundas aos que ficam.

REPORTAGEM: Catarina Duarte e Felipe Bottamedi
EDIÇÃO: Beatriz Carrasco

A trajetória de vida da joinvillense Silvina Kunz Loch trouxe ao mundo 63 descendentes, entre filhos, netos e bisnetos. No dia 2 de maio, ela morreu aos 82 anos, em decorrência da Covid-19. A suspeita é de que tenha contraído a doença enquanto tratava uma bronquite no Hospital Bethesda, no bairro Pirabeiraba.

Apesar da família grande e unida, Silvina partiu sozinha. “Foi uma morte triste e solitária, a família desolada por perder ela dessa forma e não poder nem velar o corpo”, lamenta Marlene Junkes, uma das 12 filhas da vítima.

Cada um em sua casa, os familiares recorreram à memória fotográfica para eternizar a última imagem de Loch. “Nossa lembrança vai ser assim”, conta Marlene, acompanhada da foto da mãe sorridente e bem disposta na praia ensolarada.

Família de Silvina guarda imagem da matriarca sorridente – Foto: Arquivo Pessoal/ND

A realidade da família de Silvina é compartilhada por todas aquelas que perderam seus entes queridos para a Covid-19. Desde o dia 25 de março, o Ministério da Saúde adotou protocolo que proíbe velório, limita o número de pessoas permitidas no sepultamento e exige que os caixões estejam lacrados.

Sem um adeus apropriado, o processo de luto é prejudicado. Etapas que seriam fundamentais para auxiliar na aceitação da perda acabam suprimidas. A morte do parente é desamparada.

Assim como os familiares de Silvina, ao menos outras 100 famílias de Santa Catarina sofrem com a mesma dor. Tiveram seus amores arrancados dos braços, sem chance de despedida. Tornaram-se números de estatísticas diárias. Nesta sexta-feira (22), o Estado atingiu a triste marca oficial de 100 vidas perdidas para a pandemia do coronavírus.

Despedida por áudio de Whatsapp

Em muitos casos, a despedida já começa no momento em que o familiar é internado com a suspeita de infecção pelo coronavírus. Foi assim com a família de Ivor Demetrio Fossatti, de 57 anos. A morte do morador de Tangará completou um mês no dia 18 de maio.

Em 14 de março, três dias após a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar a Covid-19 uma pandemia, o servidor da Vigilância Sanitária de Tangará viajou com a esposa a Navegantes, no litoral catarinense. Em 17 de março, o casal voltou para a cidade do Oeste, após o decreto de isolamento social do governo de Santa Catarina.

Ivor Demetrio Fossatti e os netos, Gustavo e Laura – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Ivor passou a sentir fortes sintomas da doença em alguns dias. Após passar por triagem, ele testou positivo para a Covid-19. A esposa, Deise Socha Fossatti, também estava com a doença, mas não teve sintomas. Portador de marcapasso, Ivor precisou ser internado em UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Durante todos os 22 dias em que ele esteve internado, a esposa, as filhas Jacqueline e Morgana, e os netos Laura e Gustavo recebiam duas ligações diárias do hospital, com a atualização do estado de saúde de Ivor. “Ficamos todos esses dias apenas esperando ligações para receber notícias”, lembra Jacqueline Fossatti.

Com o agravamento do estado de saúde de Ivor e a iminência de sua morte, a família pôde enviar um áudio para ele. “Falamos que estava tudo bem com nós, que estávamos esperando ele, que tínhamos fé que tudo ia passar, que amávamos ele. A minha mãe falou pra ele seguir o coração dele”, relembra a filha.

Na manhã do dia seguinte, Ivor não resistiu. “Nos despedimos através deste áudio. Uma médica da UTI colocou para ele ouvir”, conta Jacqueline. “Depois, a gente não pôde se despedir, tocar nele, dar um velório digno”, desabafa a filha.

Adeus silencioso

Para Gilda Rodrigues, ainda dói a morte da mãe, Antônia Fêliz Rodrigues. A idosa de 75 anos morreu no dia 14 de abril enquanto estava internada na UTI do Hospital Municipal Ruth Cardoso, em Balneário Camboriú.

Antônia Rodrigues e o marido, Cícero Rodrigues  – Foto: Arquivo Pessoal/ND

“Ontem [17 de maio] foi um dia bem difícil pra família, pois fomos dar um destino para as cinzas da minha mãe. Ainda não nos conformamos com a perda dela. Os dias estão sendo difíceis sem ela”, conta Gilda.

Pela primeira vez, a filha passou o aniversário e o Dia das Mães sem Antônia ao seu lado. Além dela, a morte da matriarca deixou órfão Gilberto Rodrigues, e viúvo Cícero Rodrigues.

Gilberto, Gilda e Cícero tentam se recuperar da morte de Antônia – Foto: Arquivo Pessoal/ND

A família acredita que Antônia tenha sido infectada em uma viagem a Curitiba. Ela procurou por duas vezes atendimento no centro de tratamento de Covid-19 em Balneário Camboriú, antes da piora dos sintomas. Cícero, de 76 anos, também apresentou sintomas da doença, mas conseguiu se recuperar.

Antônia foi levada então ao hospital de Balneário Camboriú, de onde não saiu mais. O corpo dela foi direto para o crematório de Itajaí.

“Ia começar a viver agora”

“Não teve velório. Chegou um furgão preto da funerária, abriu a porta, o padre fez as orações com caixão lacrado e do carro direto para a sepultura. Os filhos não puderam olhar para o rosto da mãe pela última vez”.

Vanessa Neuber Salm foi a primeira vítima da Covid-19 em Blumenau – Foto: Reprodução/Facebook

O blumenauense Jaison Salm, 40 anos, resume assim o sepultamento da esposa Vanessa Neuber Salm, 34 anos, no dia 6 de maio. Ela foi a primeira moradora de Blumenau a morrer em razão do vírus respiratório.

Servidora no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, a técnica de enfermagem passou 29 dias internada na UTI do Hospital Santa Isabel. Ela tinha artrite, uma doença autoimune, ia ao hospital fazer exames. Numa das idas, passou a se sentir mal.

Um dia, após cuidar dos filhos, pediu que o marido a levasse ao hospital. Tinha tosse e muita dificuldade para respirar. “Queria saber o que ela queria tanto me falar na UTI e não conseguiu. Queria ter tido uma conversa, poder abraçar”, relata Jaison.

Vanessa, o marido Jaison e os filhos – Foto: Arquivo pessoal

Vanessa deixa três filhos — um de 17 anos e gêmeos de seis — o marido e a família Salm que a acolheu. Muito nova ela perdeu os pais em um acidente de carro e o irmão em outro acidente envolvendo uma máquina agrícola.

Com muito esforço, Jaison e Vanessa conseguiram realizar o sonho da casa própria no ano passado. Para incentivar o primogênito, diagnosticado com espectro do autismo, ela tinha comprado máquinas de costura para que ele a auxiliasse na produção de artesanato, uma de suas paixões.

“Ela ia começar a viver agora. Explicar a falta que ela faz é impossível, temos que aceitar o inaceitável. Todas as noites as crianças rezam e choram, era a hora que ganhavam o colo da mãe que sabem que não tem mais”, comenta Jaison.

O tubarão da estrada

Hermes Palhano, de 51 anos, morreu em uma das longas viagens que fazia como caminhoneiro. “Ele deixava a família com o objetivo de fornecer alimento a outras”, diz Marcielly Palhano, filha do caminhoneiro, que o chamava de “tubarão da estrada”.

Voltando de viagem ao Nordeste, no dia 1º de maio, Palhano precisou ser internado na UTI do Hospital Universitário de Montes Claros, em Minas Gerais.

Hermes Palhano e a família – Foto: Reprodução/ND

Antes mesmo de chegar ao destino final, a cidade de Videira, onde morava com a esposa e uma filha, ele começou a sentir fortes sintomas da Covid-19. Mesmo sem apresentar doença preexistente, Palhano morreu uma semana depois.

“O mundo perdeu um grande homem. Sua história de vida foi marcada por muita dedicação, esforço e garra, um guerreiro que trabalhou a vida toda arduamente para sustentar a família. Deixou lembranças na memória de quem o ama, e também ensinamentos”, conta Marcielly.

“Deus, decidiu levá-lo para fazer morada com ele, o que restou à família foi a espera de que algum dia ele voltará de viagem para finalmente buscar os que aqui ficaram”.

A esposa de Palhano, Rosemar Alves dos Reis, acredita que algumas situações levaram ao agravamento da doença. “A primeira foi não ter acesso a tratamentos adequados na estrada. E a segunda foi o medo de ficar internado, pois estava longe de casa”, conta.

Rosemar critica a falta de apoio aos caminhoneiros, que continuam arriscando as vidas na estrada.

“A teoria nunca se torna prática e o que mostram é um conto de fadas aos telespectadores. Posso garantir que a realidade é bem diferente”, lamenta Rosemar sobre a perda de Hermes.

Importância da despedida

A pandemia da Covid-19 trouxe ainda mais dificuldades para um momento que já é de extrema dor. A internação solitária e falta de despedida dificultam o processo de aceitação da perda.

Segundo a psicóloga Anita Bacellar, especialista em terapia de luto, o processo de aceitação da perda passa por três etapas principais. A primeira é caracterizada por um momento de introspecção, em que a pessoa tem dificuldade em aceitar a morte.

Em um segundo momento ocorre a fase sensitiva, quando é possível sentir cheiros e ter sensações que remetem à presença da pessoa que partiu. Neste momento, explica Anita, há um desejo potencializado de encontrar quem se foi.

A terceira etapa é a tristeza, ponto fundamental para o processo de construção de sentido sobre a perda. “Começamos a assimilar que vamos precisar viver sem a pessoa. A cabeça começa a ficar em ordem novamente”, detalha.

Neste novo cenário, a morte é afetivamente desamparada e acaba dificultando que as etapas do luto sejam superadas. Para quem fica, além de assimilar a perda, é necessário conviver com as consequências da pandemia e temor de uma nova infecção.

“O processo de luto é individual e pode durar mais ou menos tempo, dependendo de como a morte afeta cada pessoa. O fato agora é que a Covid-19 dificulta a assimilação da perda, seja por não ter um velório ou pela rapidez com que a doença se torna fatal”, comenta a psicóloga.

Para amenizar a dor, Anita incentiva que sejam feitos rituais de despedida de forma tecnológica. Em Florianópolis, um crematório oferece uma cerimônia online, restrita à participação de parentes.

A cerimônia, que dura em média uma hora, é uma forma de “fechar um ciclo”, para assimilação do processo natural da morte.

A psicóloga fala ainda sobre o luto antecipatório, com despedida prévia. “Quando existe uma alta probabilidade de morte em função de doenças degenerativas, câncer avançado e agora a Covid-19, é importante interagir com a realidade do processo”, comenta Anita.

Isso não significa, explica a especialista, que devam ser um momento de dor e sofrimento, mas sim de amor e conforto. Bacellar diz ainda que a partir desse processo é possível lidar melhor com as etapas pós-morte.

Vidas que viram números

Com boletins diários sobre mortos pelo vírus, existe uma dificuldade geral em assimilar as estatísticas com a realidade: há vidas por trás dos números. Esse fator também prejudica as famílias, que entorpecidas pela morte, têm de lidar com a desconfiança e o esquecimento.

A psicóloga diz que é importante compartilhar vivências com pessoas que enfrentaram situações parecidas. No caso da Covid-19, isso pode servir também para aliviar uma tensão interna de enfrentar o desconhecido, afinal essas famílias passaram a ter algo em comum.

Anita ressalta ainda que o luto é responsável por trazer a tona uma série de questões desagradáveis, potencializadas quando há questionamentos sobre a veracidade da morte – ainda há quem duvide da letalidade do vírus.

Estado registra 100 mortes oficiais

As 100 mortes oficiais pelo novo coronavírus (Covid-19) foram confirmadas pelo governo do Estado nesta sexta-feira (22).

Para dar rosto e vida aos números, o nd+ acompanha todas as mortes pela doença em Santa Catarina. O levantamento é feito com prefeituras e governo do Estado.