Sem atendimento, dona de casa morre de Covid em casa: ‘Estava se despedindo’

Nara Regina Rosa morreu sufocada enquanto aguardava uma ambulância no bairro Capoeiras, em Florianópolis

Foram pelo menos seis ligações para o Samu antes de Nara Regina Rosa, de 41 anos, morrer de Covid-19 em casa, junto ao marido, André Tavares Frassetto, na manhã desta sexta-feira (19) no bairro Capoeiras, em Florianópolis.

Nara morreu em casa, no início da manhã de sexta Nara morreu em casa, no início da manhã de sexta (19) – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Aposentada há cerca de cinco anos por causa de uma doença rara no pulmão, conhecida como Boop (Bronquiolite Obliterante com Pneumonia em Organização), Nara havia testado positivo para a Covid-19 no último domingo (14), após crises intensas de falta de ar.

No mesmo dia, ela foi encaminhada ao Hospital Florianópolis, que é referência para o tratamento do novo coronavírus na Capital e, após uma série de exames e diante de um hospital atuando no limite da capacidade, a dona de casa foi liberada da unidade, permanecendo em observação.

“Os exames deram bons, a única coisa que pegou foi a pressão, por causa dos remédios”, conta André. Uma mancha no pulmão até foi registrada nas imagens laboratoriais, mas a equipe médica acreditava que fosse uma consequência do Boop. De acordo com André, as dificuldades respiratórias também haviam dado uma trégua à paciente.

“Estava se despedindo de mim”

Na noite de quinta-feira (20), porém, Nara sentiu dores severas na região onde a mancha havia sido verificada. “Fiz massagem, e ela disse que deu uma aliviada”, contou André, que ainda ofereceu medicação à esposa.

A situação piorou no começo da manhã, às 5h48, horário da primeira ligação feita ao Samu. “Ela tava me agradecendo, parecia que ela estava se despedindo de mim”, lembra André. Quando a ambulância chegou, depois de algumas tentativas de contato, o marido já lutava sozinho para manter a esposa viva, realizando massagens cardíacas. A ambulância, no entanto, não tinha oxigênio para a paciente.

Nara tinha uma doença pulmonar grave – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDNara tinha uma doença pulmonar grave – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

A orientação da equipe era de que Nara fosse de carro à unidade de saúde. Segundo os profissionais,  a paciente não seria aceita nos hospitais se chegasse de ambulância, por causa da alta lotação nos hospitais. André, que é motoboy, até tentou procurou uma carona com os vizinhos, mas ninguém atendeu. Vendo a piora no quadro da esposa, ele chamou novamente a emergência.

Às 6h11, momento da última ligação ao Samu, André conta que já havia perdido a esposa. “Foi fulminante”, revelou André.

Nara deixou marido e três filhos, com 20, 19 e 12 anos. Aposentada por invalidez, ela tinha muito medo da Covid-19. Por saber da condição de saúde delicada da esposa, André também se cuidava ao máximo, durante o trabalho, para evitar contágio em casa. “Sempre de máscara, muito álcool gel”, disse.

Casos graves devem ser atendidos, diz Samu

De acordo com a Central de Regulação do Samu, não existe orientação para que os profissionais não mandem pacientes para o hospital, mesmo em caso de lotação nas unidades de saúde.

O protocolo é de que seja realizada uma triagem para observar, atender e tentar entender o quadro do paciente. Se for grave, segundo o Samu, os atendentes devem encaminhá-lo a um hospital.

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