Vivendo com HIV: da vergonha ao ativismo na internet

No Dia Mundial de Combate à AIDS, celebrado neste dia 1º de dezembro, municípios de Itajaí e Balneário Camboriú preparam ações de enfrentamento à doença

Há 11 anos, Lucian Ambrós convive com o HIV. Hoje o administrador, de Balneário Camboriú, cria conteúdo para as redes sociais falando sobre como é viver com o vírus.

Em 1º de dezembro, o mundo comemora o Dia de Combate à AIDS – doença causada pelo vírus HIV. Um dia de conscientização e informação.

Lucian, que vive com HIV, tira foto com camiseta onde se lê "indetectável". Lucian, 32 anos, vive com HIV há 11 anos. – Foto: Reprodução/Instagram

Apesar de hoje falar abertamente sobre o assunto, Lucian só começou o tratamento quatro anos depois de receber o resultado positivo. Foi apenas há três anos que ele passou a falar abertamente do tema.

Em 2017, o administrador de empresas criou o projeto Posithividades, uma rede social voltada a pessoas que vivem com HIV.

“Eu tinha medo, vergonha, e isso levou à demora em começar o tratamento. Eu tinha preconceito com o medicamento”, conta.

O projeto explodiu e reuniu mais de 10 mil usuários de 60 países. Com o Posithividades, ele começou também a criar conteúdo para as redes sociais, disseminando informação sobre como é viver com HIV.

Aos 32 anos, Lucian já acumula mais de 10 mil seguidores no Instagram, produzindo conteúdo voltado a outros portadores de HIV. “Quando comecei, via lacunas. Queria informações, mas não tinha onde encontrar”. Foi aí que começou a falar mais abertamente sobre sua vida.

Hoje, o que Lucian considera mais difícil é definir seu público alvo. Formado em Administração, ele também criou outro projeto, uma plataforma colaborativa para profissionais da saúde. O Indetectável deve ser lançado em dezembro, em alusão ao Dia Mundial de Combate à AIDS, no dia 1º.

Importância do diagnóstico

De acordo com o médico infectologista, Dr. Pablo Sebastian Velho, o momento do diagnóstico é o mais importante, porque possibilita que o tratamento comece o mais rápido possível.

Existem três etapas para a realização do exame, explica. A primeira fase é o pré-aconselhamento, onde a pessoa pode esclarecer suas dúvidas e explicar as razões que a levaram a fazer o exame.

Depois disso, vem o teste propriamente dito, que pode ser realizado por teste rápido ou pelos exames de sangue tradicionais.

Por fim, o paciente passa pelo pós-aconselhamento, quando recebe o resultado do exame e mais informações sobre a continuidade do cuidado.

“Essas etapas são importantes para que a pessoa consiga trabalhar da forma mais tranquila a possibilidade de um resultado positivo e que seu impacto emocional possa ser adequadamente acolhido”, reforça o médico.

Teste rápido de HIVO momento do diagnóstico é o mais importante, porque possibilita que o tratamento comece o mais rápido possível – Foto: Arquivo/Agência Brasil/Divulgação/ND

Como acontece a infecção por HIV

HIV é a sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana. Causador da AIDS, este vírus ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças. O doutor Pablo explica que a infecção pelo HIV se desenvolve em etapas.

A primeira é a contaminação. Uma pessoa pode se contaminar de três maneiras principais: Pelo sangue, como transfusão, compartilhamento de instrumentos para uso de drogas ou materiais cortantes (inclusive alicates de unha não esterilizados); de forma sexual, ou seja, contato íntimo, inclusive o oral. E, por fim, de forma vertical, ou seja, a transmissão de mãe para filho, quando não adotadas as medidas de prevenção.

Logo após a contaminação, a pessoa pode ter alguns sinais e sintomas, chamados de síndrome retroviral aguda. Nesta fase, pode ocorrer febre, ínguas (caroços na virilha, pescoço ou axila), manchas no corpo, dor abdominal, feridas na boca e diarreia. O quadro costuma ser autolimitado e pode ser confundido com outras doenças comuns.

Depois dessa etapa, a infecção entra em uma fase de latência clínica, em que não se observam sinais e sintomas associados à infecção, mas existe uma batalha contínua entre o vírus e o sistema imunológico.

Por fim, se nada for feito nesse tempo, ocorre perda progressiva da capacidade de defesa do sistema imunológico, levando à AIDS, situação na qual a pessoa fica suscetível a diversas doenças com potencial gravidade.

Como é feito o tratamento

Não há cura para o HIV, mas o SUS (Sistema Único de Saúde) distribui, desde 1996, todos os medicamentos antirretrovirais de forma gratuita. Desde 2013, o SUS também garante tratamento para todas as pessoas vivendo com o vírus, independentemente da carga viral.

No passado, o tratamento era chamado de coquetel, porque envolvia um número muito grande de medicamentos ao longo do dia. Hoje, são apenas dois comprimidos distintos, tomados uma vez ao dia.

A avaliação da resposta ao tratamento do HIV se dá pelo monitoramento da carga viral no sangue, ou seja, quantas partículas virais que estão no organismo. Após o início do tratamento antirretroviral, espera-se que em até seis meses o vírus deixe de ser detectado na circulação, momento em que se diz que o vírus está indetectável.

Isso não é sinônimo de cura, pois o vírus se estabelece em locais considerados santuários de persistência do vírus, nos quais os medicamentos não chegam, explica o doutor Pablo Sebastian Velho.

“O importante é que, quando a pessoa que vive com HIV chega na fase indetectável, não há chance de transmissão do vírus pelas relações sexuais”, pontua.

HIV e Covid-19

De acordo com o doutor Pablo, pessoas que vivem com HIV não têm um maior risco de se infectar pelo Sars-Cov-2 (Covid-19) do que uma pessoa sem o vírus. A diferença pode se dar na evolução da doença, já que aqueles que estão nas fases de enfraquecimento do sistema imunológico têm mais chances de apresentar as complicações relacionadas à Covid.

Enfermeira faz teste rápido de IST. Itajaí e Balneário Camboriú oferecem testes gratuitos para ISTs. – Foto: Divulgação/Prefeitura de Itajaí

Municípios organizam ações em alusão à data

Mais de 90% dos pacientes em tratamento contra HIV/AIDS em Itajaí têm carga viral indetectável. Os dados são do Ceredi (Centro de Referência de Doenças Infecciosas), que realiza o acompanhamento dos pacientes na cidade. São 2.688 pessoas em tratamento, sendo que 2.459 são indetectáveis.

A partir desta terça-feira (1º), dia que é celebrado o Dia Mundial de Luta Contra AIDS, a Secretaria de Saúde de Itajaí organizou ações de conscientização, que vão até o final de dezembro.

A secretaria vai ofertar testes rápidos de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), que incluem a detecção do HIV, sífilis e hepatites B e C, além de realizar campanhas para sensibilizar a população para a importância da prevenção e do tratamento.

De acordo com Jacqueline Koch, enfermeira do programa de IST/AIDS/HIV da Vigilância Epidemiológica de Itajaí, o município atingiu a meta proposta pela UNAIDS (programa das Nações Unidas, fundado para criar soluções para o combate à AIDS).

Com isso, 90% dos pacientes diagnosticados com HIV estão em tratamento, e 90% deles estão indetectáveis.

Em Balneário Camboriú, o Centro Integrado Solidariedade e Saúde (CISS) e o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) organizaram uma programação reduzida, devido à pandemia de Covid-19.

Entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro, o CISS fará atendimentos extras, das 7h às 22h, aos pacientes pré-agendados, que já passam por assistência com a equipe multidisciplinar.

O CTA ainda realizará testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, além de aconselhamento para toda a população até às 21h30.

Casos de HIV em 2020 em Itajaí

Em 2020, Itajaí registrou 111 casos de HIV. O público mais afetado são homens heterossexuais, e a faixa etária mais atingida é dos 20 aos 39 anos.

Este ano, o município também registrou uma redução de 10,5% nos óbitos por HIV/AIDS, em relação a 2019.

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