Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Tainhas vacinadas

Desconfio até que esse recheio de tainha, com massas e ervas, e muito parmesão, possa degenerar o produto, parecendo mais pizza do que peixe.

Não se preocupem, a tainha é da segunda onda, mas já chegou vacinada, com a esperança de viver nas costas de Santa Catarina, as mais belas do hemisfério. Antes de cair na rede, quis viver imunizada, para desfrutar da beleza litorânea – que sabia ser a da Ilha mais famosa e formosa do universo.

<span dir="ltr">A tainha preferiu correr os riscos da vida e </span><span dir="ltr">acabou numa rede (minha) amiga</span> &#8211; Foto: Divulgação/NDA tainha preferiu correr os riscos da vida e acabou numa rede (minha) amiga – Foto: Divulgação/ND

A turma do “lockdown” encheu a visitante de conselhos, além do “distanciamento social” já observado dentro do cardume, e muito bem treinado: – Tainhazinha, fique aí em sua casa, na Lagoa dos Patos, menina, não emigre , vais virar boia de comilão, frita ou escalada… A tainha preferiu correr os riscos da vida e acabou numa rede (minha) amiga – saltitante em sua dança mortuária, já moribunda nos estertores do seu “passamento”. Deus a tenha em bom poleiro e bom mérito.

Assim, nesse friozinho bem suportável deste abril belo e ameno, presenteei o meu palato com minha primeira tainha da estação, “traçando” a recém pescada, duplamente ovada, o peito oliváceo ainda estufado, a boca semiaberta no último sorriso da morte.

Tainha vem do grego “tagenias”, que é quase uma expressão idiomática. Quer dizer “boa pra fritar”. E as ovas então? Fritas, são como um prêmio, especiaria inigualada por qualquer outro fruto do mar, aí incluídas as ovas de fina estirpe, como as de esturjão, muito salgadas, quando transformadas em caviar.

Dizem que as tainhas de corso perderam o rumo e que já não são capturadas em cardumes, sendo localizadas pelo sonar dos pesqueiros japoneses ou pela pesca predatória dos que atacam o período do “defeso”. Muitas chegam do Rio Grande, sim, mas a bordo de caminhões frigoríficos.

Verdade que já não acontecem os “lances” de antigamente, autênticas mega-senas de 50, 60 mil tainhas na mesma rede. Parece que agora até os peixes nadam de máscara, assustados com as novas ondas e novas cepas – da pandemia, é claro.

Como escamas não transmitem o vírus, o produto ainda é palatável, mais saudável do que nunca, embora já não nos chegue à mesa com a assinatura da areia da praia onde a rede foi puxada.

Neste belíssimo pré-inverno ainda expectante de novas tainhas, vale a pena lembrar que Eça de Queirós gostava de lançar o seu monóculo sobre as ovas desse peixe nos mercados de Póvoa do Varzim, sua cidade natal.Como minha avó, comprando dos balaios dos antigos “peixeiros”, o autor de “Os Maias” também examinava as guelras, espetava o dedo nas ovas para sentir-lhes a consistência e saber se eram frescas.

Em “A Ilustre Casa de Ramires” Eça escreveu uma receita de sua tainha assada, a título de contribuição para a gastronomia escamada:– Aqui está como se prepara, ó estudiosos! Tomai essa tainha, escamai e esvaziai.

Preparai uma massa bem batida, com queijo (que pode ser parmesão), azeite, gema de ovo, salsa e ervas fragrantes – e recheai com ela a vossa tainha. Untai-a então de azeite e salpicai-a de sal. Em seguida assai-a num lume forte. Logo depois de bem assada e alourada, umedecei-a com vinagre superfino. Serví e louvai Netuno, deus dos peixes.

Desconfio até que esse recheio de tainha, com massas e ervas, e muito parmesão, possa degenerar o produto, parecendo mais pizza do que peixe. Como recheio, bastam as ovas fritas, ao natural. A tainha do Eça perde para a nossa tainha-mané e para as “gêmeas” que embucham o seu ventre. Mas, vinda a receita de quem vem, vamos reconhecer que ela tem lá o seu estilo.

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