Terceira dose de vacinas contra a Covid-19: entenda os estudos e o que se sabe

"Revacinação" de idosos com a Coronavac já foi tema de debate; recentemente, Pfizer e Astrazeneca iniciaram testes em voluntários

Apesar de menos de 50% da população brasileira ter recebido a primeira dose da vacina contra a Covid-19, e uma pequena parcela de 16,8% de brasileiros já estarem totalmente imunizados com a segunda dose até esta quinta-feira (22), o debate sobre a necessidade da aplicação de uma terceira dose repercute entre os especialistas.

A menor eficácia da Coronavac nos mais velhos trouxe o assunto à tona nos últimos meses e, recentemente, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou estudos clínicos da terceira dose da Astrazeneca e da Pfizer em voluntários.

Será necessária a terceira dose contra a Covid-19? Veja o que se sabe – Foto: Mauricio Vieira/SecomSerá necessária a terceira dose contra a Covid-19? Veja o que se sabe – Foto: Mauricio Vieira/Secom

O tema da “revacinação” voltou a repercutir nos últimos dias depois de a Anvisa autorizar testes no Brasil. No dia 14 de julho, a agência regulatória publicou uma nota sobre os pedidos da Pfizer e Astrazeneca.

“A Anvisa esclarece que, até o momento, não há estudos conclusivos sobre a necessidade de uma terceira dose ou dose de reforço para as vacinas contra Covid-19 autorizadas no Brasil. As pesquisas são desenvolvidas pelos laboratórios farmacêuticos. Até esta data, a Agência recebeu dois pedidos de autorização para pesquisa clínica que buscam investigar os efeitos de uma dose adicional do imunizante contra a Covid-19”, diz o trecho inicial da manifestação da Anvisa.

Na sequência, o órgão esclarece que assiste de perto todos os desdobramentos sobre as eficácias de vacinas, inclusive para novas variantes.

“A Anvisa vem acompanhando as discussões, as publicações e os dados apresentados sobre o surgimento de novas variantes do vírus Sars-CoV-2 e seu impacto na efetividade das vacinas. Até agora, todas as vacinas autorizadas no Brasil garantem proteção contra doença grave e morte, conforme os dados publicados”.

Como são os estudos da Astrazeneca e Pfizer

Os testes patrocinados pela Astrazeneca serão realizados somente no Brasil, e contarão com 10 mil voluntários. Foram anunciados os Estados da Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e São Paulo como parte do estudo.

Santa Catarina, inclusive, manifestou a vontade de fazer parte dos testes, caso fosse convidado.

Serão incluídos na pesquisa voluntários com idade entre 18 e 55 anos, que estejam altamente expostos à infecção com o novo coronavírus, como profissionais de saúde, por exemplo. Gestantes ou pessoas com comorbidades não poderão fazer parte.

Em nota, a Anvisa detalha que se trata de um estudo de fase 3, controlado, randomizado, simples-cego. A terceira dose da vacina da Astrazeneca será aplicada entre 11 e 13 meses após a segunda dose.

Já o estudo com a vacina da Pfizer investiga os efeitos, a segurança e o benefício de uma dose de reforço da sua vacina, a Comirnaty. Neste estudo, a dose de reforço da vacina da Pfizer será aplicada em pessoas que tomaram as duas doses completas da vacina há pelo menos seis meses.

Os testes da Pfizer foram autorizados pela Anvisa no dia 18 de junho e a condução do estudo é de responsabilidade do laboratório.

Astrazeneca e Pfizer fazem testes para terceira dose – Foto: Governo do Estado de Paraíba/Divulgação/NDAstrazeneca e Pfizer fazem testes para terceira dose – Foto: Governo do Estado de Paraíba/Divulgação/ND

Municípios brasileiros já pensam em reaplicações

No dia 1º de julho, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (MDB), informou em uma entrevista concedida à CNN que formula uma proposta para vacinar os idosos com uma terceira dose.

No entanto, Paes ressaltou que nada estava definido e que a proposta ainda teria que passar pelo aval do Ministério da Saúde. A intenção do prefeito carioca é que a reaplicação ocorra ainda neste ano.

Já o secretário de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirmou em uma entrevista coletiva no Instituto Butantan, nesta segunda-feira (19), que a Covid-19 “veio para ficar”, e que planeja uma nova campanha de vacinação com início em janeiro de 2022.

Porém, pode não se tratar somente de uma terceira dose, mas sim de vacinações anuais.

“Provavelmente nós teremos que vacinar anualmente. Mas, especificamente sobre a terceira dose, estamos preocupados em vacinar a população com as duas doses”, disse na ocasião o diretor-presidente da Fundação Butantan, Rui Curi.

Florianópolis passou de 300 mil vacinados nesta quinta-feira (22) – Foto: Cristiano Andujar/PMFFlorianópolis passou de 300 mil vacinados nesta quinta-feira (22) – Foto: Cristiano Andujar/PMF

Florianópolis, capital catarinense, atingiu a marca de 74% da população adulta vacinada com ao menos a primeira dose contra a Covid-19 nesta quinta (22).

Questionada sobre movimentações para uma possível aplicação de terceira dose, a Secretaria Municipal de Saúde respondeu que acompanha os estudos, mas o foco no momento é em garantir a imunização total dos moradores com as doses que estão definidas.

“Neste momento nosso foco é na vacinação com a segunda dose das vacinas que são recomendadas duas doses. Para a terceira dose aguardamos os estudos deste caso, seja para uma dose de reforço anual como no caso da H1N1 ou outros esquemas vacinais recomendados. Neste momento, o foco da Capital é vacinar toda a população elegível para a vacinação com as doses recomendadas para o calendário vacinal”, diz a nota.

Baixa eficácia da Coronavac levantou debate

No fim do mês de junho, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, afirmou que especialistas de saúde estão avaliando a possibilidade do reforço, enquanto inicia a imunização de adolescentes no país, de acordo com informações do portal R7.

No entanto, o médico infectologista de Santa Catarina, Martoni Moura e Silva, explica que, com o tempo, o imunizante fabricado pelo Butantan apresentou eficácia considerável.

“No início, mesmo com a taxa geral baixa, foi o suficiente para ser aprovada. Depois, se viu que a Coronavac é excelente para os casos não agravarem e precisar de internações em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Além disso, é eficaz até mesmo para as variantes. O recomendado é sempre tomar o imunizante que está disponível”, diz o infectologista.

Um artigo científico publicado pelo Instituto Butantan no dia 21 de junho informou que os resultados de uma nova pesquisa mostraram que o imunizante é eficaz entre 83,7% e 100% dos casos. Isso significa que a Coronavac tem a capacidade de reduzir a maioria dos casos que exigem algum cuidado médico.

Em nota, a SES (Secretaria de Estado da Saúde) informou que todas as vacinas aplicadas no Estado são eficazes. Assim como esclareceu que não estuda a aplicação da 3ª dose.

O Instituto Butantan também já explicou que não é necessária, no momento, a terceira dose da Coronavac para os idosos.

O que dizem os especialistas

O infectologista Martoni Moura e Silva cita que as análises da vacinação estão em andamento porque é uma doença nova, onde o imunizante foi descoberto em pouco tempo e os estudos ainda estão sendo analisados.

“Estamos construindo a história e, com o andar, vamos ver lá na frente se as pessoas estão com as defesas, mas com exames específicos. No momento, (a terceira dose) segue como especulação e coisa de quem quer jogar contra a vacinação para confundir a população”, afirma.

Não há indicações de necessidades de terceira dose da Coronavac até o momento, dizem especialistas – Foto: Elisiane Roden / Prefeitura de GasparNão há indicações de necessidades de terceira dose da Coronavac até o momento, dizem especialistas – Foto: Elisiane Roden / Prefeitura de Gaspar

O infectologista e diretor da SBI (Sociedade Brasileira de Imunizações), Renato Kfouri, também mencionou que “ainda não é hora de pensar em revacinação”, ao falar sobre o tema.

“Nenhuma indicação que haveria essa necessidade. Ainda não há evidências que sinalizam que a aplicação de mais uma dose resolveria”, afirmou ao responder sobre estudos que indicam que a eficácia da Coronavac diminui entre os mais velhos.

Kfouri esclarece que o que interessa mais são as respostas nos casos mais graves, o que não ainda não se mostrou necessário através de nenhum estudo.

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