SC segue em colapso com ocupação de praticamente 100% da UTI

Dados ainda indicam lotação praticamente completa do sistema público de saúde; procurador-geral de SC fala em mais de 260 pessoas na fila para atendimento em UTI

Os dados desta quarta-feira (3) ainda indicam uma lotação de 99% dos leitos adultos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em Santa Catarina mas, na prática, são todos os leitos ocupados, dado o panorama de colapso já citado pelas autoridades de saúde de SC.

Na própria tabela que exibe os dados de ocupação o Governo do Estado incluiu uma nota que diz que os indicadores são “virtualmente inferiores” à taxa de ocupação real, considerando os horários de atualização e a alta oscilação e demanda de pacientes graves nas UTIs dos hospitais.

Há, inclusive, mais de 200 pacientes na fila de espera, segundo informação dada pelo procurador-geral do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), Fernando Comin.

sc; colapso; leitos; uti; covid;-19; hospitaisEstado procura abertura de novos leitos de UTI enquanto sistema público apresenta superlotação completa, na prática – Foto: Joice Kroetz – Assessoria de Imprensa HRTGB/ND

“Santa Catarina tem 261 pessoas na fila para UTIs e muitas morrerão na fila de espera. Elas já estão morrendo. Na quarta (24) da semana passada, eram 30 pessoas na fila. Ontem [segunda, dia 1º], 261. O MP é o porta voz dessas famílias que têm parentes no ‘corredor da morte’”, disse.

Os dados atuais indicam que são 838 pacientes da Covid-19 internados no Estado, que dispõe de 1.570 leitos ativos, estrutura que foi ampliada durante a pandemia, mas não suficiente para frear a quantidade de casos ativos e graves que teve pico nas últimas semanas.

O Estado amanheceu com somente dois leitos adultos disponíveis, sendo que as internações oscilam rapidamente, com novos pacientes dando entrada nos hospitais em uma frequência intensa. Isso, pois Santa Catarina nunca teve tantos casos ativos da doença, sendo mais de 37 mil, segundo dados desta quarta (3).

Além disso, diversos pacientes da região Oeste, que entrou em colapso primeiro do que as demais, estão sendo transferidos para o Espírito Santo, devido à indisponibilidade de vagas nos hospitais. Somente 16 leitos foram oferecidos no Estado.

A situação é tão grave que força os agentes de saúde a adotarem o protocolo universal dos hospitais, de ceder assistência aos pacientes que possuem mais chances de sobreviver.

“Vamos ter que escolher quem vem e quem fica, com base no quadro médico e idade”, lamenta a médica Paola David, diretora clínica do hospital Regional de Biguaçu, que também está em colapso, em entrevista ao ND+.

São somente sete dos 55 hospitais que dispõe de algum leito livre, segundo os dados desta quarta (3), mas seis deles estão ocupados em 90% ou mais.

Atualmente, a gestão estadual e demais autoridades procuram ampliação da oferta de leitos de UTI. Em Itajaí, o secretario de Saúde de Santa Catarina, André Motta Ribeiro, prometeu recursos aos hospitais da região e abertura de novos 40 leitos de UTI e outros 40 de enfermaria.

Além disso, na assinatura da Portaria 373, que dispõe sobre “procedimento para autorização de leitos de UTI adulto e pediátrico Covid-19 em caráter excepcional e temporário”, foram habilitados leitos em diversas cidades em Santa Catarina.

Cientistas, contudo, ressaltam que a medida ainda não é suficiente e pode ser algo somente paliativo, dada a situação.

“Os leitos são importantes, mas é uma parte da estratégia, não pode ser a estratégia toda. Isso é parte, é o final. A estratégia deve começar pela contenção, monitorar casos positivos, testar em massa, liberar resultado. Não dá pra esperar 10 ou 12 dias para liberar o teste. Não dá para conviver com esse cenário”, afirma o chefe do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Fabrício Augusto Menegon.

“Pode ser que não tenhamos local para enterrar os corpos”, diz epidemiologista

“Sem medidas enérgicas não temos como ter nenhum retorno à normalidade, nem ao crescimento econômico. Os hospitais estão lotando, as pessoas estão morrendo na porta do hospitais, morrendo em casa. Pode ser que não tenhamos local para enterrar os corpos”.

As palavras estarrecedoras são da doutora em Saúde Pública e Epidemiologia pela Fundação Oswaldo Cruz, Eleonora D’Orsi, que também leciona na UFSC.

Diante do colapso na saúde provocado pelo avanço da pandemia de Covid-19 no Estado, a pesquisadora ressalta que, com as medidas atuais tomadas em solo catarinense, não tão cedo haverá perspectiva de melhora na crise que se abateu em Santa Catarina.

Essa situação, já vista em outros estados e capitais, como Manaus, não trata-se de uma tendência, segundo a cientista, mas de um fruto das decisões do poder público.

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