Vacinação em Santa Catarina terá controle para evitar os ‘fura-filas’

Depoimento de profissional de saúde levanta suspeitas sobre processos de vacinação; municípios terão que prestar contas

Os municípios catarinenses terão que informar à Vigilância Epidemiológica, ao menos duas vezes por semana, o nome e a quantidade de vacinados contra a Covid-19.

Secretarias de Saúde terão que informar periodicamente à Vigilância Epidemiológica estadual a quantidade e os nomes dos vacinados contra a Covid-19 – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom/Divulgação/NDSecretarias de Saúde terão que informar periodicamente à Vigilância Epidemiológica estadual a quantidade e os nomes dos vacinados contra a Covid-19 – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom/Divulgação/ND

A orientação foi acordada em reunião virtual, realizada na manhã desta quarta-feira (27), com técnicos das vigilâncias municipais de todo o Estado. No encontro, uma servidora relatou que a falta de controle sobre a vacinação tem facilitado irregularidades, como a ação dos fura-filas.

Segundo a profissional de saúde, que atua no Estado, irregularidades estariam ocorrendo em Biguaçu e Florianópolis, com a vacinação de pessoas que, apesar de integrarem os quadros da saúde, não estão atuando na linha de frente.

Ao ND+ ela disse que outros casos semelhantes já tinham sido averiguados.

“Uma clínica de especialidades de Biguaçu está ligando para todos os especialistas, que eventualmente atendem pacientes lá, e estão vacinando eles no auditório. Não basta só enviar vacinas para o local. Ontem (27), o HU estava vacinando os laboratórios, mas ainda não vacinou a emergência Covid”, declarou a mulher.

A profissional, que pediu para não ser identificada, informou que situação semelhante ocorreram em um hospital particular de São José.

“Existe ordem de vacinação entre os profissionais de saúde, primeiro emergência e UTI, depois as outras equipes, e o que ocorreu em alguns casos foi isso, inverteram a ordem”, explicou.

Segundo a funcionária, tanto em São José como em Biguaçu, as unidades privadas fizeram comunicados aos médicos que não “necessariamente atuam na linha de frente”.

Após essas declarações, a Secretaria de Saúde de Biguaçu interrompeu a vacinação na clínica privada, que chegou a imunizar 44 profissionais do seu quadro.

O secretário de Saúde de Biguaçu, Bruno Célio da Silva, disse que os vacinados são profissionais da Saúde e, portanto, estão entre os prioritários, mas de qualquer forma o município está averiguando as informações. “Em um primeiro momento não foi constatada irregularidades”, afirmou.

A prefeitura de Florianópolis não respondeu ao questionamento sobre a ordem de vacinação dos grupos prioritários no HU.

“É um bem coletivo”

O superintendente de Vigilância em Saúde, Eduardo Macário, afirmou que a vacina “não é um bem individual, é um bem coletivo” e disse que os casos que não se enquadrem nos grupos prioritários devem ser denunciados.

“O vacinador pode se recusar de vacinar quem não se enquadra no grupo prioritário. Sabemos que existe esse tipo de pressão na ponta e isso tem que ser denunciado.”, afirmou.

O promotor de Justiça Douglas Martins, do CDH (Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e Terceiro Setor), representou o Ministério Público na reunião e pediu que as denúncias fossem formalizadas ao órgão.

Ele lembrou da recente decisão da Justiça do Amazonas, que determinou a apresentação da lista de todos os vacinados como forma de coibir que pessoas fora dos grupos prioritários sejam vacinadas.

Na semana passada, o Ministério Público de Santa Catarina requisitou essas listagens aos municípios de São Joaquim, Urupema e Bom Retiro, após denúncias de que autoridades teriam furado a fila.

Em 10 dias, SC aplicou 48,7 mil doses

Há dez dias, desde que o Estado deu início à campanha de vacinação contra a Covid-19, técnicos da Vigilância Epidemiológica trabalham para tentar atualizar os dados de vacinados e de vacinas distribuídas.

O SIPNI (Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações), que deve armazenar os dados de vacinação, tem apresentado lentidão, motivo pelo qual o Estado tem enfrentado dificuldades para obter informações sobre o número real de vacinados.

Até o momento foram aplicadas 48,7 mil doses da vacina em todo o Estado – Foto: CRISTIANO ESTRELA//DIVULGAÇÃO/NDAté o momento foram aplicadas 48,7 mil doses da vacina em todo o Estado – Foto: CRISTIANO ESTRELA//DIVULGAÇÃO/ND

A distribuição das vacinas também enfrenta problemas, já que elas são distribuídas para as regionais e de lá seguem para os municípios, que ficam responsáveis pela administração das doses.

Nesta quarta, a Vigilância Epidemiológica divulgou o primeiro balanço da vacinação catarinense. Até o momento foram aplicadas 48,7 mil doses da vacina em todo o Estado.

Os dados foram coletados de forma manual, com as secretarias municipais das cidades que aplicam a vacina. A partir da próxima semana, além do SIPNI, as vigilâncias locais também terão que informar através de um formulário próprio do Estado, os quantitativos das doses aplicadas, pelo menos duas vezes por semana.

O sistema, segundo divulgou a equipe técnica na reunião com a vigilâncias, vai servir para garantir o controle sobre as vacinas encaminhadas aos municípios. Esse mecanismo deve funcionar até que o sistema do governo federal volte à estabilidade.

Segundo o Ministério Público, “nenhum município está dispensado de registrar o nome e dados de cada vacinado, inclusive com qual grupo prioritário ela pertence”.

É possível acompanhar os dados da vacinação por município em Santa Catarina por meio do Vacinômetro do ND+.

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