Um mês após flexibilização social, escalada do coronavírus em Chapecó é de 10.333%

Especialistas consultados pelo nd+ apontam que crescente pode ser explicada pelo abandono das medidas de isolamento social, aumento da testagem e contágio dentro empresas 

Vinte e dois de maio de 2020, sexta-feira – 63 dias depois do primeiro caso confirmado de Covid-19 pelo governo estadual, Chapecó amanheceu com 626 infectados e duas mortes causadas pelo novo coronavírus. Capital do Oeste e pólo agroindustrial do Sul do Brasil, a cidade também é a número 1 no ranking de pessoas infectadas no Estado.

E após um mês das medidas que marcaram o afrouxamento do isolamento social, o município protagoniza a maior escalada da doença no território catarinense: em 30 dias, o número de casos cresceu 10.333% (de 6 infectados no dia 22 de abril para 626 no dia 22 de maio).

Para tentar explicar o aumento vertiginoso, o nd+ conversou com especialistas da área. Entre as hipóteses levantadas está o completo abandono das orientações de distanciamento social, com festas em praças públicas e aglomerações. O contágio dentro de frigoríficos, faixa-etária dos pacientes, aumento da testagem e a localização da cidade também pode ajudar a explicar a crescente.  

Chapecó/SC – Foto: Ascom/ND

No dia 22 de abril, Chapecó contabilizava seis pacientes com a doença. Outros 106 suspeitos já tinham sido descartados e o coronavírus ainda não havia se interiorizado pelo Estado. Naquela data, a cidade de 220 mil habitantes estava na 25ª posição no número de infectados –  atrás de municípios bem menores como Braço do Norte, de 30 mil habitantes, 27 casos e duas mortes.  

Com o índice controlado da doença, nessa mesma data parques e praças municipais foram reabertos. Em um movimento estadual, o governo liberou academias, shoppings, restaurantes e centros comerciais

Para a médica infectologista Carolina Ponzi, apesar de as “pessoas terem respondido de uma maneira adequada” às medidas de isolamento na primeiras semanas,  em determinado momento o Estado fez um movimento de flexibilização que diminuiu o isolamento. “Isso, eu acho que foi determinante” comenta. 

Com o passar dos dias, diversas festas clandestinas foram fechadas. Em 22 de março, a Polícia Militar chegou a apreender jovens que descumpriram a medida e realizaram um evento em via pública. 

Flagrante no prolongamento da avenida Getúlio Vargas – Foto: Reprodução/ND

Em outra festa, no dia 20 de abril, imagens divulgadas pelas redes sociais mostraram vários veículos estacionados na principal avenida do município com pessoas sobre as calçadas. Algumas, sem qualquer cuidado quanto ao contágio do vírus

Uma semana depois, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, os casos cresceram de 6 para 38 – um aumento de 533%. Em entrevista, o prefeito Luciano Buligon afirmou que a população estava se infectando em “momentos de lazer”. 

“Isso é natural, pois o vírus fica incubado entre 10 a 14 dias e como muitos casos são em leves, a aglomeração ajuda a propagar a doença”, justifica pesquisador que lidera as análises da Univali (Universidade do Vale do Itajaí) em relação ao coronavírus no Estado, Marcus Polette. 

Apesar de a Secretaria de Estado de Saúde não ter dados separados por municípios, segundo a Polícia Militar, a média de isolamento social em abril em todo o território catarinense foi de 50%. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), para frear a disseminação do vírus e evitar o colapso no sistema de saúde a média precisa estar acima de 70%. 

Como consequência, a cidade ultrapassou os três municípios com mais infectados do Estado e foi a 626 casos. Em relação a Florianópolis (com 525 casos), segundo colocado no ranking, Chapecó tem 19% a mais de pessoas com o vírus. Blumenau (com 480 casos) vem logo atrás, com 30% menos de casos em relação a Chapecó. 

Doentes em Chapecó são mais jovens

Diferentemente do cenário estadual, a Covid-19 tem afetado pessoas mais jovens em Chapecó. Segundo o painel de monitoramento do coronavírus em Santa Catarina nesta sexta-feira (22), dos 626 casos computados na cidade do Oeste, 187 pessoas (ou 29%) tinham entre 20 a 29 anos. No Estado, onde são 5.610 infectados, o índice nesta faixa etária cai para 17%.

Por esta razão, aponta a infectologista Ponzi, os casos da doença no município são menos graves. Enquanto em Chapecó 1,1% dos doentes (sete) estão internados em UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), em Santa Catarina esse índice é de 3.9% (ou 219 pessoas).

“Os nossos casos aqui são de pessoas mais jovens, mas não é porque a gente não tem muitos casos graves aqui que a gente tem que relaxar total. Para aquela pessoa que perdeu um familiar por Covid-19 isso é 100%”, argumenta a infectologista ao relacionar as aglomerações, festas e eventos como consequência na alta dos casos.  

Com o avanço da pandemia, o governo do Estado passou a recomendar medidas mais duras de isolamento orientou o fechamento do comércio não essencial por 14 dias em Chapecó. A cidade não acatou, mas informou que iria aumentar a fiscalização. 

Por meio de nota, o executivo disse que do dia 9 de maio até a última quinta-feira (21), 24 pessoas foram multadas por não utilizar máscara. Em relação à fiscalização de festas, a prefeitura afirmou que fez uma ação conjunta com órgãos de segurança cujo principal objetivo foi orientar a população. Juntos, Guarda Municipal e Vigilância Sanitária realizaram 1.400 atendimentos. 

Localização da cidade ajudou no aumento, diz professor

Apesar da circulação de pessoas ter diminuído com a proibição do transporte público, outro aspecto para o aumento dos casos na cidade é apontado pelo especialista Marcus Polette como conurbação. O fenômeno que corresponde pela interação entre as cidades vizinhas, explica o professor, foi fundamental para a disparada nos números. 

“Eu vejo que as relações sociais e de trabalho são muito fortes entre os municípios. E esse fenômeno ocorre muito forte de Chapecó”, diz Polette após afirmar que a crescente da Covid-19 ocorreu também na região do Grande e Meio Oeste.

Somados a Chapecó, até a última quinta-feira (21) as nove cidades que têm limite com o município contabilizam 718 casos “Veja que a doença se espalha e, com o afrouxamento do isolamento, a doença se alastra nas cidades menores com menos estrutura” disse.

Municípios de SC que têm limite com Chapecó e o número de casos

  • Guatambú – 17
  • Planalto Alegre – 6
  • Nova Itaberaba – 1
  • Coronel Freitas – 1
  • Cordilheira Alta – 1
  • Xaxim – 21
  • Arvoredo – 8
  • Seara – 31
  • Paial – 6

Testes ajudam a elevar o número de casos

Testes comprovam muitos casos Foto: Flavio Tin/ND

Além das aglomerações, Ponzi levanta a hipótese de que a explosão no número casos se deve também ao aumento das testagens. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, Chapecó testou 2.615 pessoas. 

Deste número, 894 pessoas tiveram o exame para a Covid-19 negativo. “Eu acho que a Covid-19 está parelha em todo o canto, a diferença também é que a gente está testando mais agora”, explica a médica. 

Segundo a nota técnica 002/2020 do governo estadual, atualizada em 5 de maio, Chapecó começou a testar todos os moradores que apresentam sintomas de síndromes gripais, além dos pacientes com SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

Doença chegou a 69% do território 

Dos 49 bairros de Chapecó, a Covid-19 já chegou em 37, de acordo com a prefeitura da cidade. Segundo o boletim atualizado desta sexta-feira (22), que contabiliza mais 86 casos do que o painel do governo do Estado, Chapecó tem 75,5% do município com casos. 

Para o professor Marcus Polette, no entanto, a tendência é de ainda mais aumento. Segundo o pesquisador, como a doença tem um potencial grande de contágio mesmo com medidas restritivas, o afrouxamento delas deu início a explosão. 

“A doença é muito veloz. Ele se alastra pelas estradas e chega nas cidades maiores, depois nas menores. Entra nos bairros, depois nas ruas. Isso tem aumento se não temos pessoas isoladas”, comenta o especialista. 

Divulgado em abril, o relatório do Imperial College, de Londres, estimou que a taxa de transmissão do novo vírus é de uma para cada três pessoas. O estudo mostrou ainda que o Brasil tem um dos maiores índices de contágio do mundo. Em média no País, cada pessoa com Covid-19 passa a doença para outras 2,81. A análise completa, em inglês, pode ser lida aqui. 

Abatedouros

Chapecó conta com três agroindústrias e duas delas estão instaladas no bairro Efapi, na área Oeste do município, com 70 mil habitantes. Ambas seguem em atividades ininterruptas desde o início da pandemia, com adequações às orientações do Ministério da Saúde.

Dados da Secretaria Municipal de Saúde demonstram que a maior concentração de pacientes infectados pela doença está no Efapi, com 170, que reúne mais de 45 loteamentos. Um deles é o Jardim do Lago com 66 pessoas contaminadas, seguido por 62 no Alta Floresta.

Número atualizados nesta sexta – Foto: Ascom/ND

A SC-283, que passa pelo bairro Efapi, dá acesso a quatro municípios: Guatambu (16 casos), Planalto Alegre (5), Nova Itaberaba (1) e Caxambu do Sul (7). Apesar da circulação de pessoas nesta região, especialistas apontam que as infecções ocorreram de forma comunitária dentro das agroindústrias. 

“Dados repassados do município indicam que cerca da metade dos casos são de trabalhadores de agroindústrias”, afirmou a coordenadora da Procuradoria do Trabalho no município, Mariana Casagranda. 

Conforme a procuradora, a Aurora Alimentos informou na terça-feira (19), a confirmação 138 casos de Covid-19 nas unidades de Chapecó e do município vizinho, Guatambu, além de 29 pacientes suspeitos.  A BRF detalhou a confirmação de 126 casos positivos e 14 suspeitos. Já a Ecofrigo 40 casos positivos e 12 suspeitos. Nesta data, conforme dados do Estado, o município registrava 597 diagnósticos da doença.  

“São pessoas de diversos municípios da região que trabalham em Chapecó”, disse a procuradora do trabalho. No entanto, esse número repassado pelas agroindústrias se refere apenas a colaboradores que moram na cidade chapecoense. Ou seja, o diagnóstico de infectado pode ser ainda maior, se considerado habitantes vizinhos que trabalham na Capital do Oeste do Estado. 

Para Mariana Casagrande esses números apresentados pelo município “são muito preocupantes”. “A Vigilância Sanitária Municipal já esteve nestes locais, fez fiscalizações e está em contato com as agroindústrias”, disse.

O Boletim Estratégico – Covid-19 Chapecó, com as ações de enfrentamento ao coronavírus, conta também com o plano de enfrentamento das agroindústrias locais. Ao todo, o documento tem mais de 600 páginas com o detalhamento de todas as medidas adotadas pelas empresas.

Grande Efapi tem 70 mil habitantes – Foto: Alexandre Madoglio/ND

Devido ao avanço da doença, especialmente nas agroindústrias, o MPT-SC (Ministério Público do Trabalho) firmou TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com as empresas visando conter o aumento do número de casos. 

São medidas de afastamento de trabalhadores de grupo de risco, distanciamento de postos de trabalho, instituição de protocolos de testagem dos casos suspeitos e também rastreamento dos trabalhadores que tiveram contato com pessoas contaminadas.

“Tendo sido celebrado o TAC, esperasse que as medidas seguidas neste documento sejam suficientes e, que, sejam implementadas para conter o aumento dos casos. O que vai depender é de realmente as empresas implantarem, o que será aferido em futuras fiscalizações”, enfatizou a procuradora do trabalho. 

Mariana avalia o reforço das medidas de prevenção ocorreu em um momento importante, mas salientou que “já é uma tratativa que vinha ocorrendo há alguns dias. A BRF foi a primeira que firmou o termo e ontem a Aurora”. 

A procuradora do trabalho enfatizou que, se o número de infectados continuar subindo, novas medidas deverão ser adotadas pelos setores de fiscalização. 

“Ministério Público do Trabalho vem acompanhando de perto essa situação em contato com Vigilância Sanitária e com as empresas para aprimorar esses processos de afastamento dos trabalhadores de risco e rastreamento dos casos suspeitos”, completou. 

* Os dados usados para produzir este material são referentes ao dia 22 de maio de 2020 e fornecidos pela secretaria de Estado de Saúde, através do painel de monitoramento da doença. Veja os dados aqui. 

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