Vacinas contra coronavírus são estudadas desde antes da pandemia

Velocidade marca a produção dos imunizantes Sinovac, Oxford e Pfizer contra o novo coronavírus; pesquisas e tecnologia de longa data possibilitaram o rápido desenvolvimento das vacinas

As vacinas contra a covid-19 devem ser as mais rápidas da história a ficarem prontas, principalmente porque a tecnologia e o conhecimento avançaram o suficiente para que isso seja possível.

Anvisa libera testes com vacina que busca voluntários em SC – Foto: Gustavo Fring/PexelsAnvisa libera testes com vacina que busca voluntários em SC – Foto: Gustavo Fring/Pexels

Uma vacina contra a bactéria Haemophilus influenzae, que causa a meningite, demorou 92 anos para surgir, desde o descobrimento do patógeno. A de poliomielite, 47 anos; a do sarampo, dez anos.

Ocorre que vírus e bactérias têm características próprias, que podem facilitar ou dificultar o desenvolvimento de um antígeno.

No caso do coronavírus, não houve até agora mutações significativas, o que é fundamental para uma vacina ter sucesso.

Além disso, a primeira cepa de coronavírus é conhecida pelos cientistas desde 1960, chamada de HCoV-229E, que, junto com outras três causa até hoje resfriado comum em humanos.

Portanto, para quem está dentro dos laboratórios, não se trata de um vírus novo, apenas uma variante daquilo que já se estuda há muitos anos.

Só é possível ter vacinas quase sendo lançadas hoje porque anos de estudos já estavam disponíveis para os cientistas quando o SARS-CoV-2 surgiu, em dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan.

Fabricada pela farmacêutica chinesa Sinovac, os testes estão sendo realizados desde 21 de julho em seis Estados, em 9 mil voluntários. Foto: Divulgação/Sinovac Biotech LtdaFabricada pela farmacêutica chinesa Sinovac, os testes estão sendo realizados desde 21 de julho em seis Estados, em 9 mil voluntários. Foto: Divulgação/Sinovac Biotech Ltda

Sinovac Biotech

A vacina da Sinovac Biotech, testada também no Brasil por meio de uma parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo, usa uma tecnologia tradicional, de vírus inativado, a mesma das vacinas da gripe oferecidas todos os anos no SUS.

A empresa chinesa começou a partir de 2003 os primeiros estudos para uma vacina contra o primeiro coronavírus SARS-CoV-1, que provocou uma epidemia naquela época na Ásia.

Em 2004, a Sinovac já havia feito os primeiros testes clínicos em humanos. Ou seja, os chineses já têm tecnologia para o desenvolvimento de imunizantes contra o coronavírus há 16 anos.

Logo que o SARS-CoV-2 emergiu, o laboratório direcionou a linha de pesquisa para esse vírus, cujo genoma tem 80% de semelhança com o SARS-CoV-2.

Vacina de Oxford: desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca. Foto: ReproduçãoVacina de Oxford: desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca. Foto: Reprodução

Oxford

Já a Universidade de Oxford, no Reino Unido, já tinha à disposição uma plataforma vacinal que pode ser adaptada em um curto espaço de tempo para novos vírus, chamada ChAdOx (abreviação de chimpanzé adenovírus Oxford).Como o próprio nome diz, o veículo é um adenovírus de chimpanzés. Este é um tipo de vírus inofensivo e enfraquecido que geralmente causa resfriado comum nos primatas.

“As equipes já haviam usado a tecnologia de vacina ChAdOx1 para produzir vacinas candidatas contra vários patógenos, incluindo gripe, zika e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), outro coronavírus. Eles já haviam começado a trabalhar na preparação para uma pandemia com a tecnologia por trás do ChAdOx, em preparação para ‘Doença X’. Quando a doença surgiu na China, eles se moveram rapidamente”, explica a Universidade de Oxford.

Os cientistas, então, acoplaram a esse adenovírus partes do novo coronavírus que julgavam ser interessantes para produzir uma resposta imunológica satisfatória.

Vacina é desenvolvida pela norte-americana Pfizer e pela alemã BioNTech – Foto: Divulgação/BioNTechVacina é desenvolvida pela norte-americana Pfizer e pela alemã BioNTech – Foto: Divulgação/BioNTech

BioNTech/Pfizer

A alemã BioNTech já trabalha há mais de uma década com a tecnologia de RNAm (ácido ribonucleico mensageiro) para o tratamento de câncer, por meio de imunoterapia.

Desde 2018, tem parceria com gigante norte-americana Pfizer para o desenvolvimento de vacinas da gripe também baseadas em RNAm.

Quando surgiu a covid-19, a empresa fechou um acordo com a chinesa Fosun Pharmaceutical para a criação de uma vacina naquele país.

Posteriormente, a Pfizer também entrou no negócio, mas para produzir e distribuir a vacina nos resto do mundo.

Tudo isso só é possível graças a ferramentas que não existiam há 20 anos para o desenvolvimento de vacinas — a engenharia genética é uma delas.

A capacidade de sequenciar genomas e manipular nanopartículas deve revolucionar ainda mais as imunizações daqui para a frente, e a estreia dessa nova era será com as vacinas contra a covid-19.

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Saúde

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