Vício em video games é desafio para os pais e profissionais de saúde

O tipo de vício foi considerado doença pela OMS e pais precisam estar alertas ao comportamento das crianças

Os olhos atentos à tela, a face iluminada pela luz que irradia e os dedos se movimentando incansavelmente no controle remoto, assim seria uma pequena descrição de crianças e adolescentes jogando videogame. Sabe-se que o video game faz parte dessa nova geração que “já nasceu com chip” e que veio para ficar. Por isso, o desafio é como lidar com os filhos e com o uso deste aparelho tecnológico e sua realidade virtual? Qual é o limite apropriado de tempo de jogo? Até onde é saudável se divertir com o video game? 

Os irmãos Antônio (centro),8, Joaquim (à esq.), 5, e Francisco, 3, têm horários controlados pelos pais para jogar - Daniel Queiroz/ND
Os irmãos Antônio (centro),8, Joaquim (à esq.), 5, e Francisco, 3, têm horários controlados pelos pais para jogar – Daniel Queiroz/ND

Pela primeira vez na história, a OMS (Organização Mundial de Saúde) classificou o vício em video game como um distúrbio mental. Em janeiro deste ano, foi anunciado que o transtorno de vício em games seria incorporado como doença pelo 11º Catálogo Internacional de Doenças. O documento descreve o problema como um padrão de comportamento frequente de vício em games, tão grave que leva o indivíduo a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida.

Para Marcelo Calcagno Reinhardt, médico especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência, a medida da OMS “reflete o retrato do comportamento da sociedade pós-moderna, em que a diversão em muitos casos é em demasia, os horários são inadequados, alguns jogos, inclusive estão sendo usados por crianças com faixa etária incompatível com a temática e que incitam a violência e aumentam a ansiedade”.

Alguns países identificaram essa condição e já adotaram medidas mais severas para combater o problema. Na Coreia do Sul, por exemplo, o governo criou uma lei para proibir o uso de games por pessoas menores de 18 anos entre meia-noite e seis da manhã.

No Japão, os jogadores recebem uma advertência caso ultrapassem mais do que uma determinada quantidade de horas por mês jogando video game. Até na China, gigante do mundo tecnológico, determina-se um limite de quantidade de horas que uma criança pode jogar.

Para a Associação Americana de Pediatria, os pais devem limitar o tempo que seus filhos passam em frente à tela, seja televisão, computador, celular ou tablet, para duas horas por dia. Esse tempo não inclui, no entanto, o uso dos aparelhos para fins acadêmicos..

Cristiane Scheuer procurou ajuda com a psicóloga Fernanda Gasperin para o filho Victor - Daniel Queiroz/ND
Cristiane Scheuer procurou ajuda com a psicóloga Fernanda Gasperin para o filho Victor – Daniel Queiroz/ND

Notas baixas na escola

Cristiane Scheuer, técnica em radiologia e mãe de Victor Lúcio, de 12 anos, só começou a perceber que o filho precisava da ajuda de um especialista quando as notas da escola do menino baixaram e a interação social também. “Para controlar o uso do videogame em casa, tive de esconder os controles remotos, de modo que ele não pudesse jogar durante a madrugada, o que gerou muita irritabilidade nele”, explica Cristiane. Há anos, os pais de Victor se separaram e, sendo ele um garoto tímido, a mãe avalia que os jogos foram uma forma de fuga.

Segundo o psiquiatra, os malefícios dos viciados em video game são muitos e vão desde problemas de isolamento social, desatenção, ansiedade, depressão, até problemas de visão, problemas cervicais e distúrbios de sono. Para a psicóloga Fernanda Baggio Gasperin, o grande desafio dos pais é não tirar totalmente o prazer dos filhos, mas estimular a tecnologia a favor da criança. Victor atualmente faz aulas de robótica e participou do Campeonato Estadual de Robótica entre as escolas particulares, onde pode interagir com outros adolescentes. Ele estuda no Colégio Salvatoriano Nossa Senhora de Fátima, no Estreito, que incluiu neste ano os jogos eletrônicos na 35a edição das Mini Olimpíadas.

Herika Zanette, professora de educação física da escola, explica que a ideia de inserir os jogos eletrônicos nas atividades é possibilitar que mais alunos participem, principalmente aqueles que não gostam dos jogos de quadra e de contato físico.

Os jogos eletrônicos já fazem parte do conteúdo curricular da educação física, mas além deles estão incluídos jogos de quadra, dança e artes marciais. Nas olimpíadas também incluiu dos jogos do Kinet, que são aqueles que necessitam de movimentação física, entre os quais estão boliche, atletismo, Adventure e Just dancing.

Melhor no quarto do que na rua

Outra realidade pouco falada é o fato de que, com o aumento crescente da violência nas cidades, os pais sentem-se mais seguros em saber que seus filhos estão em casa e no quarto jogando video game. Victor desabafa timidamente: “Eu preferiria estar jogando com outras crianças, mas tenho dificuldades em fazer amigos, por isso está sendo legal que os jogos eletrônicos foram incluídos nas Olimpíadas da escola”.

“Gosto muito de video game, principalmente do Roblox, que é parecido com o Minecraft. Neste jogo, a gente cria o personagem, tem os mapas para desvendar, objetivos para alcançar, é interativo e ainda tem chat para teclar com os amigos da escola que também jogam”, conta Antônio Schreiber Oliveira, 8 anos, irmão de Joaquim, 5 anos, e de Francisco, 3 anos.

A familiaridade dos meninos com a tecnologia é espantosa, fruto de uma relação que já começou desde cedo com o celular da mãe, que emprestava o aparelho para o menino ver joguinhos. Há um ano, o pai, Ygor Vieira de Oliveira, médico ginecologista, trouxe dos Estados Unidos o videogame XBOX One de presente para o filho mais velho, mas nem por isso a rotina da família foi alterada.  “Tem horário para tudo aqui em casa, por isso o videogame é jogado apenas no fim de semana ou um pouquinho depois das tarefas, pois as prioridades dos meninos são as atividades físicas das quais eles praticam, como o futebol, o taekwondo, a natação e as brincadeiras ao ar livre no fim de semana”, ressalta a mãe Cristina Schreiber Oliveira, médica endocrinologista. Ela, como médica, também teve o cuidado de explicar para seus filhos sobre a dopamina, substância que gera prazer e pode provocar dependência com o uso excessivo do videogame: “É normal sentir-se alegre jogando, entretanto, o nosso corpo precisa se alimentar, descansar e se divertir de outras formas, e não apenas com jogos eletrônicos”, explica  

O jogo também usa o mecanismo de recompensa do cérebro e funciona de forma semelhante ao vício por substâncias, como o alcoolismo, o tabagismo ou vício por outras drogas. 

Francesco Gaspar estuda em escola em que os jogos são usados de forma pedagógica - Daniel Queiroz/ND
Francesco Gaspar estuda em escola em que os jogos são usados de forma pedagógica – Daniel Queiroz/ND

O uso positivo da tecnologia

Entretanto, o videogame faz parte dessa nova geraçãoe e resta aos pais ou ao próprio jogador saber administrar o seu uso. O médico Marcelo Calcagno Reinhardt destaca: “Os pais precisam ensinar desde cedo o uso comedido e de acordo com a idade, ou seja, jogos adequados para cada faixa etária”. E reforça também: “Os adultos precisam dar exemplo aos filhos, estimulá-los a realizar atividades presenciais e não só virtuais, como a prática de esportes, atividades ao ar livre e brincadeiras criativas”. A psicóloga Fernanda Baggio Gasperin concorda com o seu colega: “Muitos pais são hipócritas, exigem uma atitude dos filhos e agem de outra forma, estão o tempo todo no celular, não interagem com as crianças, nem mesmo propõem outra atividade a elas”.  

Mas apesar de toda essa problemática em torno do vício em video game, há também pontos positivos às crianças.

Antônio, o filho mais velho de Cristina e Ygor e o mais ligado em tecnologia, entrou na Escola Happy Code, franquia brasileira que possui parceria com a Microsoft e a IBM, e que tem como objetivo ensinar crianças e adolescentes a programar os jogos e a criar aplicativos. A diretora da escola, Jolite Reolo, releva que o uso da tecnologia pode ter uma aplicação fantástica. “Se bem utilizada pedagogicamente, melhora o raciocínio lógico, a cognição, a resolução de problemas e a criatividade”, diz. Além disso, ela pontua que atualmente Florianópolis é um grande polo tecnológico e que e ensinamento pode ser usado no mercado de trabalho ou nas universidades de engenharia e informática. “A maioria dos brasileiros só usa a tecnologia importada, precisamos nos tornar criadores de tecnologia e compreender a fundo como são criados os jogos, ou seja, o objetivo é ser criador e não apenas usuário”, finaliza.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Saúde

Loading...