Santa Catarina tem quatro indígenas mortos e 128 infectados pela Covid-19

Avanço dos casos de indígenas contaminados pelo novo coronavírus no Estado faz especialistas e lideranças classificarem a situação como gravíssima

Desde o início da pandemia e até a última segunda-feira (22), a Covid-19 matou Semira Coito, Urukã e outros dois indígenas catarinenses. No total, 128 foram infectados, de acordo com dados do Dsei-Interior Sul (Distrito Sanitário Especial Indígena). A situação é considerada gravíssima por lideranças e pesquisadores da área.

População é considerada grupo de risco para a Covid-19 – Foto: Agência BrasilPopulação é considerada grupo de risco para a Covid-19 – Foto: Agência Brasil

Duas das vítimas compartilham uma série de tristes coincidências. Semira, de 44 anos, e Urukã, 64, eram moradores de cidades vizinhas. Ela era agente de saúde em Ipuaçu e ele morador de Entre Rios, ambas no Oeste catarinense.

Pertencentes à etnia Kaingang, os dois foram atendidos no Hospital Regional São Paulo, em Xanxerê. Ele morreu antes, no dia 5 de junho, e ela perdeu a luta para o novo vírus no dia último 15. Ambos deixam dois filhos. A mais nova de Semira tinha apenas 12 anos.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as cidades onde eles viviam concentram o maior percentual de indígenas em Santa Catarina; Ipuaçu com 50% da população e Entre Rios com 20%.

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De acordo com o polo regional da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), 103 indígenas estão infectados pela Covid-19 na região. O polo regional atende Abelardo Luz, Entre Rios e Ipuaçu.

Indígenas em situação de vulnerabilidade

“A questão da Covid-19 nas comunidades é extremamente séria. Temos a vulnerabilidade social, que não é de agora, mas de décadas, e hoje isso fica muito evidente. Apesar das comunidades terem políticas especiais, tanto com a Funai (Fundação Nacional do índio) quanto a Sesai, nós ainda vemos muitas dificuldades”, comenta a doutora em saúde coletiva Francielli Girardi.

Girardi coordenou a produção do projeto audiovisual “Covid-19, fala Kaingang!”, utilizado pela Sesai para orientar comunidades indígenas sobre a doença e formas de prevenção. O material bilíngue contou com apoiadores e integrantes da Terra Indígena Kaingang do Toldo do Chimbangue, de Chapecó, para a produção.

COVID-19, fala Kaingang!Visando contribuir com a divulgação de orientações sobre a COVID-19 e suas formas de prevenção *nas comunidades indígenas*, foi construído um material *audiovisual bilíngue*, por professoras do Departamento de Enfermagem da Universidade do Estado de Santa Catarina em parceria com equipe audiovisual e indígenas da comunidade Toldo Chimbangue de Chapecó/ SC. #ficanaaldeia #saudeindigena #COVID19 #ficanaladeiaparente # abril indígena #emdefesadavidaVamos compartilhar

Publicado por Francielli Girardi em Quinta-feira, 23 de abril de 2020

Para ela, que atua na comunidade Kaingang, o que se vê atualmente é a força de trabalho dividida em duas atividades: o artesanato e subempregos.

“A Covid-19 impacta nesses empregos. O artesanato, onde eles precisam sair e vender, não é possível, pois eles estão restritos e isolados na comunidade, não conseguindo manter o sustento. A outra é a agroindústria, onde eles acabam se contaminando e levando o vírus para dentro da comunidade”, diz Girardi.

A preocupação, explica Girardi, não é restrita a Santa Catarina. No Brasil, segundo dados da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), divulgados nesta terça-feira (23), 7.753 indígenas foram infectados e 347 morrem pelo vírus. Ao todo, os doentes pertencem a 111 diferentes etnias.

Barreiras sanitárias contra a Covid-19

Em março, a população Xokleng se uniu para combater o coronavírus (Covid-19). Espalhados por 14 hectares — extensão que ocupa terras dos municípios de Victor Meirelles, José Boiteux, Doutor Pedrinho e Itaiópolis — eles construíram barreiras sanitárias na tentativa de que nenhum indígena fosse infectado.

Com maior fragilidade a doenças respiratórias, eles são classificados pelo Ministério da Saúde como grupo de risco para à Covid-19.

Nos acessos a terra indígena foram montadas barreiras para impedir o contágio da Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/Ana PattéNos acessos a terra indígena foram montadas barreiras para impedir o contágio da Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/Ana Patté

“Se ela [Covid-19] se alastrar aqui é o fim da comunidade”, afirma Ana Patté. Representante a Apib na região Sul, Ana diz que a ação se estende para outras medidas como o isolamento por sete dias de quem chega de fora e a saídas da aldeia apenas quando for extremamente necessário.

Uma das maiores dificuldades apontadas por Ana é justamente o isolamento caso haja algum infectado. “Nas casas moram cinco, seis pessoas. Mãe, pai, tio, avô, sobrinho. Será difícil isolar num cômodo um doente sem que os outros também contraiam o vírus”, diz.

O esforço, até o momento, apresentou resultados positivos. Não há na região registro de infectados entre a população indígena e as cidades onde fica à terra tem poucos casos confirmados, em geral. José Boiteux, por exemplo, tem apenas um caso confirmado da doença.

Preocupação com avanço da SRAG

Além da Covid-19, o avanço da SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) entre os indígenas também preocupa. A síndrome pode ser causada por outros vírus que não o coronavírus, como o da influenza e o rinovírus. Neste cenário, a Dsei-Interior Sul tem se preparado para conter ambos os agravos entre essa população.

As equipes de saúde, segundo o coordenador Alexandre Rossettini, estão acompanhando pacientes que apresentem febre, dor de cabeça e sintomas respiratórios como tosse e coriza. Uma atenção maior está sendo dada aos indígenas que retornaram às aldeias vindos de regiões onde já existem casos confirmados do vírus.

Outra medida adotada foi estabelecer uma ferramenta de classificação de emergência em três níveis, o que ajuda na criação de medidas específicas para as diferentes regiões.

Em Ipuaçu, cidade que registrou três mortes de indígenas pela Covid-19, foi decretada “Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional”, o que corresponde a uma situação em que há confirmação de transmissão local do primeiro caso de coronavírus.

A Diretoria afirmou ainda que recebeu nos últimos dias “um grande quantitativo oriundo do Estado de Santa Catarina”. Não foi informado, porém, para qual região esses testes serão encaminhados, nem a quantidade exata dos kits.

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